Renan Santos, candidato do partido Missão ao Palácio do Planalto, usou uma entrevista em rede nacional nesta quarta-feira (26) para reiterar propostas de linha dura na segurança pública, inscrever uma nova reforma da Previdência entre as prioridades imediatas e defender que o Brasil deixe o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares para desenvolver armamento atômico. Durante 40 minutos, o empresário de 42 anos enfrentou questionamentos sobre a viabilidade jurídica e orçamentária dos projetos, admitiu inspiração no presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e voltou a afirmar que “decisões ilegais” do Supremo Tribunal Federal não seriam cumpridas em um eventual governo.
Ao vivo, o postulante insistiu que o país está “em guerra unilateral” contra facções criminosas e prometeu retomar, em 12 meses, todas as áreas dominadas por essas organizações. Para isso, pretende erguer dez presídios federais de segurança máxima, cada um com capacidade entre 30 mil e 40 mil detentos, ao custo estimado de R$ 6 bilhões. A entrevista faz parte de uma série com os seis presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto.
Choques com o STF
Perguntado sobre declarações anteriores em que ameaçou descumprir decisões da Corte, Renan Santos qualificou o cumprimento de ordens “ilegais” como um “dever de desobediência” para qualquer cidadão. Segundo ele, apenas atos que coloquem a população “em risco de vida” seriam ignorados. “Decisão ilegal não se cumpre”, sintetizou, sem detalhar critérios objetivos para esse juízo.
Economia: Previdência no centro do ajuste
O candidato classificou a atual estrutura previdenciária como “insustentável” e previu colapso em até três anos caso nada seja feito. Rechaçando o rótulo de “populista fiscal”, sinalizou cortes de gastos em paralelo à nova reforma. O plano econômico ainda inclui investimentos em infraestrutura e uma Proposta de Emenda Constitucional batizada de PEC do Equilíbrio Fiscal, que, segundo ele, geraria economia de R$ 1,1 trilhão até 2031.
Vinculações e salário mínimo
Entre as medidas listadas no programa registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está o fim da indexação de aposentadorias ao salário mínimo, que passariam a ser corrigidas apenas pela inflação. Também estão na mira as vinculações obrigatórias de verbas para saúde e educação.
Segurança pública: “guerra” declarada
Inspirado nas ações de Bukele, Renan Santos propõe declarar “estado de guerra” ao crime organizado logo no primeiro dia de mandato. Prevê operações de retomada territorial respaldadas por decretos de Estado de Defesa e por uma Lei Antifacção. A Lei de Execução Penal seria alterada para enquadrar membros de facções como “entes anômalos”, suprimindo garantias legais em nome do que chamou de “Direito Penal do Inimigo”.
Superpresídios e desfavelização
O pacote inclui a construção de dez novas penitenciárias federais, capazes de abrigar até 400 mil presos no total, e um plano de “desfavelização” que promete acabar com comunidades informais em uma década. A estratégia combina financiamento imobiliário subsidiado, monitoramento por satélite e tipificação penal de quem promover ocupações irregulares.
Defesa e política externa
Sobre armamento nuclear, Renan Santos sustentou que o poderio atômico é condição para que o Brasil integre o grupo das cinco maiores nações. Chegou a citar a Coreia do Norte como exemplo de país “respeitado” por possuir bombas, embora critique o regime de Pyongyang. Reconheceu, porém, que o domínio completo da tecnologia não viria antes de uma década.

Imagem: Internet
Relação com China e EUA
O presidenciável acusou a atual política externa de subserviência a Pequim e avaliou que o governo brasileiro “se pronuncia sempre a favor dos interesses chineses” em disputas internacionais. Em paralelo, advertiu que a perda de protagonismo dos Estados Unidos na cadeia de terras-raras desperta “cobiça” sobre a Amazônia, razão pela qual o país precisaria reforçar sua capacidade de dissuasão militar.
Controvérsias pessoais
Renan Santos foi instado a comentar o áudio gravado em 2022 pelo ex-deputado Arthur do Val, aliado político que descreveu mulheres ucranianas como “fáceis porque pobres”. Considerou o conteúdo “muito ruim” e disse que teria desencorajado o envio se estivesse de posse da gravação. Do Val perdeu o mandato estadual após repercussão do caso.
Calendário de entrevistas
A rodada de sabatinas com presidenciáveis prossegue até 29 de agosto. Depois de Renan, serão entrevistados: Luiz Inácio Lula da Silva (27/8), Flávio Bolsonaro (28/8) e Augusto Cury (29/8). Já participaram Romeu Zema e Ronaldo Caiado. As conversas são exibidas após o principal telejornal da emissora.
Quem é Renan Santos
Empresário, ativista e fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), Renan dos Santos tem 42 anos e disputa a primeira eleição presidencial. Abandonou o curso de Direito na USP para se dedicar ao grupo que ganhou projeção durante as manifestações pró-impeachment de Dilma Rousseff em 2015. O MBL converteu-se em partido político em 2025, rebatizado como Missão, e lançou o líder nacional ao Planalto.
Ideário liberal e anticorrupção
No campo econômico, o candidato propõe substituir a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) por negociações diretas entre empregadores e empregados, extinguir a Justiça do Trabalho e criar frentes de trabalho remuneradas para reduzir a dependência do Bolsa Família. Também defende a fusão de municípios fiscalmente inviáveis, reduzindo o número de cidades de 5.570 para cerca de 1.600.
Principais propostas registradas no TSE
- Segurança: ofensiva militar contra facções, Direito Penal do Inimigo e superpresídios.
- Previdência: nova reforma desvinculando benefícios do salário mínimo.
- Ajuste fiscal: corte de R$ 1,1 trilhão em gastos até 2031.
- Bolsa Família: substituição por frentes de trabalho comunitário.
- Educação: fim do sistema de cotas e ampliação de escolas cívico-militares.
- Defesa: saída do Tratado de Não Proliferação e desenvolvimento de bomba atômica.
Próximos passos
Com discurso centrado em segurança pública e soberania nacional, Renan Santos tenta galvanizar o eleitorado que reivindica medidas radicais contra o crime organizado e maior protagonismo do Brasil na arena internacional. As pesquisas indicam que ele ainda precisa ampliar o alcance além do nicho que originou o MBL para se manter competitivo na reta final da campanha.
