Duas prisões e a apreensão de um tonel recheado de maconha em pleno manguezal marcaram a manhã desta quarta-feira (12) na Grande Vitória. A ação, batizada de Operação Aratu, foi desencadeada pela Polícia Federal (PF) para desarticular uma quadrilha que, segundo as investigações, controlava o armazenamento, o fracionamento e a distribuição de entorpecentes em Cariacica, município da Região Metropolitana do Espírito Santo.
A polícia cumpriu quatro mandados de prisão temporária e três de busca e apreensão. Até o fim da operação, dois alvos já haviam sido localizados e levados para a sede da PF, enquanto equipes vasculhavam áreas de difícil acesso à procura de mais integrantes e de outros esconderijos de drogas.
Tonel enterrado virou cofre de entorpecentes
Durante o cumprimento dos mandados, agentes da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado do Espírito Santo (Ficco/ES) seguiram indicações obtidas na investigação e entraram num trecho de manguezal em Cariacica. Lá, encontraram um recipiente plástico industrial — o tonel — soterrado e camuflado pela vegetação. Dentro dele, estavam 22 tabletes inteiros e 695 buchas de maconha, prontos para abastecer pontos de venda no município.
Para a PF, o achado reforça a suspeita de que a organização criminosa usava o manguezal como “armazém natural”, apostando na lama espessa e na mata fechada para despistar a fiscalização. O local ficava a poucos minutos de vias asfaltadas, o que permitia rápida retirada da mercadoria quando surgia a demanda dos traficantes.
Logística dividida por funções
Os dois homens presos nesta quarta-feira ocupavam, de acordo com a PF, “funções relevantes” na estrutura da quadrilha. As investigações iniciadas em maio deste ano apontam a existência de uma divisão clara de tarefas: um núcleo cuidava do controle de estoque, outro do preparo e fracionamento da droga, enquanto integrantes de confiança se responsabilizavam pela movimentação financeira. Essa separação em células, ainda segundo a corporação, foi crucial para manter o grupo ativo mesmo após prisões anteriores.
O inquérito nasceu há pouco mais de três meses, quando dois suspeitos foram flagrados com maconha e dinheiro em espécie. A partir desse episódio, investigadores mapearam contatos telefônicos, rotas de deslocamento e fluxos de recursos, chegando aos alvos de hoje. O conteúdo apreendido na primeira ocorrência também passou por perícia, o que ajudou a ligar amostras da droga ao material agora achado no tonel.
Mandados e prisões temporárias
A Justiça Federal autorizou quatro ordens de prisão temporária — medida com prazo definido e que pode ser prorrogada, caso necessário para o avanço das apurações. Duas delas já foram executadas. Os investigados serão ouvidos e, se o Departamento de Polícia Federal entender haver indícios robustos, podem ter a prisão convertida em preventiva.
Além das capturas, três endereços ligados aos suspeitos foram vasculhados. Equipamentos eletrônicos, anotações e possíveis registros de contabilidade do tráfico foram recolhidos e enviados para análise. Dependendo do conteúdo extraído dos celulares e computadores, a PF não descarta pedir novas diligências e novas ordens judiciais.
Ficco/ES: ação conjunta de forças de segurança
A Operação Aratu teve coordenação da Ficco/ES, estrutura que reúne Polícia Federal, Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Penal, Secretaria Nacional de Políticas Penais e guardas municipais de Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica e Viana. A integração, explica a PF, reduz o tempo de resposta, amplia o compartilhamento de inteligência e evita sobreposição de esforços ao longo das investigações.
Nenhum dos nomes dos detidos foi revelado. Em nota, a corporação justificou o sigilo para preservar o curso do inquérito e para evitar prejuízos à identificação de outros suspeitos que seguem foragidos. Também não foi informado se os dois já possuíam antecedentes criminais.

Imagem: Internet
Impacto local do esquema de tráfico
Cariacica despontou nos relatórios policiais como ponto estratégico para o armazenamento de drogas destinadas a toda a Grande Vitória, dada a facilidade de acesso às rodovias e a presença de áreas pouco habitadas, como o manguezal onde o tonel foi enterrado. Investigações anteriores da PF já apontavam a migração de esconderijos para regiões alagadas, onde cães farejadores têm dificuldade de atuar e o terreno acidentado atrapalha incursões rápidas.
Embora a operação desta quarta não tenha mensurado o lucro do grupo, o valor de mercado dos 22 tabletes e das 695 buchas supera, segundo a estimativa de agentes, dezenas de milhares de reais. O dinheiro, acreditam os investigadores, era reinvestido na compra de carregamentos maiores e em armas para proteção das bocas de fumo.
Próximos passos do inquérito
Com base no artigo 35 da Lei de Drogas (associação para o tráfico) e no artigo 33 (tráfico), a PF deve indiciar os detidos e demais investigados assim que o material periciado retornar. Dependendo do envolvimento de cada integrante, poderão responder também por lavagem de dinheiro, caso o cruzamento de dados bancários mostre tentativa de ocultar ganhos ilícitos.
O inquérito corre sob segredo de Justiça. A expectativa é de que novos depoimentos sejam colhidos nos próximos dias, inclusive de familiares dos suspeitos e de pessoas que possam ter facilitado a movimentação de valores.
Droga, tonel e meio ambiente
Além do crime de tráfico, o grupo pode enfrentar questionamentos ambientais. O soterramento de recipientes plásticos e o fluxo constante de pessoas armadas em área de proteção permanente podem configurar dano ambiental, tema que será repassado à Superintendência da PF especializada em crimes contra o meio ambiente. Em nota, a corporação adiantou que pretende acionar órgãos ambientais municipais e estaduais para avaliar o impacto das atividades ilegais sobre o manguezal.
O material apreendido seguiu para o depósito judicial da PF e, após autorização, será incinerado. Já o tonel, após perícia, deve ser descartado conforme normas ambientais.
Orientações à população
A Polícia Federal reforçou o canal de denúncias 181, que funciona 24 horas, para moradores que desejem relatar movimentações suspeitas em áreas isoladas. O anonimato é garantido. Segundo a corporação, várias das pistas que levaram ao tonel partiram de ligações anônimas feitas por vizinhos incomodados com a circulação noturna de estranhos no manguezal.
Os dois presos permanecem à disposição da Justiça Federal. Novas atualizações sobre a Operação Aratu serão comunicadas assim que a equipe de investigação avançar no mapeamento da quadrilha.
