O embate entre os deputados Alfredo Gaspar (PL-AL) e Lindbergh Farias (PT-RJ) ultrapassou os limites da disputa política e desembarcou no Supremo Tribunal Federal. Gaspar, recém-anunciado como candidato a vice na chapa de Flávio Bolsonaro, acusa o colega petista de ter orquestrado uma denúncia falsa de estupro para atingi-lo. A Polícia Legislativa ouviu um comerciante que afirma ter testemunhado a suposta encenação e encaminhou o caso ao STF. Lindbergh nega qualquer participação e ingressou com ação pedindo a suspensão e a nulidade da investigação.
Enquanto o dossiê avança em Brasília, a Polícia Federal aguarda manifestação da Procuradoria-Geral da República para decidir se abre ou não inquérito contra Gaspar pela acusação original de estupro de vulnerável. O impasse jurídico adiciona tensão a uma rivalidade que já havia explodido em sessões parlamentares, ações judiciais por calúnia e trocas de insultos públicas.
O relato que deu origem ao caso
O ponto de partida foi um boletim de ocorrência registrado por Alfredo Gaspar em 14 de abril. No documento, o deputado reproduz informações fornecidas pelo comerciante Luiz Antônio Lopes, proprietário de um quiosque em shopping na zona oeste do Rio de Janeiro. Segundo Lopes, pessoas supostamente ligadas ao gabinete de Lindbergh teriam usado o local para gravar uma entrevista forjada, na qual uma jovem acusaria Gaspar de estupro.
Ouvido pela Polícia Legislativa nove dias depois, o comerciante contou que ganhou confiança de uma das participantes do grupo. Essa jovem, relatou ele, afirmava receber entre R$ 2 mil e R$ 10 mil para sustentar a versão falsa. Lopes citou ainda o envolvimento de um homem identificado apenas como “Lucas”, apresentado por ele como assessor de Lindbergh. Consulta aos registros da Câmara, porém, não encontrou funcionário com esse nome lotado no gabinete do petista.
Filiado ao PL após o depoimento
Documento do Tribunal Superior Eleitoral mostra que Luiz Antônio Lopes tornou-se filiado ao PL em 30 de abril, uma semana depois de depor. Questionado sobre a coincidência, o comerciante declarou que a filiação se deu por afinidade ideológica e não teria ligação com o caso. Para a defesa de Lindbergh, a mudança reforça a tese de que o depoimento foi motivado por interesse político.
Lindbergh reage e questiona legalidade da apuração
Nesta segunda-feira (10), Lindbergh protocolou no STF pedido de trancamento do inquérito conduzido pela Polícia Legislativa. Entre os argumentos, sustenta que a corporação extrapolou competências ao investigar fato alheio às dependências do Congresso e sem autorização judicial. A peça reclama ainda do que chama de “vazamento seletivo” de depoimentos, afirmando que sua imagem foi exposta sem direito de defesa.
Para o petista, trata-se de “denúncia plantada” visando enfraquecê-lo politicamente. Ele afirma desconhecer o comerciante Luiz Antônio Lopes e nega ter enviado assessores ao quiosque. Caso o STF mantenha a investigação, a defesa quer acesso integral aos autos e oitiva de testemunhas que possam desmentir o relato do comerciante.
Supremo decide próximos passos
As primeiras peças já estão com o ministro Gilmar Mendes, sorteado relator. Caberá a ele analisar tanto o pedido de Lindbergh quanto o material enviado pela Polícia Legislativa. Até o momento, Mendes solicitou manifestação da PGR antes de qualquer decisão sobre suspender ou não a apuração.
Acusação original de estupro ainda sem inquérito
Paralelamente, a Polícia Federal recebeu requerimento para investigar Gaspar por suspeita de estupro de vulnerável. A solicitação partiu de partidos de oposição após circular a denúncia durante audiência da CPMI do INSS, em março. A PGR, porém, pediu informações complementares e, até o fechamento desta edição, não havia autorizado a abertura de inquérito.

Imagem: Internet
A defesa de Gaspar sustenta que a alegação de estupro é “inverídica” e que a suposta vítima não formalizou qualquer queixa. Na avaliação dos advogados, a investigação sobre uma possível armação reforça a ausência de materialidade no caso original.
Troca de acusações no plenário
O conflito ganhou holofotes durante sessão da CPMI do INSS, quando Lindbergh chamou Gaspar de “estuprador”. O alagoano reagiu classificando o colega de “bandido”. A escalada verbal prosseguiu nas redes sociais e culminou em duas ações cíveis por danos morais: uma contra Lindbergh e outra contra a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), que ecoou a fala do petista.
No processo, Gaspar pede retratação pública e indenização, alegando que a acusação manchou sua reputação justamente no período em que articulava a vaga de vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro.
Gaspar ganha projeção nacional
Promotor de Justiça aposentado, Alfredo Gaspar foi procurador-geral de Alagoas e secretário de Segurança do estado antes de se eleger deputado federal em 2022. Como relator da CPMI do INSS, ganhou visibilidade ao propor mudanças na Previdência para combater fraudes. No último 5 de agosto, foi confirmado vice na chapa de Flávio Bolsonaro, movimento que trouxe seu nome para o centro do noticiário político.
Próximos desdobramentos
O cenário jurídico agora se divide em três frentes:
- O STF decide se mantém ou anula a investigação da Polícia Legislativa sobre a suposta armação;
- A PGR analisa se autoriza a abertura de inquérito na Polícia Federal para apurar o estupro que teria sido cometido por Gaspar;
- As ações cíveis movidas por Gaspar contra Lindbergh e Soraya Thronicke avançam nas varas de Brasília.
Independentemente do desenlace, o episódio já produz efeitos políticos. Se o Supremo entender que houve fraude, Lindbergh pode responder por denunciação caluniosa e eventual quebra de decoro parlamentar. Caso contrário, Gaspar poderá ser alvo de investigação criminal em pleno ano eleitoral e terá de administrar danos à imagem em meio à campanha presidencial.
Por ora, ambos os lados investem em estratégias de comunicação. Gaspar divulga notas reafirmando ter sido vítima de armação, enquanto Lindbergh reforça a narrativa de que enfrenta “perseguição” por fazer oposição ao bolsonarismo. A depender da decisão do STF, o caso pode se tornar combustível de primeira ordem nas disputas de 2026.
