Um crime brutal abalou o bairro Jaburuna, em Vila Velha, na Grande Vitória, logo nas primeiras horas desta terça-feira (4). De acordo com a Polícia Militar, Dejair Benedito Nogueira, de 67 anos, foi morto a facadas pelo próprio sobrinho, de 24, que pretendia roubar o dinheiro da aposentadoria recebido na véspera. A vítima foi atacada enquanto dormia e não teve chance de defesa.
O suspeito fugiu após o homicídio, mas terminou capturado ainda pela manhã. A Polícia Civil trata o caso como latrocínio — roubo seguido de morte — e mantém a investigação sob sigilo enquanto aguarda laudos periciais e depoimentos de testemunhas.
Crime na madrugada
Relatos colhidos pelos policiais apontam que o ataque ocorreu por volta das 5h. Vizinhos teriam escutado barulho dentro da residência de Dejair, mas só perceberam a gravidade da situação quando o irmão do agressor, um adolescente de 17 anos, entrou na casa e encontrou o tio caído no quarto, com ferimentos profundos no pescoço e no peito.
Assustado, o menor correu para pedir ajuda e acionou o 190. Quando a equipe de emergência chegou, o idoso já estava sem vida. A perícia inicial indica múltiplos golpes de faca, o que, segundo investigadores, revela intenção clara de matar. A arma utilizada não foi encontrada na cena.
Dinheiro guardado em casa
A motivação ficou evidente nas primeiras diligências. Na tarde de segunda-feira (3), Dejair havia sacado a pensão mensal e guardado parte do valor em casa, costume que mantinha para quitar pequenas despesas e ajudar parentes próximos. O montante exato não foi divulgado, mas familiares contaram que o aposentado costumava emprestar pequenas quantias ao sobrinho agressor, dependente químico, e registrava tudo num caderno encontrado pelos agentes.
Investigação e prisão
Após o crime, o suspeito deixou o imóvel e tentou se esconder em ruas próximas. Equipes da PM fizeram um cerco no bairro usando informações repassadas por vizinhos, que descreveram roupas e características físicas do rapaz. Menos de duas horas depois, ele foi localizado caminhando em atitude considerada suspeita.
Confissão parcial
Conduzido ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), o jovem teria admitido a intenção de “pegar o dinheiro”, mas alegou não se lembrar de quantos golpes aplicou. A defesa informou que só se manifestará em juízo. Até o fechamento desta edição, o nome do suspeito permanecia sob sigilo, prática comum em casos que envolvem investigações em andamento no Espírito Santo.
Rastro de dívidas e dependência química
Parentes de Dejair afirmaram que o sobrinho já apresentava comportamento agressivo havia meses, principalmente quando consumia drogas. Eles relataram que, na madrugada do crime, o jovem estava “muito alterado” e insistia para que o tio antecipasse mais dinheiro. O caderno encontrado pela polícia mostra anotações de valores que variam entre R$ 20 e R$ 200, uma frequência que indica, segundo investigadores, relação direta com a compra de entorpecentes.
Especialistas ouvidos pela reportagem lembram que dívidas ligadas ao uso de drogas são um fator de risco para episódios de violência extrema dentro de famílias, sobretudo quando o usuário tem fácil acesso às vítimas e conhece a rotina financeira delas.
Família em choque
O choque emocional atingiu não apenas os parentes, mas toda a vizinhança. Convivendo havia quase 40 anos na mesma rua, Dejair era visto como alguém tranquilo, que passava os dias cuidando do pequeno jardim em frente à casa. Vizinhos disseram que, apesar de perceberem o sofrimento do aposentado com o sobrinho, nunca imaginaram um desfecho tão violento.

Imagem: Internet
O irmão mais novo da vítima, que preferiu não ter o nome divulgado, contou que tentou convencer Dejair a mudar o hábito de guardar valores em casa. “Ele dizia que era para evitar fila de banco, mas eu alertava que era perigoso. Nunca passou pela nossa cabeça que o perigo viria de dentro da própria família”, lamentou.
Procedimentos legais
Depois da perícia, o corpo de Dejair foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML) de Vitória para necropsia. A liberação aos familiares ocorreu no início da tarde. O sepultamento está marcado para a manhã de quarta-feira (5) no Cemitério Municipal de Vila Velha.
O inquérito policial seguirá na Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Se a tipificação de latrocínio for mantida, o acusado pode pegar pena de 20 a 30 anos de prisão. A expectativa é de que testemunhas próximas, inclusive o irmão adolescente que encontrou o corpo, sejam ouvidas até o fim da semana.
Assistência psicológica
Profissionais do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) foram acionados para oferecer apoio psicológico à família, sobretudo ao menor que presenciou as consequências imediatas do crime. Ele relatou à polícia que vinha tentando manter distância do irmão mais velho por medo de represálias.
Segundo a Secretaria de Assistência Social de Vila Velha, a intervenção é fundamental para prevenir traumas duradouros. A equipe multidisciplinar pretende acompanhar o adolescente durante as audiências e garantir que ele continue frequentando a escola enquanto o processo avança.
Contexto de violência doméstica
O caso joga luz sobre a escalada de crimes patrimoniais cometidos por parentes próximos no Espírito Santo. Dados do Observatório de Segurança Pública estadual mostram crescimento de 8% nos registros de latrocínio envolvendo vínculos familiares entre 2024 e 2025. Especialistas apontam que a falta de políticas efetivas de combate à dependência química e o envelhecimento da população tendem a agravar esse cenário.
Para o sociólogo Alexandre Gama, coordenador de estudos sobre violência urbana na Ufes, a combinação de crise econômica, acesso facilitado a drogas ilícitas e o uso de recursos em espécie dentro de casa cria um ambiente propício a conflitos fatais. “Quando a vítima é idosa, a vulnerabilidade aumenta. É fundamental reforçar redes de proteção e criar canais de denúncia acessíveis”, afirmou.
Medidas de prevenção
- Evitar guardar grandes quantias em casa, principalmente quando há histórico de usuários de drogas no ambiente familiar;
- Manter diálogo constante com instituições de saúde e assistência social para acompanhar dependentes químicos;
- Acionar a polícia ou órgãos de apoio diante de qualquer sinal de ameaça ou agressão;
- Buscar orientação jurídica sobre medidas protetivas, mesmo quando o agressor é parente próximo.
O caso de Dejair Benedito Nogueira permanece sob investigação. A expectativa é de que a conclusão do inquérito e o encaminhamento ao Ministério Público ocorram nas próximas semanas, definindo se o sobrinho irá a júri popular ou se haverá acordo de confissão. Enquanto isso, a família tenta lidar com a perda e com o impacto de uma violência que veio de onde menos se esperava.
