O aquecimento global deve cruzar a barreira de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais antes do fim desta década, alerta relatório divulgado nesta quarta-feira (2) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O documento afirma que a tarefa central da comunidade internacional deixa de ser “evitar” o marco e passa a ser “retornar” a ele, num esforço que terá de combinar cortes de emissões sem precedentes com remoção de dióxido de carbono da atmosfera.
Batizado de “Limiting Overshoot”, o estudo descreve a trajetória de “pico e declínio” que, segundo os autores, ainda pode evitar cenários de catástrofe socioambiental. Para isso, será necessário que o excesso de aquecimento seja o menor e o mais breve possível – desafio que dependerá de vontade política, cooperação multilateral e justiça climática, com maior responsabilidade para os países que mais historicamente emitiram gases estufa.
Os recados centrais do Pnuma
Assinado oito anos após o Acordo de Paris – que preconizava manter o aquecimento “bem abaixo” de 2 °C e preferencialmente em 1,5 °C – o relatório parte do reconhecimento de que as atuais políticas nacionais conduzem o planeta a 2,8 °C até 2100. Como consequência, o limite simbólico de 1,5 °C será superado já nos próximos anos, reforçando eventos extremos que hoje se multiplicam: ondas de calor recordes, secas profundas, cheias simultâneas e ondas oceânicas que destroem corais.
Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma, resume a estratégia em três palavras: “cortar, adaptar, remover”. Ela insiste que a remoção de carbono – seja por reflorestamento, restauração de zonas úmidas ou novas tecnologias de captura e armazenamento – deve complementar, e não substituir, reduções drásticas no uso de petróleo, carvão e gás.
Quanto carbono precisará sair do ar
Para cada 0,1 °C acima da meta, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) calcula a necessidade de sugar cerca de 220 bilhões de toneladas de CO₂ – quase quatro vezes o que o mundo emite por ano atualmente. O Pnuma reconhece que a remoção em larga escala ainda enfrenta desafios técnicos, custos elevados e lacunas regulatórias.
Três fases para enfrentar o “overshoot”
- Resposta imediata – Ações políticas urgentes devem cortar emissões de longa duração, como CO₂, e também de vida curta, caso do metano. Paralelamente, governos precisam acelerar medidas de adaptação que protejam populações vulneráveis e ecossistemas já pressionados.
- Limitar o pico e gerir riscos – Numa segunda etapa, a economia global terá de avançar rumo às emissões líquidas zero, ao mesmo tempo em que amplia estratégias de adaptação pensando num leque maior de ameaças. Mesmo se a temperatura voltar a cair, parte dos impactos estará em curso.
- Sustentar a queda e ir além – Depois de zerar as emissões líquidas, será preciso torná-las negativas. Só então a temperatura global poderá recuar até 1,5 °C. O relatório reforça que, mesmo nesse cenário, perdas acumuladas – como morte de recifes tropicais ou degelo permanente em montanhas polares – não serão revertidas.
Desigualdade climática no centro do debate
O documento insiste que equidade e justiça social balizem as iniciativas de mitigação. “Os países que mais contribuíram para a crise devem assumir a parte mais pesada do esforço”, afirma Andersen. Trata-se tanto de ampliar metas internas quanto de financiar adaptação e tecnologias limpas nos países em desenvolvimento.
Para Debra Roberts, coautora do estudo, a urgência também se mede pela escalada de desastres naturais que já afetam regiões pobres. Ela cita o deslizamento recente na fronteira entre Nepal e China, ainda sob investigação, mas que reflete o “novo normal” de eventos extremos alimentados pela mudança climática.
Críticas: alerta suficiente ou convite à apatia?
Nem todos ficaram satisfeitos com o tom do relatório. Bill Hare, diretor da organização Climate Analytics e ex-membro do IPCC, avalia que, ao focar no inevitável “overshoot”, o Pnuma dedica espaço insuficiente à eliminação total dos combustíveis fósseis. Ele lembra que mais de 50 países iniciaram na COP30, em Belém, um processo formal de transição energética programada, ausente do texto.

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A ONG argumenta ainda que vários setores – como geração de eletricidade, transporte leve e construção civil – já dispõem de rotas tecnológicas para zerar emissões líquidas até 2050. Se governos elevarem a ambição, diz Hare, ainda seria possível terminar o século novamente abaixo de 1,5 °C sem depender tanto de remoções maciças de carbono.
Compromissos que ficaram fora do radar
Outro ponto de contestação é o silêncio do documento sobre promessas firmadas em fóruns internacionais. O Pnuma não cobra explicitamente o cumprimento das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) do Acordo de Paris, nem menciona metas de eliminação gradual de fósseis debatidas no G20 e em conferências climáticas recentes.
Janela de oportunidade ainda existe
A despeito das críticas, o relatório destaca que “as opções não são muitas, mas ainda existem”. A chave é acelerar a combinação de políticas já conhecidas: expansão em massa das energias renováveis, eletrificação de transportes, eficiência industrial e agrícola, fim do desmatamento e recuperação de florestas.
A diferença agora é o relógio. Cada ano de atraso aumenta o tamanho do “pico” e, com ele, a quantidade de carbono que terá de ser removida. Além disso, prolonga a exposição de comunidades inteiras a riscos gravitacionais como fome, migração forçada e colapso de ecossistemas costeiros.
O que muda na prática
- Governos – Precisam atualizar metas climáticas antes de 2025, alinhando-as a um corte global de emissões de 43% até 2030 em relação a 2019.
- Empresas – Devem abandonar planos baseados em compensação superficial e adotar rotas de descarbonização direta de suas cadeias de valor.
- Cidadãos – Embora decisões individuais tenham impacto menor que políticas estruturais, pressão social sobre legisladores e consumo responsável podem acelerar a transição.
Conclusão do Pnuma: 1,5 °C permanece a âncora
Ao admitir que o mundo falhou em evitar a ultrapassagem inicial, a ONU não renuncia ao limite original. “É nele que a ciência e a política convergiram”, frisa Andersen. Acima desse patamar, projeta-se “um futuro insustentável para muitos, sobretudo os mais pobres e vulneráveis”.
Com o “overshoot” batendo à porta, a diferença entre inação e ação rápida poderá definir não apenas a duração do aquecimento adicional, mas também o número de vidas e ecossistemas que ainda podem ser salvos.
