Nem os Estados Unidos, anfitriões da Organização das Nações Unidas, nem as grandes potências que ocupam assentos permanentes no Conselho de Segurança. Na manhã desta terça-feira, será o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quem abrirá o Debate Geral da 78ª Assembleia Geral, logo após as falas protocolares do secretário-geral António Guterres e do presidente da sessão, Dennis Francis. A cena, vista quase todos os anos desde 1949, transformou-se em marca registrada da diplomacia brasileira e, mais do que um ritual, carrega leituras políticas sobre o espaço que o país ocupa no cenário multilateral.
Embora nenhum documento vinculante da ONU determine que o Brasil deva ser o primeiro chefe de Estado a discursar, a prática se consolidou a ponto de só ter sido quebrada duas vezes: em 1983 e 1984, quando o então presidente norte-americano Ronald Reagan pediu — e obteve — a inversão da ordem. Para explicar como um país fora do núcleo de poder da organização ganhou tamanha visibilidade, diplomatas e acadêmicos apontam três vertentes históricas.
Como a tradição começou
1. O voluntário que abriu caminho
Nos anos imediatamente posteriores à fundação da ONU, em 1945, representantes de diversos governos hesitavam em ocupar o primeiro púlpito, temendo que um discurso mal recebido pautasse o restante da reunião. Segundo registros da própria organização, foi o Brasil que quebrou o gelo em 1949, 1950 e 1951, oferecendo-se espontaneamente para inaugurar a lista de oradores. O gesto, repetido sem contestação, acabou virando costume. Desde 1955, o roteiro tradicional—secretário-geral, presidente da Assembleia, Brasil e, em seguida, Estados Unidos—passou a ser reproduzido de forma quase automática.
A diplomacia brasileira viu na oportunidade uma vitrine privilegiada para divulgar prioridades nacionais, sem disputar espaço em horários noturnos de pouca audiência. Agências internacionais de notícias passaram a programar sua cobertura considerando que, se quiserem ouvir o primeiro chefe de Estado, terão de noticiar o Brasil.
2. A herança de Oswaldo Aranha
Outro argumento remete a 1947, quando o diplomata gaúcho Oswaldo Aranha presidiu a Segunda Assembleia Geral e a Primeira Sessão Especial, que discutiu a partilha da Palestina. Ao pressionar pelo prosseguimento da votação que culminaria na criação do Estado de Israel, Aranha ganhou reconhecimento de membros influentes da época e chegou a ser cogitado para o Nobel da Paz. Para muitos historiadores, a deferência que passou a ser dada ao Brasil nos anos seguintes ganhou contornos de homenagem a essa atuação decisiva.
Em círculos diplomáticos, menciona-se inclusive que o lobby de países favoráveis à fundação de Israel reforçou a ideia de privilegiar o Brasil com a palavra inicial como forma simbólica de agradecimento. Ainda que não haja deliberação formal ligando um fato ao outro, o encadeamento cronológico ajuda a alimentar a narrativa.
3. O “prêmio de consolação” negado no Conselho de Segurança
Uma terceira linha de interpretação sustenta que o protagonismo brasileiro na abertura funcionaria como compensação política por o país não ter conquistado um assento permanente no Conselho de Segurança. Durante a criação da ONU, chegaram a circular propostas que incluíam o Brasil entre os membros fixos, em razão de sua liderança regional. A ideia, no entanto, foi rejeitada por Winston Churchill e Josef Stalin, que defenderam a manutenção de cinco potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial nesse círculo restrito.
De acordo com o professor Matias Spektor, da Fundação Getulio Vargas, a possibilidade de discursar antes mesmo do país-sede seria uma forma de reconhecer a “ascendência” brasileira na América Latina e suavizar o desgaste provocado pela exclusão do Conselho de Segurança. Para o especialista, a prática confere visibilidade sem afetar a lógica decisória do organismo, que continua concentrada nos cinco permanentes—Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido.
As raras exceções e seus significados
O acordo tácito que garante ao Brasil a abertura resistiu a crises internacionais, mudanças de governo e transições militares. Em 1983 e 1984, entretanto, a Casa Branca solicitou prioridade para Ronald Reagan, alegando conflitos de agenda — argumento aceito pela presidência da Assembleia. Fora esses episódios, a fila permanece inalterada.

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A tribuna inaugural também já teve efeito simbólico. Em 2011, Dilma Rousseff tornou-se a primeira mulher a ocupar o posto, episódio celebrado como avanço na representatividade de gênero. Naquele mesmo discurso, condenou a espionagem global revelada por Edward Snowden, tema que dominaria os bastidores da diplomacia por meses.
Lula e a expectativa para 2027
Com a volta de Lula ao Planalto, analistas preveem que o governo tentará usar o holofote da primeira fala para reafirmar compromissos ambientais, defender a reforma do Conselho de Segurança e retomar a projeção sul-americana do Brasil. A proximidade da cúpula do G20, que terá edição brasileira em 2024, reforça a aposta de que o discurso de hoje servirá como prévia de negociações futuras.
Dentro da própria ONU, cresce a discussão sobre ajustes na ordem de fala para acomodar lideranças de nações insulares ameaçadas pela crise climática. Até o momento, nenhum movimento concreto aponta para mudanças imediatas, e o Brasil segue escalado como primeiro orador na agenda preliminar de 2027.
Projeção midiática e custos diplomáticos
Falar antes de todos envolve vantagens e riscos. O tema escolhido pelo presidente brasileiro costuma pautar parte da cobertura internacional nas horas seguintes, mas também fica sujeito a escrutínio ampliado. Uma gafe na abertura tende a repercutir por toda a semana de debates, como alertam diplomatas experientes. Por isso, a preparação do discurso mobiliza Itamaraty e Palácio do Planalto por semanas, num esforço para conciliar política doméstica e recados a parceiros externos.
Especialistas lembram que, ainda que não exista cláusula que garanta ao Brasil a primazia, revogar a prática exigiria consenso entre os 193 membros — cenário considerado improvável. Em meio a disputas geopolíticas mais urgentes, poucos países parecem dispostos a comprar essa briga contra uma tradição que não afeta o jogo de poder real dentro da ONU.
Por que a tradição persiste
- Evita impasses: com o Brasil abrindo, Estados-Unidos e China, por exemplo, não disputam quem fala primeiro.
- Preserva hierarquias: o país-sede continua discursando cedo, logo após o Brasil, sem ceder posição a rivais.
- Facilita logística: o esquema de segurança de Nova York pode ser montado com base em um roteiro fixo.
Ao fim, a combinação de conveniência operacional, reconhecimento histórico e cálculo político explica por que a delegação brasileira volta hoje ao púlpito como primeira voz entre os chefes de Estado. Setenta e quatro anos depois da estreia voluntária, o microfone inicial da Assembleia Geral continua sendo, para o Itamaraty, a vitrine global mais cobiçada do calendário diplomático.