O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) transformaram o primeiro debate televisivo das eleições paulistas, transmitido neste domingo (9) pela Band, em um embate de amplitude nacional. Sem a presença de outros concorrentes com representação no Congresso, os dois passaram 90 minutos disputando narrativas sobre a gestão de São Paulo e do governo federal, trocaram indicadores de desempenho e aproveitaram cada rodada para colar no adversário os desgastes de seus respectivos padrinhos políticos: Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
O resultado foi um confronto intenso – mas sem ataques pessoais – que percorreu temas como educação, combate ao PCC, tarifas impostas pelos Estados Unidos, agronegócio e privatizações. A mediação coube ao jornalista Rodolfo Schneider, que organizou o debate em três blocos de perguntas do apresentador, de repórteres e de confronto direto, com direito de resposta apenas para ofensas morais, recurso não acionado por nenhum dos participantes.
Educação: desempenho contestado e modelos em choque
Logo na primeira pergunta, o apresentador apontou a estagnação de São Paulo no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e citou estados de menor PIB que ultrapassaram o rendimento paulista. Tarcísio defendeu o que chamou de “avanço consistente” na alfabetização na idade certa e elencou metas como o Pacto pela Matemática, ampliação do tempo integral e uso de inteligência artificial em sala de aula. Segundo ele, o estado elevou em 150 mil o número de matrículas em jornada estendida e dobrou as escolas de ensino integral.
Haddad rebateu afirmando que o governo estadual “substituiu livro didático por plataforma digital” sem garantir internet adequada nas unidades. Ele ressaltou a queda de São Paulo da terceira para a sexta posição no Ideb do ensino médio e destacou que estados do Nordeste, como Piauí e Ceará, superaram a nota paulista. O petista propôs reforço na formação docente e revisão do modelo pedagógico.
Bate-bola de números
- Tarcísio citou que 42% dos alunos do ensino médio paulista já cursam dupla formação (regular e técnico), o que elevaria a nota do estado a 4,5 se considerados na métrica do Ideb.
- Haddad contestou e disse que 61% das crianças paulistas estão alfabetizadas na idade certa, abaixo dos 66% da média nacional.
Segurança pública: PCC e políticas de proteção às mulheres
O tema mais tenso surgiu na discussão sobre violência e crime organizado. Tarcísio defendeu a integração entre Polícia Civil, Ministério Público e Poder Judiciário nas ações na região da Cracolândia e afirmou ter criado 700 leitos de desintoxicação e 44 casas terapêuticas. Ao falar de violência contra a mulher, exibiu números do Ministério da Justiça que apontariam índices paulistas abaixo da média nacional e mencionou 144 Delegacias da Mulher e o protocolo “Não Se Cale”.
Haddad qualificou a situação como “epidemia” e citou dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que mostrariam aumento de 10% nos feminicídios no primeiro semestre, frente a queda de 2,5% no Brasil. Para ele, faltam integração de inteligências e ataque às finanças das facções. O petista propôs um Gabinete Institucional de Segurança Pública presidido pelo governador e com participação de polícias estaduais, Polícia Federal, Receita e Coaf.
Troca de acusações
- Tarcísio atribuiu a Operação Carbono Oculto, que mira o PCC, à polícia paulista e disse ter aumentado o efetivo e as ações de asfixia financeira do crime.
- Haddad lembrou que Receita Federal e governo federal lideraram a mesma operação e questionou o afastamento do ex-comandante da PM por suspeita de ligação com a facção.
- O ponto mais áspero ocorreu quando o governador exibiu foto de Haddad ao lado de uma mulher que, segundo ele, comandaria o tráfico na favela do Moinho. Irritado, o petista respondeu: “Se só você sabia, por que não prendeu? Baixa essa bola.”
Economia e impacto do ‘tarifaço’ de Trump
As sobretaxas aplicadas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros renderam outro choque de visões. Haddad advogou por ação federal coordenada e citou o Plano Brasil Soberano como proteção às empresas. Tarcísio reclamou que setores industriais paulistas são os mais prejudicados e anunciou antecipação de créditos de ICMS a exportadores e linhas de financiamento com juros inferiores aos do mercado.
O petista revidou lembrando que o governador não aderiu ao programa de renegociação da dívida estadual, o que, segundo ele, limitaria a capacidade de investimento. Tarcísio replicou que a adesão implicaria “inaceitável ingerência” da União sobre as finanças paulistas.

Imagem: RENATOPIZZUTTO
Agronegócio entra na pauta
Quando o assunto migrou para o campo, o governador listou R$ 1,2 bilhão do Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap) e programas de irrigação, seguro rural e maquinário. Haddad defendeu a ampliação do seguro agrícola nacional e a revitalização dos institutos estaduais de pesquisa agropecuária. Tarcísio respondeu mencionando concursos e recomposição salarial para pesquisadores.
Infraestrutura e privatizações em xeque
No terceiro bloco, Haddad colocou as privatizações estaduais sob holofote. Cobrou revisão da venda da Sabesp, criticou concessões ferroviárias e o pedágio free flow, e ironizou o adversário: “Tarcísio, você é meio decoreba, joga números para intimidar.” O governador reagiu citando obras de saneamento, ampliação de metrôs e linhas de trem, além de investimentos em 1,8 mil quilômetros de rodovias.
Ambos retomaram o túnel Santos–Guarujá. Tarcísio afirmou que 84% do aporte financeiro virá do governo paulista, que também viabilizou o leilão. Haddad listou R$ 13,7 bilhões do BNDES, além de obras federais de mobilidade e habitação em curso no estado, para argumentar que São Paulo depende fortemente da União.
Quem entregou o quê?
Tarcísio declarou recorde em cirurgias, habitação e investimentos em infraestrutura e pediu “mais quatro anos” para expandir trilhos e inteligência artificial nos serviços públicos. Haddad alegou que várias obras anunciadas pelo governo ainda estão inconclusas e que promessas feitas na eleição anterior não foram cumpridas. Voltou a citar sua gestão na prefeitura da capital, dizendo que hospitais iniciados por ele foram entregues por sucessores.
Formato do debate e bastidores
O encontro foi dividido em três blocos:
- Primeiro bloco: pergunta única sobre educação, seguida de 20 minutos de confronto, com Tarcísio abrindo a fala.
- Segundo bloco: questionamentos de jornalistas; duas rodadas para cada candidato, respostas de dois minutos e réplicas de um.
- Terceiro bloco: nova rodada de 20 minutos de embate, iniciada por Haddad, e, por fim, dois minutos de considerações finais para cada um.
Nenhum pedido de direito de resposta foi protocolado. A plateia restrita a assessores e imprensa manteve silêncio durante as falas, e os candidatos, embora firmes, evitaram adjetivos pessoais ofensivos. O resultado foi um duelo de estatísticas que exibiu dois projetos de governo conflitantes e, pela primeira vez nesta campanha, trouxe o cenário federal para o centro da disputa paulista.
