A Polícia Federal abriu, com aval do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, um inquérito para apurar se Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, praticou tráfico de influência e corrupção ao aproximar o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes — conhecido como “Careca do INSS” — de dirigentes do Ministério da Saúde. A principal linha de investigação é a suspeita de que o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha ajudado Antunes a negociar um contrato para fornecimento de medicamentos à base de canabidiol ao governo federal.
Embora o lobista seja apontado como pivô de fraudes bilionárias em aposentadorias e pensões, as suspeitas envolvendo Lulinha não tratam desses desvios. O elo entre os dois teria surgido justamente nas tratativas voltadas ao mercado de cannabis medicinal, iniciadas em 2024 e que, segundo a PF, culminaram em reuniões oficiais na Esplanada e em uma viagem a Portugal bancada por Antunes.
Como nasceu o novo inquérito
A decisão de Mendonça atende a pedido da PF, que já investigava o chamado “Careca do INSS” dentro da Operação Sem Desconto. Durante a apuração sobre os descontos ilegais em benefícios previdenciários, agentes encontraram indícios de que Antunes buscava abrir portas no Ministério da Saúde com ajuda de Lulinha. A descoberta motivou a solicitação de um procedimento apartado, agora focado em possível tráfico de influência.
Ao autorizar a medida, o ministro destacou que a Constituição impõe à PF o dever de investigar “qualquer pessoa, seja ela quem for”, quando houver elementos mínimos de autoria e materialidade. A investigação tramitará sob a supervisão do Supremo porque envolve parente de chefe do Executivo federal.
Quem é o “Careca do INSS”
Antônio Carlos Camilo Antunes ganhou o apelido no mercado paralelo de crédito ao se tornar um dos principais operadores dos descontos indevidos em aposentadorias e pensões. Preso desde setembro do ano passado, ele é acusado de fraudar centenas de milhares de benefícios, obtendo lucros que ultrapassam a casa das dezenas de milhões de reais, segundo a PF e a CPMI do INSS.
Mesmo atrás das grades, Antunes continuou a negociar interesses empresariais por meio de interlocutores. Documentos da investigação mostram que, em 2024, ele passou a mirar o segmento de medicamentos de cannabis, área em que o governo discute novas regulações e compras públicas.
Reuniões no Ministério da Saúde
O ponto mais sensível da investigação é a reunião de janeiro de 2025 entre Antunes e o então secretário-executivo da Saúde, Swedenberger Barbosa, braço direito da ministra Nísia Trindade. De acordo com registros oficiais, o encontro foi solicitado para apresentar produtos da World Cannabis, empresa que buscava fornecer óleo de canabidiol para programas públicos.
Barbosa confirmou a audiência e afirmou ter sido um compromisso “dentro das atribuições do cargo”, sem “interferência externa”. Ele disse ainda que o processo não avançou porque o ministério não demonstrou interesse e não havia dotação orçamentária específica.
Intermediação investigada
- A PF apura se Lulinha usou sua rede de contatos para marcar ou facilitar o encontro.
- Há suspeita de que o lobista tenha prometido vantagens a terceiros, inclusive pagamentos, caso o contrato fosse celebrado.
- Até o momento, o governo não assinou nenhuma compra com a World Cannabis.
Viagem a Portugal e visita a fábrica de canabidiol
A defesa de Lulinha confirmou que, em novembro de 2024, ele viajou a Portugal a convite de Antunes. O objetivo declarado era conhecer uma unidade de produção de derivados de cannabis. Todas as despesas, segundo os advogados, foram pagas pelo lobista.
Os investigadores consideram a viagem um indício relevante. Primeiro, porque ocorreu no período em que Antunes buscava formalizar contratos no Brasil. Segundo, porque demonstra grau de proximidade entre os dois — relação negada publicamente por Lulinha até então. Os defensores, contudo, sustentam que a passagem por Portugal não resultou em sociedade, assinatura de contratos ou qualquer benefício financeiro ao filho do presidente.
Participação da empresária Roberta Luchsinger
Outro personagem que chama a atenção dos policiais é a empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha. De acordo com relatórios da PF, ela foi contratada por Antunes para prospectar oportunidades de negócio para a World Cannabis. As comunicações analisadas sugerem que Roberta seria a ponte inicial entre o lobista e o núcleo que orbita o Palácio do Planalto.

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Em nota, a defesa de Roberta informou que o contrato de consultoria foi legítimo, sem repasses de dinheiro a Lulinha e sem irregularidades. O novo inquérito buscará detalhar a prestação do serviço, o valor pago e possíveis contrapartidas.
Quebras de sigilo e apurações paralelas
Em janeiro deste ano, no âmbito da Operação Sem Desconto, a PF obteve a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Lulinha. Dois meses depois, a CPMI do INSS confirmou a medida. Apesar da devassa, não foram encontrados indícios de participação do filho do presidente no esquema previdenciário, motivo pelo qual a PF decidiu pedir a abertura de um inquérito específico sobre a suposta atuação na Saúde.
Investigadores agora pretendem confrontar dados bancários, registros de viagens e extratos telefônicos com agendas oficiais do ministério. A ideia é verificar se houve recebimento de valores ou promessas de vantagem ligados às audiências públicas.
Pontos que a PF quer esclarecer
- Quem solicitou formalmente a reunião de janeiro de 2025 na Saúde.
- Se houve pagamento direto ou indireto a agentes públicos ou a Lulinha.
- Qual era o modelo de negócio proposto pela World Cannabis e seu impacto financeiro.
- Se Antunes utilizou recursos oriundos das fraudes no INSS para bancar a operação.
O que dizem os envolvidos
Lulinha. O advogado Marco Aurélio de Carvalho afirma que o cliente “jamais exerceu qualquer tráfico de influência” e que a PF “não encontrou e não encontrará” provas de corrupção. Segundo ele, Lulinha apenas acompanhou Antunes por curiosidade profissional e nunca participou de comissões ou conselhos que pudessem interferir em decisões de compras governamentais.
Antônio Carlos Camilo Antunes. A defesa do lobista não se manifestou sobre o novo inquérito, mas, em oportunidades anteriores, sustentou que as atividades empresariais de Antunes não guardam relação com as fraudes no INSS.
Ministério da Saúde. Em nota, a pasta declarou que todas as reuniões seguidas do rito institucional são registradas no sistema de transparência e que não existe processo de aquisição de medicamentos de canabidiol em andamento oriundo da audiência com Antunes.
Próximos passos da investigação
Com o inquérito oficialmente instaurado, a PF terá prazo inicial de 90 dias para concluir diligências, que podem incluir novos depoimentos, perícia em mensagens eletrônicas e eventual relatoria sobre evolução patrimonial dos investigados. Ao fim do período, o relatório será encaminhado ao STF, que decidirá pelo arquivamento ou pedido de abertura de ação penal.
Enquanto isso, aliados do presidente Lula ressaltam que a investigação não impacta decisões do Planalto e que o chefe do Executivo mantém “confiança absoluta” na inocência do filho. Em declarações recentes, Lula disse que Lulinha “não se esconderá” de julgamentos e “não terá privilégio nenhum”, em alusão direta ao histórico de críticas sobre interferência em órgãos de controle.
Para especialistas em direito público, o caso servirá de termômetro sobre a aplicação de leis anticorrupção em um setor — o da cannabis medicinal — que ainda carece de regulamentação mais clara. A análise de contratos, viagens e intermediações pode, na visão de procuradores, ajudar a estabelecer parâmetros para a relação entre iniciativa privada e agentes públicos em nichos de inovação farmacêutica.
