Copas carregadas de amoras e pitangas viram atração – e motivo de alerta – nas ruas de São Paulo

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    Na contramão do asfalto, os galhos das amoreiras enfileiradas ao longo da Avenida 23 de Maio, uma das vias mais movimentadas de São Paulo, amanhecem pendendo de frutos escuros e suculentos. O cenário provocou uma corrida silenciosa: pedestres esticam os braços, enchem sacos plásticos e dividem a colheita com pássaros. Junto com o cheiro doce que escapa das copas, porém, surge a preocupação com a qualidade dessas frutas expostas ao trânsito intenso e à poluição crônica da capital paulista.

    Especialistas em nutrição e profissionais que cuidam das áreas verdes confirmam que, além das amoras, logo despontarão pitangas, goiabas e até abacates em diferentes pontos da cidade. Ao mesmo tempo, lembram que o ambiente urbano concentra partículas tóxicas, microrganismos e poeira capazes de contaminar o que parece um lanche gratuito e saudável. A dúvida que fica é: vale o risco de comer diretamente do pé?

    Pomar que resiste ao concreto

    As manchas roxas que salpicam calçadas denunciam a safra de amoras, a primeira de uma sucessão de frutas que encontram brechas no concreto paulistano. Entre os troncos plantados em pequenos canteiros, pitangueiras já florescem, sinalizando que em poucas semanas os frutos laranja-avermelhados dividirão espaço com enfeites natalinos. Nos últimos meses do ano, as goiabas amadurecem e despencam sobre telhados de carros e tênis apressados, enquanto abacateiros isolados surpreendem motoristas na mesma avenida.

    “Com a natureza ninguém se mete”, resume a advogada aposentada Janete Ana, 80 anos, enquanto aproveita a rampa de acesso à 23 de Maio para colher o que alcança. Para ela, a colheita é quase um ritual: cumprimenta cada árvore e lamenta as que mostram desgaste. Já o jardineiro Ananias Oliveira, 54 anos, acostumado a cuidar das áreas verdes do município, confirma que a fartura não se limita àquela região. Na Avenida Salim Farah Maluf, ele vê goiabeiras carregadas todos os anos, e garante que um abacateiro na própria 23 de Maio fica “estourando de fruto” quando chega a época.

    Colheita espontânea

    Durante o intervalo de almoço dos funcionários da limpeza urbana, não é raro aparecer alguém para pedir licença e alcançar as frutas mais altas com um guarda-chuva, pedaço de pau ou simples habilidade de pular e segurar o galho. “Volta e meia enchem um saquinho e levam”, relata Oliveira, observando que a prática não distingue faixa etária nem condição social: de executivos a entregadores de aplicativo, todo mundo tenta garantir algumas unidades fresquinhas.

    Quando a doçura pode amargar

    Embora a cena lembre a vida no interior, a nutricionista Gabriella Cilla alerta que ambiente urbano não oferece as mesmas garantias de um pomar rural. Próximas a avenidas de tráfego pesado, as frutas podem acumular partículas de poluição, metais pesados e até hidrocarbonetos depositados pela fumaça dos veículos. A poeira levada pelo vento gruda na casca porosa das amoras, por exemplo, elevando o risco de ingestão concomitante de poluentes.

    Poluição e microrganismos

    Além dos gases emitidos pelos escapamentos, córregos contaminados, terrenos com lixo e fezes de animais aumentam a possibilidade de contaminação microbiológica. “O problema não é a fruta em si, mas tudo que entra em contato com ela”, observa Cilla. Isso inclui bactérias, ovos de parasitas e fungos invisíveis que se desenvolvem no calor úmido típico da cidade.

    São Paulo costuma registrar altos índices de monóxido de carbono e material particulado fino. Frutas com elevada porosidade – caso das amoras – agem quase como esponjas, absorvendo parte dessas substâncias. O consumo esporádico dificilmente causará intoxicação aguda, mas a especialista recomenda cautela, sobretudo para crianças, idosos e pessoas imunossuprimidas.

    Como reduzir o risco sem abrir mão do sabor

    A nutricionista ressalta que não é preciso demonizar essa experiência urbana, ainda mais em uma metrópole carente de áreas verdes. O segredo é adotar cuidados básicos de higiene e selecionar bem onde colher. Seguem orientações essenciais:

    • Evite comer a fruta diretamente do galho; leve para casa antes de consumir.
    • Escolha apenas frutos íntegros, sem fungos, furos ou presença de insetos.
    • Lave em água corrente para retirar poeira e sujeira visível.
    • Se for ingerir a casca, deixe de molho em solução sanitizante indicada para alimentos.
    • Dê preferência a árvores distantes do fluxo intenso de veículos, de córregos poluídos ou pontos de descarte de lixo.

    A lavagem remove sobretudo microorganismos e sujeira superficial; contaminantes químicos podem persistir, mas têm níveis reduzidos quando a coleta ocorre em locais menos expostos. Por isso, parques, praças internas de bairros residenciais e ruas com tráfego moderado representam opções mais seguras.

    Desafio para a gestão pública

    O fenômeno levanta outra discussão: faltam políticas claras sobre manejo de árvores frutíferas em áreas públicas. Técnicos da prefeitura fazem a poda com foco na segurança – prevenir queda de galhos, afastar fiação –, mas raramente monitoram a qualidade dos frutos ou instalam placas orientando a população sobre riscos e boas práticas de higiene. Enquanto isso, a procura cresce à medida que a inflação pressiona o preço das frutas no varejo.

    Para urbanistas, incentivar pomares comunitários planejados, longe de vias de tráfego intenso, poderia transformar um hábito informal em programa de segurança alimentar. A experiência de cidades europeias e norte-americanas mostra que, com catalogação, testes periódicos de solo e educação ambiental, é possível colher nas ruas sem medo.

    Entre o prazer e a precaução

    Enquanto políticas concretas não avançam, paulistanos seguem recorrendo ao improviso, equilibrando-se na ponta dos pés para alcançar as amoras mais maduras. Para muitos, o gesto oferece alívio poético à selva de pedra, lembrando que a natureza resiste e insiste mesmo sob céu cinzento. Mas o recado dos especialistas é claro: apreciar o sabor da fruta urbana requer, antes de tudo, olhar ao redor, avaliar a procedência e dedicar poucos minutos à higienização.

    Se os cuidados forem observados, a colheita pode continuar sendo um momento de encontro entre cidade e campo, integrando-se ao cotidiano sem colocar a saúde em segundo plano. Afinal, como resume a aposentada Janete Ana, “ninguém vence a natureza” – mas é possível negociar com ela de forma mais segura.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.