As sobretaxas aplicadas pelos Estados Unidos a uma extensa lista de produtos brasileiros motivaram uma ofensiva diplomática: o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, desembarcou nesta segunda-feira na Índia para costurar novos acordos comerciais e atenuar as perdas provocadas pelo chamado tarifaço norte-americano.
A viagem, que inclui encontros com empresários indianos em Mumbai e Nova Délhi, além de participação na reunião ministerial do Brics em Jaipur, busca ampliar o intercâmbio em defesa, tecnologia, indústria e, sobretudo, fertilizantes. O movimento reforça a estratégia traçada pelo Palácio do Planalto de diversificar mercados e reduzir a dependência de Washington, segundo maior parceiro comercial do Brasil.
Tarifaço dos EUA pressiona exportadores brasileiros
Duas sobretaxas simultâneas
A Casa Branca instituiu, nas últimas semanas, duas barreiras tarifárias contra mercadorias brasileiras. A primeira eleva em 25% o imposto de importação de itens enquadrados pelos EUA como beneficiários de “práticas desleais de mercado”. A segunda, de 12,5%, atinge produtos cujo país de origem é acusado de não combater adequadamente o uso de trabalho forçado em cadeias globais.
Entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) estimam que mais de quatro mil NCMs – códigos que identificam mercadorias – podem ser direta ou indiretamente afetados. Entre eles aparecem desde itens de alto valor agregado, como componentes eletrônicos, até commodities de menor preço unitário, mas grande volume de exportação.
Setores mais impactados
Indústria de transformação, agroindústria, têxtil e química estão no topo da lista de segmentos que correm risco de perder competitividade no mercado norte-americano. O salto tarifário pressiona as margens de exportadores brasileiros e pode resultar em redirecionamento de cargas para outros destinos ou mesmo redução de produção doméstica.
Segundo técnicos do Ministério do Desenvolvimento, parte das empresas já relata cancelamento ou suspensão de pedidos. O receio é que a retração afete empregos em polos industriais do Sudeste, Sul e Nordeste, abrindo espaço para concorrentes de países não atingidos pelas novas medidas de Washington.
Índia desponta como alternativa
Reuniões em Mumbai e Nova Délhi
Com mais de 1,4 bilhão de habitantes, a Índia é apontada pelo governo brasileiro como “segundo maior mercado consumidor do mundo” e destino capaz de absorver parte da produção exposta ao tarifaço. De acordo com o MDIC, o fluxo bilateral de comércio somou mais de US$ 15 bilhões em 2025, valor ainda distante do potencial identificado pelas duas chancelarias.
Durante a estada em Mumbai e Nova Délhi, Márcio Elias Rosa se reúne com lideranças de setores como energia renovável, infraestrutura, bens de consumo duráveis e alta tecnologia. O objetivo é acelerar negócios em áreas que já possuem cooperação prévia – caso dos investimentos indianos em etanol e biodiesel – e abrir caminho para exportações brasileiras de manufaturados.
Fertilizantes no centro das negociações
Um dos focos da missão é reduzir a dependência de fertilizantes importados da Rússia e da China, que, juntas, respondem por cerca de metade do suprimento utilizado pelo agronegócio brasileiro. O conflito no Leste Europeu expôs o risco estratégico dessa concentração e fez Brasília buscar fornecedores alternativos.

Imagem: Internet
Empresas indianas que atuam na produção de fosfato e potássio serão apresentadas a tradings agrícolas e cooperativas brasileiras. A expectativa é firmar contratos de médio e longo prazo capazes de garantir previsibilidade de preço e logística em temporadas de plantio. Técnicos do Itamaraty que acompanham a delegação lembram que cada ponto percentual de economia no custo do insumo pode se traduzir em bilhões de dólares poupados pelo setor rural.
Diplomacia comercial do Brics
Expansão do bloco e novas rotas comerciais
Depois dos compromissos bilaterais, o ministro segue para Jaipur, onde participa do encontro de ministros do Brics — bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que discute acolher novos membros e reforçar sua atuação conjunta. A ampliação do grupo é vista por Brasília como oportunidade de criar corredores comerciais menos suscetíveis a sanções ou restrições impostas por economias avançadas.
No fórum, Márcio Elias Rosa pretende defender a aceleração de projetos de infraestrutura que conectem portos e ferrovias dos países membros, reduzindo custos de transporte e ampliando a competitividade de suas exportações. Também está na pauta a harmonização de padrões regulatórios para bens industriais e o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento, banco multilateral do Brics que financia obras na área de logística e energia.
Próximos passos do governo brasileiro
A chancelaria e o MDIC trabalham em paralelo para viabilizar missões semelhantes ao Canadá, Japão e países da Ásia Central, regiões apontadas como prioritárias na estratégia de diversificação. O Itamaraty também intensifica diálogos com parceiros do Mercosul para acelerar acordos em bloco, ampliando o poder de barganha dos países sul-americanos.
Internamente, o Ministério da Fazenda estuda incentivos fiscais temporários para cadeias produtivas mais atingidas pelas tarifas dos EUA, medida que teria o objetivo de preservar emprego e renda até que novos mercados sejam consolidados. A ideia é condicionar eventuais benefícios a metas de exportação e inovação tecnológica, evitando distorções competitivas.
Ao comentar a agenda na Índia, Márcio Elias Rosa sintetizou a meta do governo: “Em um momento de ressurgimento do protecionismo, o Brasil aposta no multilateralismo e na abertura de novos mercados para suas empresas. Vamos transformar desafios em oportunidades e garantir que nossos produtos continuem conquistando consumidores pelo mundo”.
