Violência doméstica atinge quatro em cada dez brasileiras com deficiência, mostra pesquisa

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    Quase 40% das mulheres que possuem algum tipo de deficiência no Brasil já foram agredidas por parceiros ou parentes dentro de casa. O dado, levantado pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), expõe um ciclo de abusos que se estende por anos e afeta milhões de brasileiras — taxa muito superior aos 28% registrados entre mulheres sem deficiência.

    O estudo ouviu 21.641 brasileiras com 16 anos ou mais entre maio e julho de 2025. Desse universo, 2.828 se autodeclararam pessoas com deficiência, o que projeta 11,7 milhões de mulheres nesse grupo em todo o país. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

    Pesquisa inédita traça panorama alarmante

    Das entrevistadas com deficiência, 38% disseram já ter sofrido algum tipo de violência doméstica ao longo da vida; 19% relataram agressões nos 12 meses anteriores à entrevista, e, para 69% dessas vítimas, os episódios se repetem há mais de um ano. Os agressores são, sobretudo, maridos ou companheiros: 65% estavam em relacionamento afetivo com a vítima no momento da violência mais grave.

    Os tipos de abuso que mais se destacam são o sexual e o patrimonial. Enquanto 39% das vítimas com deficiência relatam violência sexual, entre mulheres sem deficiência o índice é de 28%. No quesito patrimonial, 46% das mulheres com deficiência tiveram bens, documentos ou dinheiro controlados ou subtraídos pelo agressor.

    Quando o ciclo começa

    A primeira agressão se dá cedo: 36% sofreram o primeiro ataque antes dos 19 anos; outras 24%, entre 20 e 29 anos. A pesquisa aponta que, uma vez instalada, a violência tende a se prolongar, indicando dificuldade de romper o vínculo abusivo.

    Barreiras que silenciam as vítimas

    Apenas 7% das mulheres com deficiência que passaram por situações compatíveis com violência reconhecem-se como vítimas. A subnotificação é reforçada por obstáculos de comunicação, dependência do agressor e desconhecimento dos instrumentos legais. Dezoito por cento não sabem nada sobre a Lei Maria da Penha — o dobro do verificado entre mulheres sem deficiência. Em relação às medidas protetivas de urgência, 23% declaram desconhecimento total.

    Quando decidem buscar ajuda, esbarram em entraves práticos. Uma em cada cinco que solicitou medida protetiva afirma que o agressor ignorou a ordem judicial. O telefone de denúncia Ligue 180 foi acionado por apenas 16% das vítimas com deficiência. No total, 83% não registraram queixa alguma.

    Capacitismo confunde controle com cuidado

    Para Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil, a soma de capacitismo e machismo mascara atos de coerção. “Quando o controle de celular, documentos ou dinheiro vem travestido de proteção, a autonomia é corroída e a violência se esconde”, observa.

    Dependência financeira amplia vulnerabilidade

    O cenário socioeconômico agrava a exposição ao risco. Entre as mulheres com deficiência, 78% não têm trabalho remunerado e 48% não conseguem se sustentar com recursos próprios — índice que cai para 31% no grupo sem deficiência. A renda familiar é baixa: 80% vivem com até dois salários mínimos e somente 3% estão acima de seis salários.

    Violência doméstica atinge quatro em cada dez brasileiras com deficiência, mostra pesquisa - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    Mesmo entre aquelas que trabalham, a informalidade predomina. Das autônomas, 72% não possuem registro ou proteção trabalhista. A escolaridade acompanha o quadro: 10% são analfabetas e apenas 11% concluíram o ensino superior.

    Família vista como espaço de desrespeito

    O lar, que deveria oferecer segurança, é percebido como o local mais hostil por 29% das entrevistadas com deficiência — ante 21% do total de mulheres pesquisadas. Quanto à visão de país, 72% classificam o Brasil como “muito machista” e 56% creem que as mulheres não são tratadas com respeito. A formação desse olhar é atravessada por marcadores raciais: 55% das entrevistadas se declaram pretas, pardas ou indígenas.

    O que especialistas defendem

    Talita Oliveira, assistente social do OMV, aponta que mitos sobre sexualidade e autonomia das mulheres com deficiência favorecem crimes sexuais e patrimoniais. “Há quem acredite que essas mulheres não têm desejos ou controle sobre o próprio corpo. Esse estigma legitima abusos e restringe o acesso a benefícios como o BPC”, explica.

    Ela ressalta que muitas não conseguem denunciar por falta de acessibilidade. “Uma mulher surda pode precisar de intérprete de Libras; outra, com deficiência intelectual, de linguagem simples. Se o celular é vigiado, qualquer contato externo vira risco”, afirma.

    Para Slemenson, a oferta de serviços públicos deve considerar especificidades. “Acessibilidade também é proteção. Informação acessível, rede de apoio qualificada e atendimento contínuo fazem a diferença”, diz. Ela cita iniciativas como o programa Alagoas Lilás, que reúne ONGs e governo na criação de protocolos inclusivos.

    ‘Nada sobre nós sem nós’

    Oliveira reforça que políticas públicas precisam ser construídas com participação direta das mulheres com deficiência. A recomendação é que conselhos, audiências e grupos de trabalho reservem assentos a esse público, garantindo que suas experiências orientem propostas de prevenção, acolhimento e autonomia financeira.

    Caminhos possíveis

    A pesquisa DataSenado/OMV joga luz sobre um problema que ainda passa à margem do debate público. Ao integrar recorte por deficiência, o levantamento mostra que combater a violência de gênero no Brasil exige medidas dirigidas a grupos historicamente invisibilizados. Sem acessibilidade, renda e redes de apoio, quatro em cada dez brasileiras com deficiência continuarão reféns do espaço que deveria protegê-las: a própria casa.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.