A senadora Tereza Cristina (PP-MS) usou as redes sociais, na manhã desta quinta-feira (30), para confirmar que discutiu com Flávio Bolsonaro (PL) a possibilidade de compor como vice a chapa presidencial do partido. É a primeira vez que a ex-ministra da Agricultura admite publicamente a alternativa, depois de semanas negando qualquer participação na disputa de 2026.
Embora a parlamentar ressalte que “nada está decidido”, a sinalização foi suficiente para movimentar o Centrão e empurrar o PL a adiar, mais uma vez, o anúncio oficial do companheiro de chapa. A escolha é vista como peça-chave para ampliar o tempo de propaganda no rádio e na TV e diminuir a percepção de isolamento da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Conversas reservadas em Brasília
O encontro que colocou Tereza Cristina de volta ao tabuleiro ocorreu na noite de quarta-feira (29), em um gabinete do Senado. Participaram o pré-candidato do PL, dirigentes partidários próximos a Valdemar Costa Neto e assessores da senadora. Segundo interlocutores ouvidos após a reunião, o tom foi “positivo”, mas dependente de “ajustes dentro das legendas”.
Postagem quebrou o silêncio
Horas depois, já na quinta-feira, Tereza publicou mensagem em que relata ter “iniciado diálogo” sobre a vice-presidência. O gesto contrasta com declarações de 21 de julho, quando chegou a recusar convite alegando prioridade ao projeto de disputar a presidência do Senado em 2027.
Alianças em jogo: União Brasil-PP e Republicanos
Enquanto conversa com Tereza Cristina, o PL intensifica tratativas para atrair duas siglas que podem turbinar a coligação: o Republicanos e a federação União Brasil-PP. Ambas, porém, vinham defendendo neutralidade para dar liberdade aos diretórios estaduais – tese que, se prevalecer, manteria Flávio com tempo de TV modesto.
O que cada partido ganha
- União Brasil-PP: garantiria espaço no eventual governo e aumentaria exposição nacional de seus prefeitos em ano pré-municipal.
- Republicanos: busca preservar influência nos estados do Sudeste sem romper com redutos bolsonaristas no Congresso.
- PL: dobra o tempo de propaganda e passa a exibir uma coligação que foge da ideia de candidatura isolada.
Outros nomes no radar do PL
Ainda que Tereza Cristina tenha assumido o posto de favorita, o partido mantém alternativas caso a negociação esbarre na federação que abriga o PP. Entre os cotados, despontam:
- Daniella Marques: ex-presidente da Caixa e filiada ao Republicanos, é vista como ponte para atrair a sigla de Marcos Pereira.
- Simone Marquetto (PP-SP): deputada de primeiro mandato, tem apoio de prefeitos paulistas aliados ao PL.
- Clarissa Tércio (PP-PE): parlamentar identificada com a pauta conservadora e com forte base no Nordeste.
Qualquer indicação dependerá de aval formal das legendas e, no caso específico da federação União Brasil-PP, de uma convenção que reúna os dois partidos.
O cálculo político de Tereza Cristina
Ex-ministra da Agricultura no governo Jair Bolsonaro, Tereza Cristina ganhou projeção nacional ao conduzir negociações com grandes players do agronegócio. No Senado, consolidou base transversal que a colocou como favorita para presidir a Casa em 2027. Entrar na disputa presidencial, portanto, representa trocar a previsibilidade de um cargo interno poderoso por uma campanha de risco.
Aliados afirmam que a senadora quer garantias de que, mesmo sem eleição, manterá protagonismo no eventual governo. Também pesa a análise sobre o eleitorado do Centro-Oeste, onde Flávio Bolsonaro perdeu terreno em 2022, mas ainda mantém votos fiéis.

Imagem: Edils Rodrigues
Impacto no calendário eleitoral
O PL pretendia oficializar o nome do vice até meados de agosto, durante convenção marcada para São Paulo. A aproximação de Tereza Cristina deve empurrar a confirmação para a última semana permitida pela legislação, em 5 de agosto, na esperança de selar o pacote completo de alianças.
Dentro do partido, há quem considere que estender o suspense acabe esfriando a pré-campanha. Outros líderes, porém, defendem que a manobra força União Brasil-PP e Republicanos a se posicionarem, sob risco de perder protagonismo num eventual governo de direita.
Reação de Flávio Bolsonaro
Até o fechamento deste texto, o pré-candidato do PL não havia comentado publicamente a conversa com Tereza Cristina. Assessores dizem que ele “recebeu bem” a disposição da senadora, mas quer evitar pressão sobre os aliados do Centrão. A estratégia, explicam, é vender a imagem de que o partido não cedeu à primeira recusa e soube construir uma chapa competitiva.
Mensagens ao eleitor
Entre os marqueteiros que orbitam o comitê, o discurso preparado para uma eventual dobradinha Flávio-Tereza foca em três eixos: retomada do crescimento via agro, defesa de pautas conservadoras e experiência administrativa. O PL acredita que essa combinação pode atrair eleitores que migraram para candidaturas de centro na última eleição.
Próximos passos
No curto prazo, a senadora deve intensificar reuniões com dirigentes do PP e do União Brasil para medir a resistência interna. Já o PL pretende apresentar pesquisas internas que mostram Tereza como nome mais “ampliador” de votos entre mulheres e no agronegócio. As cartas, contudo, só serão postas na mesa quando as convenções começarem em meados de julho.
Se as negociações fracassarem, o partido terá de decidir entre Daniella Marques, Simone Marquetto ou Clarissa Tércio, correndo contra o relógio. Caso contrário, Flávio Bolsonaro poderá anunciar a senadora sul-matogrossense como trunfo de última hora, selando uma disputa que, até dias atrás, ela mesma descartava.
