O Partido dos Trabalhadores decidiu não lançar candidatos próprios a governador em 14 unidades da Federação na eleição de 2026. A sigla aposta que, ao ceder a cabeça de chapa, garantirá palanques mais robustos para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição e, de quebra, ampliará a presença em vagas de vice e ao Senado.
Com a nova tática, o PT inverte uma tradição que vigorava desde a redemocratização: liderar o maior número possível de disputas estaduais para reforçar sua identidade política. Desta vez, pragmatismo e cálculo presidencial pesaram mais do que manter a marca petista nos boletins de urna.
Como fica o mapa eleitoral
Estados onde o PT cede a cabeça de chapa
- Acre
- Alagoas
- Amapá
- Amazonas
- Mato Grosso
- Pará
- Paraíba
- Pernambuco
- Paraná
- Rio de Janeiro
- Rio Grande do Sul
- Santa Catarina
- Sergipe
- Tocantins
Onde os petistas encabeçam a disputa
- Bahia
- Ceará
- Distrito Federal
- Espírito Santo
- Goiás
- Maranhão
- Minas Gerais
- Mato Grosso do Sul
- Piauí
- Rio Grande do Norte
- Rondônia
- São Paulo
Roraima segue sem definição; a convenção estadual está marcada para 4 de agosto.
Por que o partido mudou de rota
A decisão foi gestada após a eleição de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro no segundo turno com o apoio de uma frente suprapartidária. Dirigentes avaliaram que reproduzir a mesma costura em 2026 pode facilitar a comunicação da campanha presidencial em estados onde o petismo não tem liderança hegemônica. “É inviável percorrer um país continental sem aliados locais fazendo campanha todos os dias”, resume o cientista político Eduardo Grin, da Fundação Getulio Vargas, em análise sobre a estratégia.
Historicamente, o PT só abria mão de candidaturas quando havia garantia de retorno estratégico, como ocorreu nos governos Lula e Dilma. Para a professora Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas, a postura atual não rompe totalmente com o passado, mas sinaliza um cálculo ainda mais pragmático: “Enquanto houver equilíbrio entre lançar nomes próprios e apoiar aliados, o critério central continuará sendo maximizar a coalizão presidencial, não o número de governadores petistas”.
Casos emblemáticos
Rio Grande do Sul sem petista na urna pela primeira vez
Desde 1990, o eleitor gaúcho sempre encontrou um nome do PT disputando o governo estadual. Em 2026 será diferente. A legenda optou por apoiar a deputada Juliana Brizola (PDT), que lidera pesquisa Quaest divulgada em 30 de julho com 24% das intenções de voto, empatada tecnicamente com Luciano Zucco (PL), que tem 22%. Para o PT local, a aliança é vista como chance de voltar ao Palácio Piratini pela via de coligação, enquanto, nacionalmente, reforça um palanque competitivo na região Sul — tradicional bastião conservador.
Aliança com Eduardo Paes no Rio de Janeiro
Outro movimento de peso ocorreu no Rio de Janeiro. O partido se juntou ao prefeito da capital, Eduardo Paes, líder em todos os cenários testados pelo instituto Quaest. Em troca, emplacou a deputada Benedita da Silva como candidata ao Senado na mesma chapa. O arranjo repete, com adaptações, o desenho de 2022, quando os petistas cederam a cabeça de chapa para Marcelo Freixo (então no PSB). A diferença está no favoritismo de Paes, considerado pelos estrategistas como seguro para produzir votos a Lula desde o primeiro turno.
Contrapartidas negociadas
Ao concordar em apoiar aliados, o PT estabeleceu três modelos de compensação:
- Indicação do candidato ou candidata a vice-governador;
- Reserva de uma das vagas da chapa majoritária ao Senado;
- Apoio sem contrapartida formal, focado apenas em ampliar o palanque presidencial.
Nos 14 estados listados, cada costura segue uma dessas lógicas. Em Pernambuco, por exemplo, a sigla avalia ocupar a vice na chapa que deve ser liderada pelo PSB. Já no Amazonas e em Santa Catarina, prevaleceu o critério da força eleitoral do aliado, mesmo sem cargos garantidos aos petistas.

Imagem: Internet
Impacto na campanha de Lula
Especialistas veem a estratégia como tentativa de repetir o “efeito cascata” das últimas eleições, quando governadores e prefeitos puxaram votos ao petista. Para Grin, o partido entendeu que o presidente precisa de “cabos eleitorais 24 horas por dia” nos rincões do país, algo difícil de alcançar apenas com agendas nacionais e redes sociais.
Do ponto de vista partidário, a manobra pode diminuir a exposição direta da marca PT em estados conservadores, mas amplia o tempo de televisão compartilhado e reduz a rejeição em palanques regionais. O risco é perder espaço político caso as alianças vençam e não cumpram acordos de governo, advertiu um dirigente petista ouvido reservadamente.
Comparativo com 2022
Na eleição passada, o PT lançou 13 candidatos a governador e apoiou 14 aliados. O equilíbrio numérico se mantém em 2026, mas o recorte dos estados mudou: desta vez, o partido priorizou regiões onde Lula teve desempenho inferior em 2022, como Sul e Centro-Oeste. Ao mesmo tempo, manteve candidaturas próprias na Bahia, no Ceará e em São Paulo, berços eleitorais de figuras nacionais do PT.
Próximos passos
Com a maior parte dos acordos fechados, o diretório nacional agora trabalha para:
- Definir a situação de Roraima até 4 de agosto;
- Homologar os nomes a vice-governador e Senado nas convenções estaduais;
- Amarrar palanques conjuntos nas campanhas proporcionais, garantindo nominatas fortes para a Câmara dos Deputados.
Nos bastidores, caciques petistas reconhecem que a manobra exige disciplina interna: militantes que sonhavam disputar governos precisarão assumir papéis secundários. A cúpula argumenta que o sacrifício coletivo é essencial para a reeleição presidencial e para manter o partido no centro da coalizão que emergiu vitoriosa em 2022.
Se a estratégia dará resultado, só as urnas de outubro de 2026 dirão. Por ora, o PT aposta que menos candidaturas próprias significam mais força nacional — uma conta que, no tabuleiro político brasileiro, costuma mudar a cada eleição.
