Urnas eletrônicas partem de Manaus e encaram travessia de 1.000 km pelos rios do Amazonas para garantir voto em 2026

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    Barcos lotados de caixas lacradas zarparam de Manaus nesta semana levando a primeira leva de urnas eletrônicas que vão atender os eleitores do interior do Amazonas em 2026. Para chegar a municípios como Tabatinga, na fronteira com o Peru e a Colômbia, o equipamento percorre mais de mil quilômetros de rio em uma viagem que dura sete dias e envolve uma complexa operação de segurança e preservação contra a umidade.

    A largada do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) marca o estágio mais delicado do planejamento iniciado em janeiro de 2025: distribuir, até outubro do ano que vem, as 8.048 urnas que serão usadas no estado. Desse total, 4.200 irão para localidades onde o barco é praticamente o único caminho possível. Desta vez, a estiagem agravada pelo fenômeno El Niño forçou a Justiça Eleitoral a colocar as embarcações na água com ainda mais antecedência.

    Antecipação inédita para driblar estiagem

    A malha aérea restrita, somada às previsões de seca histórica nos rios Solimões e Amazonas, pesou na decisão de ativar a expedição fluvial ainda em agosto de 2026. “Precisamos garantir que o material chegue inteiro e dentro do prazo. Com o nível dos rios baixando e voos escassos, ganhar algumas semanas pode ser decisivo”, explica Marcelo Sussuarana, coordenador da Gestão das Eleições do TRE-AM.

    Os técnicos calcularam que, se o nível das águas cair no ritmo observado nos últimos anos, trechos considerados seguros hoje podem ficar intransponíveis para embarcações de médio porte no pico da seca, previsto para setembro. Por isso, os roteiros adotam margens de segurança maiores e, em alguns trechos, contam com apoio de embarcações menores, capazes de navegar em canais mais rasos.

    Alto Solimões: primeira parada

    A remessa inaugural carrega 467 urnas destinadas aos nove municípios da região do Alto Solimões. Tabatinga, sede de zona eleitoral e ponto mais distante dessa etapa, é o último porto antes do retorno da embarcação. Na prática, cada urna sai de Manaus, desce o Rio Negro, adentra o Solimões e segue rio acima até encontrar a fronteira oeste do País, depois de contornar bancos de areia, galhadas e trechos de correnteza forte.

    Ao desembarcar, os equipamentos são guardados em cartórios ou batalhões da Polícia Militar até a fase de carga de dados. Lá, técnicos conectam pendrives criptografados que contêm informações de eleitores e candidatos, tarefa programada para começar no primeiro semestre de 2026.

    Proteção contra água e calor

    Cada urna embarca envolta em camadas de plástico termoencolhível, dessecantes e mantas de espuma. O conjunto resiste a respingos, ao vapor que se forma no porão e às bruscas variações de temperatura – à noite, o equipamento pode enfrentar 22 °C; durante o dia, mais de 40 °C sob o sol amazônico.

    Nos porões, as caixas são acomodadas sobre paletes de madeira para evitar contato com eventuais poças. Os tripulantes conferem periodicamente a integridade dos lacres e mantêm geradores prontos para acionamento de bombas de esgotamento, caso a água avance. Nada disso é excesso de zelo: em 2022, uma enchente súbita em comunidade ribeirinha alagou parte da carga, forçando o TRE a acionar o plano de contingência e enviar urnas reserva de avião.

    Segurança e rastreamento

    Todo o trajeto é monitorado por GPS. Os dados de posição das embarcações são transmitidos em tempo real à central do tribunal, em Manaus. A Polícia Federal mantém agentes nas principais paradas para escoltar o material até os depósitos locais. Sem sinal de celular, a comunicação em muitos trechos depende de rádio de alta frequência.

    Além do risco natural de naufrágio ou extravio, a Justiça Eleitoral mapeia pontos críticos de criminalidade na rota, sobretudo áreas isoladas onde há registro de pirataria fluvial. Nesses trechos, barcos da Marinha reforçam a vigilância.

    Gigante territorial e desafios naturais

    O Amazonas possui 62 municípios espalhados por uma área maior que a soma das regiões Sudeste e Sul. De cada 10 cidades, sete não têm ligação rodoviária permanente com a capital. Em muitas, o ribeirinho depende das marés para chegar à escola onde vota. Quando os rios encolhem, comunidades inteiras ficam a pé entre praias improvisadas e trechos de lama.

    Nesse cenário, a urna eletrônica navega há quase três décadas. Logo após a adoção do voto informatizado, em 1996, barcos adaptados transportaram os primeiros modelos de 23 quilos e bateria chumbo-ácida. Hoje, o equipamento pesa pouco mais da metade, mas a necessidade de proteção não mudou. “O que garante a chegada é a cultura de planejamento com antecedência”, afirma Sussuarana.

    Números da operação 2026

    • Urnas que sairão de Manaus: 8.048
    • Destinadas ao interior: 4.200
    • Primeira remessa: 467 unidades
    • Distância até Tabatinga: 1.108 km por via fluvial
    • Duração da viagem mais longa: 7 dias

    Próximas etapas até o dia da votação

    Depois de abastecer o Alto Solimões, a Justiça Eleitoral reedita o roteiro para o Médio e Baixo Amazonas, Purus, Juruá e Rio Negro. Cada microrregião recebe as urnas em comboios distintos para evitar concentração de riscos. Nos bastidores, a Seção de Tecnologia da Informação testa baterias, lacres e memórias flash.

    Entre abril e maio de 2026, técnicos viajam até as zonas eleitorais para a cerimônia de geração de mídias, quando arquivos de candidatos, eleitores e seções são inseridos nos terminais. O procedimento é público e pode ser acompanhado por representantes de partidos, Ministério Público e OAB.

    Socorro das Forças Armadas

    Assim como em 2022, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica prestarão apoio logístico nos trechos de difícil acesso. Aviões C-105 da FAB ficam de prontidão para emergências, principalmente se a estiagem prolongada impedir o avanço dos barcos. Já helicópteros do Exército cobrem comunidades que só dispõem de pistas de pouso improvisadas em clareiras.

    Barco, voto e cidadania

    Para o eleitor que vive às margens do rio Jutaí ou do Içá, a movimentação passa quase despercebida. Ele verá apenas, na véspera da eleição, a urna montada na escola da comunidade ou no flutuante usado como seção. Mas o caminho até ali envolve meses de cálculos, contratos com empresas de navegação, treinamento de servidores, reforço policial e vigilância sanitária – afinal, muitas urnas viajam junto a mantimentos, combustível e carga viva.

    A travessia das urnas eletrônicas reforça um traço singular da democracia no maior estado do País: votar, no Amazonas, é também um ato de navegação. Enquanto a seca deste ano promete recordes negativos nos mananciais, a Justiça Eleitoral aposta na antecipação para assegurar que, em outubro de 2026, todos os 2,5 milhões de eleitores amazonenses encontrem a cabine pronta – ainda que alguns precisem chegar de voadeira, outros de rabeta e muitos depois de várias horas cruzando o rio que chamam de estrada.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.