O avanço repentino do presidenciável Augusto Cury (Avante) no ranking de intenção de voto virou motivo de celebração na cúpula da campanha. Para o ex-deputado Julio Delgado, vice na chapa, o aumento de até dez pontos percentuais em apenas um mês indica que “o eleitor encontrou uma brecha para escapar do Fla-Flu ideológico” que domina o debate nacional.
Em tom de alívio, Delgado sustenta que a biografia do psiquiatra, best-seller entre leitores de autoajuda, somou-se ao cansaço generalizado com a disputa entre lulistas e bolsonaristas. “Atingimos gente que não se via representada nem de um lado nem de outro”, afirmou, reforçando que a equipe não esperava atingir dois dígitos tão cedo.
Salto nas sondagens de agosto
Duas pesquisas divulgadas no mesmo dia reforçaram o clima de virada. No levantamento AtlasIntel do fim de agosto, Cury saltou de 1,6% em julho para 7,8%, empatando em terceiro lugar com Renan Santos (Missão) e atrás apenas de Lula (PT), com 43,4%, e de Flávio Bolsonaro (PL), com 33,7%.
A pesquisa BTG/Nexus, publicada horas depois, trouxe números ainda mais animadores para o Avante: 11% das intenções, isolado em terceiro lugar. No mesmo cenário, Lula marcou 39%, Flávio ficou em 33%, enquanto Ronaldo Caiado (PSD) registrou 5%. Renan Santos apareceu com 3% e Romeu Zema (Novo) com 1%.
Análise do efeito “furos na bolha”
Para Delgado, parte do eleitorado rejeita a polarização desde 2018, mas não havia encontrado alternativa competitiva. “É como se tivéssemos colocado um alfinete na bolha e o ar começou a circular”, descreveu. Pesquisadores de opinião, no entanto, ponderam que a amostra ainda precisa ser confirmada em novos levantamentos, já que a margem de erro pode influenciar saltos repentinos em candidaturas menos consolidadas.
Da TV às ruas: onde a campanha acredita ter ganhado terreno
O comitê atribui o impulso recente a três frentes: a participação de Cury no debate de televisão promovido pela Bandeirantes, a entrevista no principal telejornal noturno do país e o roteiro de viagens em comunidades populares. Antes de ir aos estúdios da emissora, Cury visitou a Rocinha, no Rio de Janeiro, episódio descrito pelo vice como “alvoroço” entre moradores e curiosos.
Apesar do entusiasmo da campanha, analistas independentes avaliaram como “pouco clara” a performance do escritor tanto no debate quanto na entrevista. Ainda assim, a exposição em horário nobre teria provocado, segundo a equipe de marketing, uma busca online ligada ao nome do candidato e, consequentemente, novos seguidores.
Crescimento meteórico nas redes sociais levanta suspeitas
Entre quinta e domingo da semana passada, o perfil de Augusto Cury no Instagram saltou de pouco mais de oito milhões para dez milhões de seguidores. O aumento de cerca de 25% em menos de uma semana acendeu o sinal amarelo em campanhas adversárias, que passaram a questionar o uso de robôs ou impulsionamento irregular.
Julio Delgado rechaça a acusação. Ele afirma que, por enquanto, o Avante “nem sequer liberou verba significativa” para promover publicações. “Se houve algo fora do nosso alcance, não partiu da campanha”, garante. Nos bastidores, o comitê admite a possibilidade de ter recebido uma “mão invisível” de apoiadores de outros presidenciáveis em situação jurídica delicada, mas diz não possuir controle sobre iniciativas externas.
Debate sobre bots e regras eleitorais
Especialistas em mídia digital lembram que o Tribunal Superior Eleitoral acompanha indícios de engajamento artificial e pode multar candidaturas que se beneficiem do mecanismo, mesmo que a ação tenha partido de terceiros. Técnicos da Corte checam picos de novos perfis, origem geográfica dos acessos e padrões de curtidas para identificar irregularidades.
No campo político, adversários enxergam contradição entre o discurso de “saúde emocional” propagado pelo autor de “O Vendedor de Sonhos” e uma eventual estratégia agressiva de marketing. O Avante planeja divulgar relatório interno mostrando que o boom ocorreu após a entrevista no telejornal — quando o nome do psiquiatra figurou entre os assuntos mais comentados do país.

Imagem: Internet
Agenda revista por causa das chuvas
Depois de passar pelo Rio e pelo Paraná, Cury deveria desembarcar em Florianópolis e Porto Alegre, mas a programação foi cancelada devido à situação de emergência provocada pelos temporais no Sul. A campanha estuda concentrar esforços em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, para capitalizar o bom momento nas sondagens.
Dirigentes regionais pressionam por uma “turnê” de debates segmentados, encontros universitários e visitas a polos industriais. A opção de acelerar o ritmo dependerá de ajustes orçamentários: o fundo partidário do Avante é limitado e não comporta longas caravanas aéreas.
Foco em público “desiludido”
O marketing do partido mapeou dois perfis considerados estratégicos: jovens até 29 anos que nunca votaram em Lula nem em Bolsonaro e mulheres acima de 45 anos que lidam com sobrecarga doméstica. Para alcançar esse segmento, vídeos curtos com mensagens sobre equilíbrio emocional, marca registrada do escritor, têm sido distribuídos em grupos de aplicativos de mensagem.
Reações da concorrência e cenário projetado
Aliados de Lula minimizam o crescimento de Cury e afirmam que sua candidatura contribui mais para diluir votos do chamado “campo da terceira via” do que para ameaçar a dianteira petista. Já no QG de Flávio Bolsonaro, assessores demonstram preocupação com potenciais migrações vindas de eleitores evangélicos moderados, historicamente sensíveis a discursos familiares e de saúde mental.
Analistas de mercado, por sua vez, enxergam o fenômeno com cautela. Eles lembram o exemplo de candidaturas que ganharam fôlego repentino em ciclos anteriores, mas não sustentaram o ritmo até outubro. O desempenho de Cury em próximos debates televisivos, previstos para setembro, será crucial para aferir se o pico representa tendência ou efeito-relâmpago.
Potencial de impacto no segundo turno
Se o escritor mantiver os atuais índices, pode se tornar fiel da balança na reta final. Simulações internas de institutos privados indicam que, em eventual segundo turno entre PT e PL, parte significativa de seus simpatizantes migraria para a candidatura que fizer concessões na pauta de saúde mental — tema que conquistou importância transversal entre eleitores de diferentes espectros.
Próximos movimentos
Com os holofotes voltados para a dupla Cury-Delgado, a prioridade é transformar a curiosidade em intenção consolidada. A equipe prepara um plano de posicionamento orgânico nas redes com lives diárias e interação em tempo real, a fim de afastar a imagem de “candidato invisível” fora das livrarias.
Também está em estudo uma carta-compromisso com propostas de segurança pública, educação e controle de gastos — temas que costuram transversalmente preocupações emocionais e materiais do eleitorado. A expectativa é apresentá-la antes do próximo debate para sustentar as respostas do candidato e, assim, evitar críticas quanto à falta de objetividade vistas em participações anteriores.
Enquanto a campanha busca enterrar o rótulo de outsider literário, o ex-deputado Julio Delgado garante que Cury já fez história ao furar o “muro” da polarização. Se o fôlego vai durar até as urnas, só as próximas semanas dirão. Por ora, o psiquiatra celebra um feito que poucos no Avante ousavam projetar: entrar pela porta da frente na disputa majoritária.