Depois de meses de trocas de farpas e impasses no Congresso, o Palácio do Planalto e o Centrão recolocaram a engrenagem política para funcionar. O gesto mais ruidoso veio nesta segunda-feira (10), quando o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou apoio à tentativa de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A mudança de clima é reforçada pela reaproximação entre o chefe do Executivo e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que passou meses sem conversar diretamente com Lula e agora voltou a despachar no Planalto.
Os movimentos coincidem com o calendário eleitoral. Partidos do bloco — responsável por controlar a pauta do Legislativo nos últimos anos — decidiram adotar posição de neutralidade nacional, apesar de flertarem recentemente com a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). Nos estados, porém, formam palanques mistos que reúnem governistas e líderes do Centrão, sinal de que acréscimos regionais pesam mais que a identidade ideológica na hora de calcular votos e verbas.
Costuras de bastidor reacendem ponte entre Lula e Alcolumbre
A reconexão entre Executivo e Senado começou longe das câmeras. Interlocutores do Planalto sondaram Alcolumbre em busca de apoio para destravar indicações ao Supremo Tribunal Federal e a agências reguladoras. A troca de cargos por estabilidade política não é nova, mas voltou a ganhar corpo depois que emissários do senador demonstraram incômodo com críticas públicas do governo à atuação do Congresso. Sem a bênção do presidente do Senado, qualquer nome enviado ao plenário corre risco de derrota.
O encontro recente entre Lula e Alcolumbre, marcado pela presença de ministros palacianos, teve clima descrito por assessores como “protocolar, porém produtivo”. O senador abriu a conversa afirmando que “ninguém ganha brigando todo dia” e ouviu do presidente que “governar exige maioria sólida”. Em troca da disposição para votar temas de interesse do Executivo, o congressista recebeu sinal verde para discutir pleitos regionais no Amapá, entre eles obras de infraestrutura que ficaram travadas após cortes orçamentários.
Indicações ao Supremo entram no pacote
A pacificação também destravou a sucessão no Supremo. Alcolumbre, que preside a Comissão de Constituição e Justiça, vinha postergando a sabatina do jurista favorito do Planalto, à espera de contrapartidas. Agora, o governo aposta que a votação ocorra antes do recesso de julho, evitando crises institucionais prolongadas. Para aliados do senador, o recuo do Planalto nos ataques verbais ao Congresso contou tanto quanto a liberação de emendas para sua base.
Republicanos escolhe neutralidade, mas líder da Câmara fecha com Lula
O Republicanos, sigla de Hugo Motta, anunciou que não formará coligação nacional e liberou diretórios a fazer alianças locais. Mesmo assim, o deputado, conhecido pela habilidade de mediar votações complexas, decidiu vestir a camisa petista. O apoio surpreendeu parte da bancada evangélica — tradicionalmente refratária a Lula —, mas foi costurado com a promessa de ampliar recursos para obras de infraestrutura hídrica no semiárido, principal bandeira do paraibano.
Dirigentes do Centrão avaliam que o gesto de Motta pode levar outros parlamentares a declarar voto no presidente em troca de acordos regionais. O entorno de Flávio Bolsonaro, por sua vez, minimiza a debandada e diz contar com a máquina do PL para compensar perdas. Mesmo sem endosso nacional, o governador de Goiás, filiado ao União Brasil (parte do bloco), mantém conversas avançadas para compor palanque com o petista, reforçando a impressão de que as divisões estaduais moldam o comportamento do Centrão.
Criação de maioria depende de cargos e emendas
No desenho atual, o governo precisa de, ao menos, 308 votos para aprovar propostas de emenda à Constituição e 257 para projetos de lei ordinária. Com a adesão explícita de Hugo Motta, a conta fica menos apertada, mas ainda distante do ideal. Por isso, a Secretaria de Relações Institucionais revisitou planilhas de liberação de emendas parlamentares e abriu espaço em diretorias de estatais controladas pelo Ministério de Minas e Energia, área cobiçada por siglas do bloco.
