Após fala sobre Guerra do Paraguai, embaixador diz que Lula não quis desrespeitar país vizinho

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    O governo paraguaio recebeu nesta sexta-feira (31) a garantia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pretendeu ofender o país ao mencionar a Guerra do Paraguai durante um ato público em São Paulo. A explicação partiu do embaixador brasileiro em Assunção, José Marcondes, convocado pelo chanceler paraguaio, Rubén Ramirez Lezcano, para dar esclarecimentos uma semana depois das declarações do chefe do Executivo brasileiro.

    Segundo diplomatas que acompanharam a conversa, Marcondes sustentou que a fala de Lula foi retirada de contexto e “magnificada”, ressaltando os laços históricos de amizade, cooperação e prioridade atribuídos pelo governo brasileiro à relação bilateral. Mesmo assim, o Paraguai entregou ao embaixador uma carta de repúdio e cobrou gestos concretos para “fechar definitivamente as feridas” do conflito que marcou as duas nações no século XIX.

    O que Lula disse em São Paulo

    No dia 24 de julho, durante cerimônia no interior paulista, Lula evocou a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) para ilustrar seu argumento sobre a importância da paz. “A gente gosta de paz, mas não pode esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia nada durou cinco anos”, afirmou o presidente.

    A menção encontrou forte repercussão em Assunção, onde autoridades julgaram haver distorção histórica e tom inadequado em relação a um episódio doloroso para o povo paraguaio. O Ministério das Relações Exteriores local considerou as declarações “de singular relevância” e merecedoras de abordagem “com responsabilidade, respeito recíproco e espírito de reconciliação”.

    Chanceler convoca embaixador brasileiro

    Para tratar do assunto, o chanceler Ramirez Lezcano convocou o embaixador do Brasil. O encontro contou ainda com a presença do vice-presidente paraguaio, Pedro Alliana. Ao chegar à sede da chancelaria em Assunção, Marcondes recebeu uma nota diplomática na qual o governo vizinho manifesta “absoluto repúdio” às palavras de Lula, embora ressalte que Brasil e Paraguai são “países irmãos”.

    No mesmo documento, as autoridades paraguaias sugeriram medidas simbólicas de reconciliação, entre elas a devolução de canhões paraguaios capturados durante a guerra. A proposta foi apresentada como forma de “fechar definitivamente as feridas” do conflito, ainda presente na memória coletiva do país.

    Resposta do Itamaraty

    De acordo com relatos colhidos no Ministério das Relações Exteriores brasileiro, José Marcondes explicou que Lula citou a guerra para defender a busca permanente pela paz e que, em nenhum momento, pretendeu diminuir ou culpar o Paraguai. O embaixador destacou as “inúmeras manifestações de apreço” de Lula em relação ao país vizinho e lembrou iniciativas de cooperação impulsionadas pelo presidente ao longo dos últimos anos.

    “Nunca foi intenção faltar com respeito ao povo paraguaio”, teria dito Marcondes, segundo interlocutores do Itamaraty. Ele reforçou que a fala presidencial foi recortada de um contexto mais amplo e que a amizade bilateral continua sendo prioridade para Brasília.

    Assunção insiste em reparação simbólica

    Apesar das explicações, o comunicado oficial da chancelaria paraguaia manteve o tom de descontentamento. O texto afirma que as declarações de Lula “representam de maneira distorcida feitos históricos” e reiterou o pedido para que temas sensíveis sejam tratados com cautela. O vice-presidente Alliana reforçou, durante a reunião, a disposição do Paraguai em manter o diálogo, mas frisou a necessidade de gestos que demonstrem reconhecimento às perdas sofridas pelo país na guerra.

    Entre as sugestões, a devolução de peças de artilharia capturadas pelo Exército Imperial Brasileiro em 1870 ganhou destaque simbólico. A proposta encontra eco em setores da sociedade paraguaia que há décadas reivindicam a repatriação desses artefatos, hoje expostos em museus brasileiros.

    Impacto político e próximos passos

    No Brasil, a convocação do embaixador e a nota de repúdio foram lidas como sinal de que Assunção deseja evitar a escalada do incidente, mas também de que não pretende deixar o episódio sem resposta. Para diplomatas brasileiros, o desenrolar do caso dependerá de como o Planalto calibrará suas declarações futuras e da possível adoção de gestos de boa-vontade, como visitas de alto nível ou acordos de cooperação que reforcem o caráter estratégico da parceria.

    Embora não haja previsão de encontro presencial entre Lula e o presidente paraguaio Santiago Peña nos próximos dias, fontes do Itamaraty afirmam que canais diplomáticos permanecem abertos. O embaixador Marcondes deverá detalhar o conteúdo da reunião em Assunção ao ministro Mauro Vieira, que avaliará se novas notas explicativas ou contatos telefônicos serão necessários.

    Memória de um conflito centenário

    A Guerra da Tríplice Aliança envolveu Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai entre 1864 e 1870, resultando em grandes perdas humanas e territoriais para o país comandado à época por Francisco Solano López. O episódio segue sensível na política paraguaia e frequentemente surge em debates sobre identidade nacional, reparações e relações exteriores.

    Para analistas, a reação de Assunção ao discurso de Lula reflete essa memória ainda viva. A devolução de canhões e outros símbolos de guerra é tema recorrente em datas comemorativas e discursos oficiais paraguaios, sendo vista como passo essencial para a reconciliação histórica.

    O que dizem os observadores

    Especialistas em diplomacia ouvidos reservadamente avaliam que o incidente deve ser superado sem maiores prejuízos, desde que a presidência brasileira evite novas declarações passíveis de interpretações ofensivas. Recordam que, apesar de intercorrências ocasionais, Brasil e Paraguai mantêm parceria estratégica em áreas como energia — compartilhada na hidrelétrica binacional de Itaipu —, segurança de fronteira e integração regional.

    Além disso, lembram que o próprio Lula, em seus mandatos anteriores, priorizou acordos de cooperação e projetos de infraestrutura conjuntos, o que lhe confere histórico favorável na relação com Assunção. O retorno a esse discurso positivo, avaliam, tende a arrefecer a tensão e reafirmar o caráter “irmão” celebrado pelos dois governos em suas notas oficiais.

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    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.