O planeta atingiu, em 10 de setembro, a marca simbólica de 100 dias consecutivos com temperaturas oceânicas acima de todos os registros anteriores. Desde 2 de junho, a média diária da superfície dos mares não voltou a níveis “normais”, mostram medições da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa), dos Estados Unidos. A persistência desse calor coloca em alerta cientistas que veem no fenômeno um sinal claro do desequilíbrio energético da Terra e de seus efeitos em cascata sobre clima, biodiversidade marinha e populações humanas.
Impulsionado pela combinação entre um El Niño forte, iniciado em junho, e o aquecimento global causado pelas emissões de gases de efeito estufa, o oceano registrou 21,15 °C fora das regiões polares em 10 de setembro — quase meio grau acima da leitura equivalente durante o potente El Niño de 2015. O valor consolida 2026 como o quarto ano seguido em que as águas quebram, por larga margem, seus próprios recordes.
Calor sem trégua desde o início de junho
Em agosto, mês em que o planeta empatou com junho de 2023 como o mais quente já verificado, também foi medido o maior pico diário de temperatura dos mares. Segundo a Noaa, a anomalia atual — 0,94 °C acima da média de 1982 a 2010 para esta época — equivale a duas vezes e meia o aquecimento observado nos primeiros 90 anos do século passado.
Para Marina Correa, especialista em conservação oceânica do WWF-Brasil, manter a superfície do mar aquecida por tanto tempo “mostra que estamos lidando com um sistema energizado além do ponto de equilíbrio”. Pouco mais de 90% do excesso de calor gerado pelo efeito estufa é absorvido pelas águas, que também retêm cerca de 30% do dióxido de carbono emitido pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento.
Efeito El Niño potencializa aquecimento
- Fenômeno caracteriza-se pelo aquecimento anômalo do Pacífico tropical.
- Ele intensifica a transferência de calor para a atmosfera, alterando padrões de chuva e tempestades.
- A fase atual do El Niño deve persistir até o primeiro trimestre de 2027, mantendo a temperatura oceânica elevada.
Impacto direto sobre a vida marinha
“Na terra firme, ligamos o ar-condicionado; no mar, a fauna não tem refúgio”, observa a pesquisadora Claire Bergin, da Universidade de Maynooth. Estudos recentes mostram que a janela de recuperação entre eventos extremos encolheu: recifes de coral, que até o começo dos anos 2000 sofriam grandes perturbações a cada dez anos, agora encaram blecautes térmicos a cada cinco ou seis anos.
No Brasil, dados compilados pela Rede de Monitoramento de Corais indicam aumento de 0,76 °C na temperatura média da superfície entre 1985 e 2025. O resultado é dramático: queda de 34% na cobertura de corais duros desde 2016. Esses organismos sustentam um quarto de toda a vida marinha, o que significa que seu declínio atinge pescarias, turismo e a segurança alimentar de milhões de pessoas.
Estresse térmico prolongado
- Corais expulsam suas algas simbióticas quando a água fica muito quente, fenômeno conhecido como branqueamento.
- Sem as algas, perdem até 90% da energia que utilizam para crescer e reproduzir.
- Se a temperatura não cair rapidamente, a estrutura morre, abrindo espaço para a erosão do recife.
Consequências para o clima e as cidades costeiras
O oceano aquecido injeta mais vapor d’água na atmosfera, combustível para tempestades intensas e chuvas torrenciais. Ao mesmo tempo, a expansão térmica da água eleva o nível médio do mar, agravando erosão, ressacas e inundações que ameaçam infraestrutura crítica, como portos, estradas e sistemas de saneamento.

Imagem: Internet
“Quando combinamos mar mais alto com ondas de tempestades mais fortes, o risco explode para comunidades que já vivem à beira-mar e dependem dos serviços ecossistêmicos costeiros”, alerta Correa. Cidades brasileiras de baixa altitude, do Amapá a Santa Catarina, estão entre as mais vulneráveis.
Do impacto ambiental à segurança pública
- Erosão de praias compromete a barreira natural contra tempestades.
- Infiltração de água salgada contamina aquíferos usados para abastecimento.
- O desgaste de vias e edificações exige gastos crescentes em manutenção.
Mitigação passa pelo corte de emissões
A mensagem dos especialistas é inequívoca: sem redução rápida dos gases de efeito estufa, a tendência de aquecimento será cada vez mais longa e intensa. Tom Pickerell, diretor global do Programa para os Oceanos do World Resources Institute, lembra que o próprio mar oferece caminhos para a solução.
“Se descarbonizarmos o transporte marítimo, expandirmos eólicas e outras renováveis offshore e restaurarmos ecossistemas costeiros, podemos alcançar até 35% das reduções necessárias para manter a meta de 1,5 °C”, calcula. Pickerell espera que a COP31, em novembro na Turquia, coloque o tema no centro das negociações, superando o estágio em que as discussões oceânicas ocupam apenas “as margens” das conferências climáticas.
Oceano como parte da resposta
- Transporte marítimo limpo – Combustíveis verdes e eficiência energética em navios.
- Energia offshore – Parques eólicos, marés e correntes podem substituir fontes fósseis.
- Proteção de ecossistemas – Mangues, recifes e pradarias marinhas sequestram carbono e reduzem a força das ondas.
Perspectivas para os próximos meses
Com o El Niño ainda ganhando força, a tendência é que o calor se mantenha ou até se aprofunde até o fim do verão de 2027 no hemisfério sul, prolongando a pressão sobre corais e multiplicando eventos climáticos extremos. Cientistas monitoram se a curva de anomalia térmica, já elevada, voltará a subir ou atingirá um platô temporário.
Nesse cenário, políticas públicas de adaptação — como zoneamento costeiro, reflorestamento de manguezais e sistemas precoces de alerta — tornam-se tão urgentes quanto a redução global de emissões. O relógio, lembram os pesquisadores, não corre apenas para o oceano: corre para todos nós que dele dependemos.
