Escalada de atritos internacionais expõe desafio diplomático de Lula às vésperas da eleição

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    Telefonemas a Moscou, Pequim, Bogotá e Assunção nas últimas semanas ilustram a tentativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de mostrar que o Brasil continua conectado ao mundo. Ao mesmo tempo, crises com Estados Unidos e Argentina, alimentadas por tarifas, vistos revogados e trocas de farpas, transformaram a política externa em tema sensível da campanha que leva o país às urnas em outubro de 2026.

    O desgaste ganhou contornos eleitorais quando líderes estrangeiros como Donald Trump e Javier Milei passaram a declarar apoio aberto ao senador Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula. Analistas veem nessa aproximação um fator adicional de polarização interna e um teste à estratégia tradicional do petista de combinar diálogo com potências do Norte e fortalecimento da cooperação Sul-Sul.

    Ligações para conter a sensação de isolamento

    Entre o fim de julho e o início de agosto, Lula conversou por telefone com quatro chefes de Estado: Xi Jinping (27/7), Santiago Peña (30/7), Vladimir Putin (4/8) e Gustavo Petro (5/8). Segundo assessores do Planalto, novos contatos devem ocorrer, e o presidente manifestou disposição de falar também com Donald Trump apesar da tensão bilateral. O objetivo, afirmam, é manter canais abertos e sinalizar que Brasília não pretende renunciar ao protagonismo internacional.

    Carolina Pavese, doutora em Relações Internacionais, lembra que a diplomacia lulista sempre apostou em parcerias diversificadas. “A construção de pontes simultâneas com Estados Unidos, Europa, BRICS e vizinhos latino-americanos foi marca dos dois primeiros mandatos. A diferença agora é que alguns desses parceiros se tornaram atores ativos da disputa política doméstica”, avalia.

    Impacto no tabuleiro interno

    • A entrada de Trump e Milei no debate interno reforça a narrativa de setores da oposição de que o Brasil estaria “isolado” após conflitos recentes.
    • O governo rebate com a agenda de telefonemas e o compromisso de Lula de abrir a Assembleia Geral da ONU, em setembro, onde pretende defender o multilateralismo e metas climáticas.
    • Para o Itamaraty, mostrar resultados concretos até lá — como avanços em comércio ou clima — virou prioridade estratégica.

    Crescem atritos com Washington

    O principal foco de tensão com os Estados Unidos envolve, de um lado, o novo pacote de tarifas anunciado pela Casa Branca contra produtos brasileiros e, de outro, a revogação do visto diplomático da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O governo Trump justificou a decisão como resposta à demora de Brasília em conceder o agrément para Daniel Perez, indicado por Washington à embaixada em Brasília.

    Parlamentares republicanos passaram a pressionar ainda mais. O senador Marco Rubio chamou Lula de “antiamericano”, o que provocou reação pública do presidente brasileiro, que o classificou como “anti-latino-americano”. Nos bastidores, diplomatas tentam rebaixar o conflito para o nível técnico, a fim de evitar que questões eleitorais nos dois países contaminem temas como cooperação em energia limpa e investimentos.

    Comparação com os anos 2000

    Pavese recorda que, nos primeiros mandatos de Lula, mesmo com George W. Bush na Casa Branca, havia espaço para acordos. “Havia divergências sobre a Guerra do Iraque ou biocombustíveis, mas os canais estavam íntegros. Hoje, os incentivos políticos à confrontação são maiores”, diz.

    Crise e distanciamento da Argentina

    Com Buenos Aires, a relação entrou em espiral após declarações reiteradas de Javier Milei, que qualificou Lula como “corrupto” e o Brasil como “economia sem rumo”. Em resposta, o Itamaraty manteve o embaixador em Brasília e reduziu a representação em solo argentino ao nível de encarregado de negócios, medida incomum entre os dois principais sócios do Mercosul. O governo brasileiro condiciona o retorno do embaixador a um tom mais cordial por parte de Milei.

    No lado argentino, o discurso de que o Brasil estaria se afastando de parceiros tradicionais rende dividendos políticos a Milei, que também declarou apoio a Flávio Bolsonaro. Para Brasília, o congelamento diplomático afeta negociações sobre comércio automotivo, acordo de energia em Itaipu e projetos de integração de infraestrutura.

    Efeito Mercosul

    1. Negociações internas do bloco sobre tarifas comuns esfriaram depois do episódio.
    2. Empresários dos dois lados da fronteira pressionam por retomada do diálogo, temendo perdas em cadeias produtivas integradas.
    3. A presidência rotativa do Mercosul, que caberá ao Paraguai, tenta mediar encontros técnicos ainda neste semestre.

    Diplomacia como tema de campanha

    Neste cenário, a política externa deixou de ser assunto restrito a especialistas e passou a frequentar palanques e debates televisivos. Flávio Bolsonaro critica o que chama de “alinhamento automático” de Lula a potências como China e Rússia. O Planalto responde que diversificar parcerias é garantia de autonomia, citando acordos recentes de investimentos chineses em energias renováveis e a venda de proteína animal ao mercado russo.

    A investida eleitoral estrangeira não tem precedentes recentes. Trump gravou vídeo elogiando Bolsonaro filho e chamando Lula de “socialista radical”. Milei, por sua vez, afirmou que “um Brasil sem Lula seria país de oportunidades”, frase reproduzida em peças de campanha do PL. Para Carolina Pavese, a participação direta de governos estrangeiros “aprofundará clivagens ideológicas e dificultará consensos mínimos sobre a inserção internacional do país”.

    Riscos e oportunidades

    • Risco de retaliações comerciais, sobretudo no agronegócio, se a tensão com EUA e Argentina se agravar.
    • Oportunidade de reforçar o papel brasileiro em agendas globais, caso Lula consiga aprovar compromissos climáticos e desbloquear investimentos verdes.
    • Pressão interna por resultados concretos pode acelerar a assinatura de acordos pendentes, como Mercosul-União Europeia, embora o calendário político imponha obstáculos.

    Peso da Assembleia Geral da ONU

    Toda essa dinâmica confluirá, em setembro, para Nova York. Tradicional primeiro orador da Assembleia Geral da ONU, Lula pretende utilizar o púlpito para defender a reforma de organismos multilaterais, cobrar medidas efetivas de financiamento climático e reafirmar a disposição de mediar conflitos, inclusive na Guerra da Ucrânia.

    Assessores veem na viagem oportunidade de retomar a narrativa de que o Brasil é “parceiro confiável” em temas de governança global. A expectativa é que encontros bilaterais à margem da ONU sirvam para esfriar disputas com Estados Unidos e Argentina ou, ao menos, impedir novos ruídos durante o período eleitoral.

    Próximos passos

    Até a ida a Nova York, diplomatas planejam:

    • Negociar com Washington um cronograma para o agrément do embaixador americano e a normalização do visto da embaixadora brasileira;
    • Reabrir diálogo técnico com Buenos Aires sobre comércio automotivo e linhas de crédito do BNDES para exportações;
    • Concluir preparação de relatórios climáticos que serão apresentados pelo Brasil na ONU, destacando redução recente no desmatamento da Amazônia.

    Se conseguirá resultados antes da votação de outubro, ainda é incerto. O certo, por ora, é que a diplomacia, ao contrário do que costuma ocorrer, tornou-se um dos campos de batalha centrais da disputa presidencial brasileira.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.