Eleição força trégua, mas divergências continuam
A mudança de tom não apaga o histórico recente de atritos. Nos últimos quatro anos, Lula e líderes do Centrão protagonizaram embates públicos sobre teto de gastos, reforma administrativa e rito das Medidas Provisórias. Parlamentares reclamam que o Planalto envia textos genéricos e se exime de negociar detalhes, deixando ao Congresso o ônus de alterar pontos polêmicos. Já o Executivo acusa os congressistas de “fatiar” projetos para acomodar interesses localizados e travar iniciativas de impacto fiscal.

Imagem: Ricardo Stuckert / PR
A trégua é vista nos corredores do Congresso como “contrato de prazo curto”, válido até o fim do segundo turno. Se Lula garantir novo mandato, a relação ganha sobrevida, mas tende a ser renegociada com a formação de mesões partidárias e eventuais trocas de comando nas Casas Legislativas. Caso perca, a neutralidade do Centrão pode servir de argumento para se colocar à disposição do próximo governo, reforçando a fama de pêndulo que oscila conforme o vento eleitoral.
Quem ganha e quem perde com o novo arranjo
- Governo: amplia margem para aprovar projetos econômicos ainda em 2026, sobretudo a minirreforma tributária prometida para o segundo semestre.
- Centrão: renova o poder de barganha ao mostrar que decide o rumo eleitoral em bloco, mesmo quando fracionado em palanques estaduais.
- Oposição bolsonarista: perde parte do tempo de TV e do capital simbólico que partidos como Republicanos e União Brasil poderiam oferecer.
- Base progressista: vê com cautela a entrada de lideranças conservadoras, mas reconhece que o Centrão garante maioria em votações-chave.
Cenário pós-eleitoral no Congresso
Independentemente de quem vença a disputa presidencial, o Centrão já trabalha para manter o comando de comissões estratégicas em 2027, quando se inicia a próxima legislatura. A negociação envolve presidências de Infraestrutura, Orçamento e Constituição e Justiça. A lógica é simples: quanto mais cedo o bloco fechar posição, maior a chance de conservar recursos e visibilidade.
Para analistas, o alinhamento atual é sinal de que o Centrão entende a necessidade de demonstrar responsabilidade fiscal a investidores, sem abandonar a tradição de trocar apoio por emendas. Caso Lula saia vitorioso, a expectativa é de que ele redistribua pastas secundárias para satisfazer aliados. Caso contrário, o grupo deve buscar diálogo rápido com o novo governo para evitar perda de espaço.
Riscos de rompimento continuam latentes
A agenda ambiental e a discussão sobre endurecimento de leis penais podem reabrir fissuras. Parlamentares do agronegócio pressionam por maior flexibilidade nas regras de licenciamento, enquanto o Planalto promete manter os compromissos de descarbonização assinados em fóruns internacionais. Na pauta de costumes, partidos evangélicos preparam projetos que tensionam a ala progressista do governo.
Retrato de um pêndulo político
A capacidade de o Centrão oscilar entre polos ideológicos sem perder influência explica por que, passadas quatro décadas de redemocratização, o bloco continua a arbitrar vitórias ou derrotas presidenciais. Quando detecta risco de isolamento, estende a mão; quando percebe fraqueza do Planalto, eleva a fatura. O episódio atual repete a fórmula: oferecer estabilidade em troca de participação direta no orçamento e nos rumos do Estado.
O desfecho da eleição dirá se o pêndulo estacionará por mais quatro anos ao lado de Lula ou se voltará a buscar outro hospedeiro. Até lá, as sinalizações de apoio têm validade provisória, mas produzem efeitos imediatos — a começar pelo avanço de projetos paralisados e pela recomposição de pontes que pareciam irremediavelmente queimadas há poucos meses.
