A Polícia Federal suspendeu o depoimento do banqueiro Augusto Lima, marcado para esta segunda-feira (3), após solicitação de sua defesa. A nova data ainda não foi definida, mantendo em aberto um dos principais desdobramentos da Operação Compliance Zero, investigação que já levou à prisão do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e que implica o senador Jaques Wagner (PT-BA).
Lima, controlador do Banco Pleno desde julho de 2025, é apontado pelos investigadores como o principal elo entre Vorcaro e Wagner. Conversas interceptadas, documentos bancários e registros telefônicos sustentam a suspeita de que ele articulou benefícios legislativos ao Banco Master e intermediou vantagens ao parlamentar baiano.
PF adia depoimento e defesa reorganiza estratégia
O interrogatório de Augusto Lima ocorreria em Brasília no mesmo inquérito que apura fraude financeira, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master. Sem detalhar o motivo do pedido, os advogados alegaram necessidade de “adequar a defesa” frente a novos documentos tornados públicos na semana passada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. A PF aceitou a justificativa e informou que o depoimento será reagendado “em momento oportuno”.
Esse adiamento retarda o avanço das apurações sobre a suposta compra de apoio político para aprovar, no Senado, alterações que ampliaram a margem do empréstimo consignado — pauta de interesse direto do Banco Master. Investigadores consideram Lima peça-chave para confirmar como o grupo financeiro expandiu suas carteiras de crédito, negociadas mais tarde com o Banco de Brasília (BRB).
Relação com Daniel Vorcaro e o Banco Master
Até ser liquidado extrajudicialmente em fevereiro deste ano pelo Banco Central, o Banco Pleno era comandado por Lima, que mantinha vínculos empresariais com Daniel Vorcaro. Segundo a PF, extratos e mensagens encontrados nos celulares do ex-proprietário do Banco Master mostram que Lima atuou como negociador na venda de carteiras de crédito ao BRB, operação que, se confirmada como fraudulenta, teria irrigado esquemas de pagamento de propina.
Buscas e prisão preventiva
A ligação de Augusto Lima com Vorcaro motivou mandados de busca e apreensão executados em 18 de junho, durante a nona fase da Operação Compliance Zero. Na mesma etapa, agentes vasculharam endereços ligados ao senador Jaques Wagner. Lima já havia sido preso preventivamente em novembro do ano passado, numa fase anterior da operação, por suspeita de participação direta em fraudes bancárias.
Operação Compliance Zero: cronologia dos fatos
- Nov/2025: Lima é preso preventivamente sob suspeita de integrar rede de desvio de recursos do Banco Master.
- Fev/2026: Banco Central decreta liquidação extrajudicial do Banco Pleno, administrado por Lima.
- 18/Jun/2026: Nona fase da operação mira Augusto Lima e o senador Jaques Wagner; são cumpridos mandados de busca e apreensão.
- 30/Jun/2026: Ministro André Mendonça retira o sigilo de partes da investigação, dando publicidade a ligações entre Lima e Wagner.
- 03/Ago/2026: Depoimento de Lima é adiado a pedido da defesa.
Desde a deflagração, a Compliance Zero já produziu relatórios que apontam uma teia de negócios paralelos envolvendo concessões de crédito consignado, aquisição de carteiras e favorecimento político. A PF vê relação direta entre o colapso do Banco Pleno, as manobras do Banco Master para contornar regras de liquidez e as movimentações de Augusto Lima.
Suspeitas que cercam o senador Jaques Wagner
Documentos liberados pelo STF revelam 74 ligações telefônicas entre Wagner e Lima. Investigadores sustentam que o parlamentar, então líder do governo no Senado, teria atuado para facilitar a aprovação de projetos que beneficiavam o Banco Master. Em contrapartida, ele teria recebido um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões em Salvador e repasses de R$ 3,5 milhões a empresas administradas por seus familiares.
Defesa do senador
Na sexta-feira (31), Wagner afirmou estar “tranquilo” e prometeu provar inocência. O senador, que buscará a reeleição em outubro, diz jamais ter recebido vantagem financeira do grupo de Daniel Vorcaro e sustenta que todas as conversas com Augusto Lima foram pautadas por temas “estritamente institucionais”.
A PF, contudo, vê indícios de que Lima, chamado de “Guga” nas gravações, era o intermediário dos interesses do Banco Master dentro do Senado. A ampliação da margem consignável, aprovada em comissão e depois no plenário, é citada nos relatórios policiais como ponto central da negociação.

Imagem: Internet
Próximos passos da investigação
Sem a oitiva de Augusto Lima, os investigadores aguardam laudos periciais sobre mensagens apreendidas em celulares e computadores confiscados em junho. O material, segundo fontes que acompanham o caso, reúne planilhas de movimentação financeira que podem detalhar pagamentos a políticos e dirigentes bancários. A PF já compartilhou parte dos achados com o Banco Central e com o Ministério Público Federal.
A defesa de Lima busca anular as provas colhidas na fase em que ele foi preso preventivamente, alegando “excesso de prazo” e “ilegalidade na coleta de dados”. Caso o STF acolha integralmente o pedido, grande parte da linha investigativa ficaria comprometida. Por ora, contudo, o ministro André Mendonça mantém a validade dos elementos reunidos.
Impacto no sistema financeiro
O fechamento do Banco Pleno e a prisão de executivos do Banco Master acenderam alerta sobre a fiscalização de instituições de médio porte que operam carteiras de crédito consignado. Técnicos do Banco Central monitoram outras entidades que compraram ativos do Master nos últimos anos, para mapear risco sistêmico e possíveis irregularidades semelhantes.
Analistas consultados pela PF calculam que as operações suspeitas podem ter superfaturado carteiras em até R$ 500 milhões, valor que, segundo as investigações, abasteceu pagamentos ilícitos a intermediários políticos. A apuração completa, porém, depende do depoimento de Lima, visto como a peça que conecta as pontas financeira e política do esquema.
Expectativa para a nova data da oitiva
A Procuradoria-Geral da República pressiona para que o interrogatório ocorra antes do início oficial da campanha eleitoral, marcado para o fim de agosto, a fim de evitar alegações de uso político da investigação. Nos bastidores, comenta-se que a defesa de Lima pode tentar adiar o depoimento até setembro, citando a necessidade de analisar documentos recém-divulgados.
Enquanto a data não é remarcada, Augusto Lima permanece em liberdade, mas continua obrigado a comparecer mensalmente à Justiça e a comunicar qualquer deslocamento. Daniel Vorcaro segue detido em Brasília, e Jaques Wagner, sem medidas cautelares, mantém rotina no Senado enquanto coleta apoios para a campanha.
A manutenção ou não do cronograma investigativo poderá definir se a PF apresentará denúncia já nas próximas semanas ou se o inquérito ganhará nova prorrogação. No centro desse impasse, o depoimento de Augusto Lima tornou-se a peça mais aguardada de um processo que cruza, como poucas vezes, as fronteiras entre o sistema bancário e a arena política brasileira.
