Política domina Festival de Veneza e Leão de Ouro vai para “Woman Unknown”

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    O 83º Festival de Veneza encerrou-se transformando o tapete vermelho em arena de debates: a disputa não foi apenas estética, mas também abertamente política. O Leão de Ouro saiu para “Woman Unknown”, de May el-Thouky — único longa dirigido a solo por uma mulher entre os 21 concorrentes —, numa escolha que soou como recado direto a quem ainda justifica a baixa presença feminina nos grandes certames.

    A decisão do júri liderado por Maggie Gyllenhaal empurrou para o centro da conversa temas como ocupação nazista, massacre de civis em Gaza, abusos do capitalismo tardio e ingerência norte-americana na América Latina. Ao contrário do que pregou o diretor do evento, Alberto Barbera, quando afirmou que Veneza seleciona filmes “apenas pelo valor artístico”, a safra laureada mostrou que arte e posicionamento caminharam de mãos dadas nesta edição.

    Leão de Ouro consagra a única mulher na competição

    “Woman Unknown” não venceu apenas pelo simbolismo. O drama dinamarquês parte da rotina confortável de uma ex-empregada de origem operária que se casou com o antigo patrão, mas vê a estabilidade ruir quando um jovem ameaça revelar um romance seu com um soldado nazista durante a ocupação. Bastaria a fofoca para pulverizar o casamento; pior, ela corre o risco de sofrer o castigo público de ter o cabelo raspado na praça, punição historicamente reservada a mulheres acusadas de colaborar com o inimigo.

    Segredo de guerra, culpas seletivas

    El-Thouky conduz a história com precisão clássica, apontando para a hipocrisia que absolve homens de pactos nebulosos enquanto condena mulheres a humilhações físicas. A atuação contida de Mathilde Arcel, recompensada com a Coppa Volpi de Melhor Atriz, traduz o pavor de quem vive à beira da exposição. O contraste com o marido — um empresário que lucrara com negócios nazistas e jamais teme retaliação — escancara o recorte de gênero nas narrativas de culpa.

    Documentário israelense sobre Gaza leva Prêmio Especial do Júri

    A honraria de terceiro maior peso ficou com “Naza”, de Yuval Abraham e Rachel Szor. O filme desmonta o discurso oficial de Israel ao exibir depoimentos de militares que participaram de operações em Gaza e admitem ter promovido bombardeios destinados a eliminar um único membro do Hamas, mesmo quando isso implicava a morte de centenas de civis. Rostos borrados e vozes filtradas não diminuem o impacto das confissões, que atribuem responsabilidade direta ao governo de Binyamin Netanyahu.

    Na coletiva pós-exibição, os diretores falaram em “urgência de documentar crimes sistemáticos enquanto ainda ocorrem”, atitude que contribuiu para selar o caráter de denúncia social que marcou esta edição.

    Prêmio de Direção coroa projeto russo de duas décadas

    O russo Ilya Khrzhanovsky, hoje sem cidadania do país natal por divergências com Vladimir Putin, arrebatou o troféu de Melhor Direção por “Dau”. A obra arremata uma empreitada iniciada há 20 anos: um estúdio-cidade onde voluntários viveram por mais de um ano sob regras da era stalinista. Embora o enredo gire em torno do físico Lev Landau — cérebro do programa nuclear soviético —, o que salta à vista é a engrenagem que usava o bem-estar individual como moeda de troca do Estado. Khrzhanovsky aproveitou o palco veneziano para lembrar que, a seu ver, “a lógica opressiva persiste na Rússia atual”.

    Grande Prêmio do Júri critica o capitalismo sul-coreano

    O segundo troféu mais relevante rumou para “Possible Love”, do celebrado Lee Chang-dong. O longa acompanha uma documentarista que filma funcionários demitidos de um conglomerado coreano. Ela e o marido — ambos de classe média alta — convidam um casal recém-desempregado para um fim de semana na praia; ali, camadas de inveja, desejo e ressentimento explodem em torno de quem detém, ou perdeu, o poder de consumo. É a faceta íntima da precarização do trabalho na Coreia do Sul, assinada por um diretor acostumado a costurar dramas pessoais e crítica social.

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    Imagem: Internet

    Melhor Roteiro expõe absurdo corporativo francês

    Se Lee tratou da elite cultural diante do colapso econômico, o francês Stéphane Brizé aprofundou a engrenagem empresarial em “Un Bon Petit Soldat”, vencedor de Melhor Roteiro. A personagem central, diretora de RH, malabariza ordens de um CEO frio e sua empatia pelos empregados à beira do corte. Humor e melancolia se alternam para revelar o sentimento de impotência que pauta relações de trabalho onde poucas pessoas concentram todas as decisões.

    Coppa Volpi premia John Malkovich como agente da CIA no Chile

    O prêmio de Melhor Ator ficou com John Malkovich, protagonista de “Cavalo Selvagem Nove”, novo filme do britânico Martin McDonagh. Na pele de um agente da CIA que percorre países do chamado Terceiro Mundo, Malkovich assume a tarefa de proteger interesses dos Estados Unidos no Chile semanas antes do golpe que derrubou Salvador Allende. O personagem age como maestro de destinos alheios, narrando com cinismo a facilidade com que Washington dobrava governos considerados inconvenientes.

    A distinção lança Malkovich na linha de frente da próxima temporada de prêmios de Hollywood, mas, paradoxalmente, a edição de Veneza chamou atenção justamente pela presença discreta dos grandes estúdios americanos. No Lido, as estrelas foram menos as celebridades e mais as tensões geopolíticas transportadas para a tela.

    Entre estética e engajamento, um recado ao mercado

    Embora o diretor Alberto Barbera insista em critérios puramente artísticos, o mapa de vencedores mostra que o júri de Maggie Gyllenhaal rechaçou neutralidade. Da revelação de conchavos nazistas a denúncias de bombardeios em Gaza, passando pela radiografia do trabalho precarizado e pelas maquinações da CIA, Veneza 2026 transformou medalhas douradas em megafone.

    Resta saber se outros festivais — e principalmente a indústria que financia parte desses títulos — terão fôlego para acompanhar o recado: o público parece disposto a discutir o mundo real antes mesmo dos créditos finais.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.