Em convenção realizada no sábado (1º), o Partido Missão oficializou o empresário Renan Santos como candidato à Presidência da República nas eleições de 2026. Diante de correligionários reunidos em São Paulo, o fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) apresentou um discurso repleto de críticas a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a Flávio Bolsonaro (PL), exaltou o histórico de mobilizações do grupo que ajudou a articular o impeachment de Dilma Rousseff e prometeu endurecer o combate ao crime, chegando a declarar que pretende “matar quem roubar”.
A fala, de quase duas horas, marcou o batismo eleitoral da nova sigla – criada a partir da coleta de assinaturas organizada pelo próprio MBL – e buscou posicionar Santos como alternativa a petistas e bolsonaristas. Ele rejeitou o rótulo de “antipetista”, disse que Lula e Flávio fazem parte de um “jogo de cartas marcadas” e que caberia ao Missão “encerrar a noite petista” sem repetir os erros do governo de Jair Bolsonaro.
Ataques diretos aos principais adversários
No centro do discurso estiveram as críticas ao atual presidente e ao ex-senador fluminense, ambos pré-candidatos declarados. Santos afirmou que Lula representa um “sonho fracassado” e acusou Flávio Bolsonaro de ter sido “lançado pelo próprio PT” para facilitar um segundo turno confortável ao petista. Em tom provocativo, desafiou os dois a participarem de debates públicos: “Se querem governar, que expliquem o que farão com o país”.
Na narrativa construída, o empresário aponta o Missão como único caminho capaz de impedir uma repetição do embate polarizado de 2022. Ele celebrou pesquisas internas que o colocariam em terceiro lugar, ultrapassando governadores que tentam viabilizar candidaturas de centro, e projetou “semanas decisivas” para ultrapassar Flávio Bolsonaro e enfrentar Lula num eventual segundo turno.
Segurança pública em tom de guerra
O trecho mais polêmico do pronunciamento foi a proposta de “matar quem roubar”. Santos não detalhou de que forma pretende alterar a legislação para permitir letalidade policial associada a crimes contra o patrimônio, mas afirmou que “ou o crime se entrega, ou vira tapete para a população desfilar”.
Metas divulgadas
- Reduzir os homicídios a menos de 10 mil por ano – meta que, segundo o candidato, significaria cortar em dois terços o índice atual.
- Erradicar facções como PCC e Comando Vermelho, com apoio irrestrito às polícias estaduais.
- Transformar 6 mil favelas em bairros formais, retirando cerca de 8 milhões de pessoas de áreas dominadas pelo tráfico.
- Garantir que nenhum estado registre mais beneficiários do Bolsa Família do que empregos formais até 2030.
- Manter a taxa básica de juros abaixo de 6% ao ano e produzir superávit nominal nas contas públicas.
Especialistas em segurança e em finanças públicas ouvidos nos bastidores avaliam as metas como ambiciosas e, em vários pontos, juridicamente controversas. A campanha, porém, sustenta que reformas legais darão sustentação às medidas.
Economia e infraestrutura
Na agenda econômica, Santos propôs concentrar gastos públicos em investimento, ampliar hidrelétricas, usinas nucleares e explorar minérios estratégicos, como terras raras. Ele prometeu ainda negociar com potências estrangeiras transferência de tecnologia militar em troca de matérias-primas brasileiras, citando a possível produção de componentes de caças F-35 no país.
Para o Nordeste, o presidenciável defendeu a criação de zonas econômicas especiais, irrigação do semiárido para biocombustíveis e atração de data centers. Reafirmou, contudo, que pretende encerrar “a política de migalhas” sustentada por emendas parlamentares e benefícios sociais de caráter permanente.
Distanciamento do “antipetismo” e recado à terceira via
Embora tenha protagonizado atos contra o PT em 2015 e 2016, Renan Santos afirmou que não se define pelo antagonismo. “Quando você se define pelo inimigo, nunca o supera”, disse, num esforço para se diferenciar da retórica bolsonarista. Ele também rechaçou o rótulo de “terceira via”, classificando o Missão como “caminho próprio” que não se medeia entre extremos.
Nesse contexto, ironizou legendas de centro-direita que, segundo ele, “ficaram de joelhos” diante do bolsonarismo. Sem citar nomes, criticou ex-ministros e governadores que, na sua visão, não assumiram posturas de liderança contra Jair Bolsonaro ou Lula.

Imagem: Internet
Quem é Renan Santos
Gaúcho radicado em São Paulo, Renan Santos tem 40 anos e ficou conhecido nacionalmente como um dos rostos do Movimento Brasil Livre, criado em 2014. Empresário do ramo da comunicação digital, ganhou projeção ao organizar passeatas que pressionaram pelo impeachment de Dilma Rousseff. A partir de 2019, distanciou-se do bolsonarismo e passou a fazer oposição aberta ao governo Jair Bolsonaro, acusando o grupo de se apropriar das pautas liberais do MBL sem cumprir as promessas.
Em 2022, liderou a coleta de assinaturas que resultou no registro do Partido Missão, aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral no início deste ano. Com a sigla formalizada, transformou-se em presidente da legenda e costurou alianças com integrantes do agronegócio, de setores liberais urbanos e de movimentos antipolarização.
Próximos passos da campanha
A coordenação de campanha informou que Santos iniciará, ainda em agosto, uma série de caravanas por capitais do Norte e Nordeste, regiões onde suas intenções de voto são mais baixas. O objetivo declarado é apresentar o programa econômico e rebater a narrativa de que o MBL seria hostil às pautas sociais.
A equipe também negocia participações em eventos empresariais e estudantis, procurando repetir o modelo das manifestações de 2015: mobilização presencial amplificada por transmissões ao vivo. Dirigentes do Missão admitem, porém, que a estratégia esbarra na falta de tempo de rádio e TV – um entrave que dependerá de coligações para ser superado.
Riscos jurídicos e políticos
Frases como “matar quem roubar” e ameaças a facções criminosas já despertam a atenção de órgãos de controle e de adversários. Advogados eleitorais lembram que a legislação veda incitação à violência e que declarações do tipo podem resultar em representações no Tribunal Superior Eleitoral ou até em ações penais. A campanha declara estar pronta para “qualquer disputa jurídica”.
No campo político, haverá esforço de partidos de centro e de esquerda para colar no empresário a pecha de extremista. A resposta do Missão, até agora, tem sido enfatizar que o discurso duro se concentra no crime organizado, enquanto a proposta econômica busca a estabilidade fiscal e a abertura de mercados.
Repercussão inicial
Nas redes sociais, o lançamento dividiu opiniões. Vídeos do discurso foram compartilhados por apoiadores que comemoram a “chegada de uma alternativa”, mas também por críticos que classificam o tom como autoritário. Parlamentares petistas afirmaram que a fala mostra “despreparo democrático”, enquanto figuras ligadas ao bolsonarismo ironizaram o posicionamento “nem direita, nem esquerda” do novo concorrente.
A poucos meses do início oficial da campanha, Renan Santos se posiciona como uma incógnita capaz de alterar o tabuleiro eleitoral. Seus aliados confiam na memória dos protestos anti-Dilma e no engajamento digital do MBL; adversários apostam que a retórica agressiva limitará o alcance do candidato além de seu nicho. Seja qual for o desfecho, o lançamento do Missão inaugura mais um capítulo na corrida presidencial de 2026.
