Um dia depois do primeiro confronto televisivo com o governador Tarcísio de Freitas, Fernando Haddad apresentou o SP Protege, programa de segurança que pretende guiar um eventual mandato petista em São Paulo. A proposta reúne tecnologia, reorganização policial e integração entre instituições para, segundo o candidato, diminuir a impunidade e encurtar o tempo de resposta do Estado diante do crime.
Entre as medidas anunciadas, destacam-se o uso de inteligência artificial para cruzar imagens, ocorrências e chamadas ao 190; o registro de boletim de ocorrência via WhatsApp — batizado de “BO no Zap”; câmeras corporais ligadas durante todo o expediente dos policiais; um “placar da segurança” com balanço trimestral de indicadores; e a criação de uma Agência Estadual Antifacção. O jornalista José Luiz Datena participou da elaboração do texto como consultor.
Três frentes de ação: rua, casa e comando
Nas ruas
A vertente operacional combina vigilância eletrônica e estatística criminal. A inteligência artificial deverá processar imagens de câmeras públicas e privadas, registros de delegacias e geolocalização de chamadas de emergência para apontar horários e endereços de maior risco. Com base nesses relatórios preditivos, o sistema direcionaria viaturas e policiamento ostensivo.
O “placar da segurança” divulgará, a cada três meses, taxas de elucidação de roubos, furtos, homicídios e feminicídios, segmentadas por região administrativa. A intenção, afirma Haddad, é expor gargalos, ampliar a cobrança social e orientar ajustes táticos.
Nas casas
Para o ambiente doméstico, o programa promete reforçar as Delegacias de Defesa da Mulher, criar uma plataforma de IA que integre dados de saúde, assistência social e Justiça para identificar lares em situação de risco e disparar alertas preventivos. Crianças e adolescentes vítimas de violência teriam perícia e atendimento especializado em até 48 horas, e um canal exclusivo receberia denúncias de maus-tratos contra idosos, com acompanhamento posterior.
No andar de cima
O terceiro eixo, batizado de “no andar de cima”, concentra-se no crime organizado. A nova Agência Estadual Antifacção reuniria Ministério Público, polícias Civil e Militar, Receita Estadual e órgãos de controle fiscal para atacar finanças de organizações criminosas, bloquear patrimônio, impedir a lavagem de dinheiro na economia formal e destinar bens apreendidos a fins sociais.
Entre as missões descritas estão uma força-tarefa permanente no Porto de Santos contra o narcotráfico internacional e o patrulhamento de corredores logísticos no interior paulista, focado em roubo de cargas, gado, máquinas e insumos agrícolas.
Valorização policial e câmeras corporais ininterruptas
O documento prevê carreira estruturada, promoções baseadas em critérios técnicos e recomposição salarial para os policiais. No campo tecnológico, retoma a gravação ininterrupta das câmeras corporais — modelo adotado entre 2019 e 2022 que, de acordo com o texto, reduziu em 62,7 % as mortes de agentes em serviço. O sistema deixaria de depender do acionamento manual do PM, registrando todo o turno.

Imagem: Internet
Ferramentas digitais para reduzir burocracia
O “BO no Zap” permitiria que vítimas de crimes de menor potencial ofensivo concluíssem o registro sem precisar ir à delegacia. A funcionalidade enviaria recibo digital, integrando-se ao banco de dados da Polícia Civil. Segundo a proposta, a medida desafoga plantões presenciais e agiliza a investigação, já que informações básicas chegariam imediatamente aos analistas de inteligência.
Monitoramento de resultados
Transparência e avaliação constante são pilares repetidos no plano. Além do placar trimestral, a equipe de Haddad planeja tornar públicos relatórios de produtividade policial, prazos de inquérito e tempo médio de decisão judicial em processos criminais. O governador, indica o texto, presidiria um gabinete institucional para revisar metas, destravar entraves e ajustar políticas.
Equipe técnica e participação de Datena
Cinco especialistas assinam o documento: Benedito Mariano, ex-ouvidor da Polícia; Claudinho Silva, ex-ouvidor e ativista do movimento negro; Emídio de Souza, deputado estadual; Igor Marchesini, consultor em tecnologia e IA; e Leandro Piquet Carneiro, professor da USP. Datena, que concorreu à Prefeitura em 2024, aparece como consultor de segurança pública e ajudou na formatação de parte das propostas de policiamento de proximidade.
Contexto político
O lançamento ocorreu menos de 24 horas após o debate televisivo em que segurança pública dominou o embate entre Haddad e Tarcísio. Na ocasião, o petista criticou o fim da gravação contínua das câmeras corporais na gestão atual e apontou crescimento dos índices de feminicídio no estado. O governador, por sua vez, defendeu seus resultados e citou expansão das Delegacias da Mulher e ações na Cracolândia.
Ao apresentar o SP Protege, Haddad afirmou que o tema precisa ser conduzido diretamente pelo chefe do Executivo estadual. “Ou o governador assume a responsabilidade com transparência, ou a sociedade continuará presa numa espiral de violência”, disse durante o evento.
Próximos passos
Se eleito, o candidato promete iniciar a implantação das primeiras ferramentas digitais nos cem dias iniciais de governo, priorizando o “BO no Zap” e a retomada da gravação contínua das câmeras. A agência antifacção, por outro lado, exigiria projeto de lei específico para reorganizar competências e orçamento.
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