O Palácio do Planalto passou a tratar como evidência de interferência estrangeira o vídeo divulgado pelo Departamento de Estado norte-americano no qual se afirma que o domínio dos Estados Unidos sobre o continente “nunca mais será questionado”. Para assessores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a peça publicitária confirma uma estratégia pessoal do secretário de Estado, Marco Rubio, para impedir que o petista conquiste um novo mandato em 2026.
Segundo esse grupo, Rubio teria transformado a América do Sul na principal vitrine de sua atuação à frente da política externa de Donald Trump. O objetivo, relatam, seria consolidar governos de direita no continente e isolar a influência chinesa, tendo o Brasil como peça-chave.
Vídeo resgata Doutrina Monroe e cita ação contra Maduro
A gravação de pouco mais de dois minutos reúne imagens históricas da Doutrina Monroe — linha de pensamento do século XIX que prega a liderança norte-americana nas Américas — e menciona intervenções recentes em países da região. Entre os exemplos, destaca-se a pressão sobre o presidente venezuelano Nicolás Maduro, classificada como “demonstração de força indispensável” para proteger os interesses de Washington.
No Planalto, o tom foi interpretado como recado direto: se os EUA se dispõem a agir abertamente na Venezuela, fariam o mesmo em qualquer nação que coloque em risco a hegemonia almejada. Para Lula, dizem auxiliares, a mensagem se alinha à retórica de Rubio, que desde a campanha de 2020 defende uma “diplomacia de quintal” capaz de reverter o avanço de Pequim e recolocar a América Latina sob tutela norte-americana.
Comparação com “Pinguins de Madagascar” expõe irritação
Integrantes da comunicação presidencial ironizaram os responsáveis pelo vídeo, comparando a ala ideológica do governo Trump a “Pinguins de Madagascar pilotando o Air Force One”. O comentário, à primeira vista folclórico, reflete a avaliação de que existe improviso — mas também ousadia — na tentativa de moldar o cenário político regional.
Assessores lembram que, no passado, a Casa Branca preferia ações discretas. Agora, sob Rubio, haveria disposição para declarar abertamente que a prioridade é impedir vitórias de candidatos alinhados à centro-esquerda, sobretudo no maior país do bloco.
Aposta na direita latino-americana inclui Brasil como joia da coroa
O diagnóstico interno é de que a ofensiva conta com aliados locais. A proximidade do secretário de Estado com a família Bolsonaro, reforçada em encontros públicos e trocas de mensagens, é vista como o principal canal para influenciar o processo eleitoral brasileiro. Sem o Brasil, avaliam os interlocutores, a correlação de forças projetada por Rubio ficaria incompleta.
Nos últimos meses, o ex-presidente Donald Trump manifestou apoio a forças conservadoras em países como Argentina e Chile. O alinhamento de pautas — combate ao “comunismo”, crítica ao multilateralismo e exaltação a políticas de segurança rígidas — teria, segundo Brasília, a intenção de gerar efeito dominó que culminaria na mudança de governo no Brasil.
Temor de interferência acirra clima pré-campanha
Embora ainda faltem dois anos para a eleição, ministros admitem temor de que os episódios se intensifiquem à medida que Lula confirme a tentativa de recondução. A leitura é a de que virá mais pressão, possivelmente acompanhada de ações de desinformação nas redes, área em que estrategistas republicanos acumulam experiência.

Imagem: Valdo Cruz
Diante desse quadro, auxiliares do presidente reforçaram a recomendação de ampliar o diálogo com europeus e demais parceiros a fim de contrabalançar a narrativa de hegemonia. Também se discute elevar o tom nas declarações públicas quando houver indícios de ingerência direta sobre assuntos internos.
China vira peça central da disputa de influência
Para os conselheiros de Lula, a tensão não diz respeito apenas a preferências ideológicas, mas a interesses geopolíticos. A China, principal rival econômico dos EUA hoje, tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil e expande investimentos em infraestrutura pela região. O vídeo do Departamento de Estado, ao evocar a Doutrina Monroe, seria uma tentativa de justificar medidas duras contra a presença chinesa.
Nesse contexto, o Brasil adquire importância estratégica duplicada: representa, ao mesmo tempo, o maior mercado da América do Sul e o governo de esquerda mais relevante do hemisfério. Mantê-lo fora da órbita de Pequim — e, na visão de Rubio, fora do comando de Lula — virou prioridade.
Cenário interno deve guiar reação brasileira
O governo petista ainda avalia qual a melhor forma de responder publicamente. Um grupo defende nota oficial rebatendo o teor do vídeo; outro prefere esperar para não dar holofote extra ao material. Há consenso, porém, de que a diplomacia brasileira não aceitará passivamente qualquer ação que extrapole limites institucionais durante o processo eleitoral.
Em reuniões reservadas, ficou decidido que as embaixadas brasileiras em Washington e Nova York intensificarão o monitoramento de discursos e movimentações de autoridades norte-americanas relacionadas ao Brasil. A ordem é produzir relatórios periódicos que possam subsidiar decisões no campo diplomático e, se necessário, jurídico.
Planalto vê segundo mandato como alvo direto
Por fim, colaboradores de Lula reafirmam que nunca foi tão explícita a tentativa de inviabilizar sua reeleição. O entendimento é que o vídeo não apenas sinaliza o retorno da Doutrina Monroe, mas também marca uma virada de chave: de agora em diante, Washington deixaria de atuar nos bastidores e passaria a se colocar como protagonista.
Enquanto os Pinguins de Madagascar seguem pilotando, resume um assessor, o governo brasileiro prepara o paraquedas — disposto a abrir se a turbulência eleitoral for turbinada por ventos vindos do Norte.
