Déficit de policiais militares e civis expõe gargalo na segurança pública dos estados

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    Estados brasileiros mantêm menos policiais do que eles próprios estabeleceram em lei. Levantamento inédito do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado nesta terça-feira (4), mostra carência de 207 mil policiais militares e 78 mil policiais civis em todo o país, quadro que pressiona o atendimento de ocorrências, investigações e a sensação de segurança da população.

    Segundo o chamado Raio-X das Forças de Segurança, o Brasil reúne hoje 818 mil profissionais da área, mas as corporações estaduais que combatem o crime nas ruas e investigam delitos funcionam muito aquém do tamanho considerado ideal pelos próprios governos regionais.

    Déficit nas Polícias Militares alcança 34%

    A tropa das Polícias Militares soma 413 mil homens e mulheres — 34% abaixo dos quase 620 mil previstos nos dispositivos legais estaduais. Na prática, faltam cerca de 207 mil PMs para patrulhar bairros, prevenir furtos e roubos e garantir a ordem pública.

    O quadro é desigual. Ceará é o único a cumprir integralmente o efetivo autorizado, seguido por São Paulo (88%) e Espírito Santo (82%). Na outra ponta, Tocantins (35%), Goiás (37%) e Amapá (45%) apresentam os piores índices de preenchimento.

    Onde há mais e menos soldados

    • São Paulo lidera em números absolutos, com 82 mil policiais militares, praticamente o dobro do segundo colocado, Rio de Janeiro (42,5 mil).
    • Bahia figura em terceiro, com 30,5 mil PMs.
    • Os menores efetivos estão nos estados de Acre (2.375), Roraima (2.490) e Tocantins (3.145).

    Em média, existe um PM para cada 21 km² no território nacional. No Amazonas, porém, o índice despenca para um agente a cada 180 km², o que amplia o desafio do patrulhamento em regiões extensas e de difícil acesso.

    Polícias Civis trabalham com 45% a menos de servidores

    Responsáveis por elucidar crimes, colher provas e conduzir inquéritos, as Polícias Civis reúnem 97 mil investigadores, escrivães e delegados, enquanto a legislação estadual prevê 175 mil servidores no total. O déficit, de 45%, compromete a celeridade das apurações e a capacidade de enfrentamento de modalidades criminosas que exigem inteligência policial, como fraudes eletrônicas e lavagem de dinheiro.

    Desigualdade também entre delegacias

    • Amapá (98%), Sergipe (92%) e Ceará (80%) apresentam os melhores percentuais de ocupação de vagas da Polícia Civil.
    • Os menores índices estão em Rondônia (28%), Rio de Janeiro (34%) e Paraíba (34%).
    • São Paulo ostenta novamente o maior contingente absoluto — 19 mil agentes civis —, seguido por Minas Gerais (9 mil) e Rio de Janeiro.
    • Roraima (606), Acre (994) e Tocantins (1 mil) contam com as equipes mais enxutas do país.

    A insuficiência de quadros joga luz sobre um fenômeno identificado pelo Anuário da Segurança Pública: enquanto roubos de rua recuam, estelionatos virtuais avançam, exigindo estruturas de investigação capazes de rastrear crimes digitais. “Sem investimento em polícia investigativa, o combate a golpes on-line não acompanha o ritmo da criminalidade”, alerta Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do FBSP.

    Cálculo do efetivo mistura orçamento e política

    Não há um critério nacional para definir quantos policiais cada estado deve ter. As leis locais nascem, na maioria das vezes, de negociações orçamentárias e não de estudos sobre população, índices de violência, geografia ou projeção de aposentadorias. “É uma referência legal que autoriza concursos, mas sem base empírica robusta”, observa Lima.

    Consequência direta: alguns governos ostentam números autorizados inflados, que jamais pretendem preencher, enquanto outros subestimam a necessidade real para não onerar a folha de pagamento — gasto que já ultrapassa R$ 230 bilhões por ano, somando servidores ativos e inativos, o equivalente a 1,8% do PIB projetado para 2025.

    Outros destaques do Raio-X

    • As Guardas Civis Municipais cresceram 13% e já reúnem mais de 100 mil agentes, tornando-se a segunda maior força uniformizada do país, atrás apenas das PMs.
    • A participação feminina nos postos de comando das Polícias Militares permanece baixa: apenas 7% das posições estratégicas são ocupadas por mulheres.
    • Efetivos federais encolheram: –3% na Polícia Federal e –4% na Polícia Rodoviária Federal entre 2023 e 2025.
    • Há somente 0,3 bombeiro para cada mil habitantes no Brasil; no Distrito Federal existe um profissional por km², contraste com o Amazonas, onde o índice é de um para cada 1.168 km².
    • O quantitativo de policiais penais caiu 3% no mesmo período em que a população carcerária aumentou 6%.
    • Quarenta e quatro municípios mantêm número de guardas municipais acima do que autoriza a legislação local.

    Impacto na segurança da população

    Na avaliação do FBSP, o descasamento entre força policial prevista e a efetivamente disponível aprofunda gargalos no atendimento emergencial, nas rondas de rotina e, sobretudo, nas investigações que sustentam processos judiciais. Com menos gente nas ruas e nas delegacias, a tendência é de sobrecarga de plantões, demora na formalização de ocorrências e baixa taxa de resolução de crimes.

    Além disso, déficits sucessivos podem desestimular concursos públicos, já que o aumento de jornada e a exposição a riscos sem recomposição de quadros tornam a carreira menos atrativa. O resultado reflete-se em comunidades que dependem da presença do Estado para evitar que facções ou milícias preencham o vácuo da segurança.

    O que pode mudar

    Especialistas indicam a necessidade de padronizar parâmetros nacionais de dimensionamento dos efetivos, contemplando critérios objetivos como densidade populacional, índices de criminalidade e distribuição geográfica. Também sugerem planos de longo prazo que antecipem aposentadorias e reforcem áreas de tecnologia e inteligência, capazes de enfrentar o crime organizado e o cibercrime.

    Até que mudanças estruturais ocorram, porém, a realidade mostrada pelo estudo é de corporações atuando no limite, tentando equilibrar prevenção e investigação com menos pessoal do que o próprio Estado reconhece como mínimo indispensável.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.