No fim da manhã desta terça-feira (28), o carrinho da montanha-russa Dreams completou o percurso de 1,2 quilômetro com 16 convidados a bordo e marcou o primeiro teste com passageiros reais no Cacau Park, em Itu (SP). O giro de 90 segundos simboliza a virada de chave para o empreendimento, que vem se apresentando como o maior parque temático totalmente planejado do país e que tem inauguração prometida para o último trimestre de 2027.
O sucesso da volta foi comemorado por engenheiros, operários e pelo fundador da rede, Alê Costa, que definiu o dia como “o momento em que o sonho deixa o papel”. A atração, desenhada para ser a mais longa e a mais rápida montanha-russa de lançamento da América Latina, encerra agora a fase de certificações de segurança e, segundo a direção, deve estar liberada ao público logo que os portões abrirem.
Uma obra de 17 meses e um extenso roteiro de testes
Batizada de Dreams, a estrutura começou a ser montada em março de 2025. Foram 17 meses de engenharia, alinhamento de trilhos, instalação de motores de propulsão magnética e implantação de sistemas de frenagem redundantes. Em junho de 2026, a equipe iniciou a chamada etapa zero, quando apenas bonecos de água — cada um pesando cerca de 90 kg para simular adultos — ocupavam os assentos.
Nessa primeira bateria, os sensores registraram vibrações, temperatura dos rolamentos, pressão nos freios e deformação em curvas críticas. Todo o protocolo foi acompanhado por especialistas holandeses e alemães, além de inspetores brasileiros que assinam a ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) exigida pelos bombeiros. “Aprovamos cada parafuso antes de colocar gente no trilho”, resume o gerente de manutenção, Carlos Klein.
Potência e suavidade: combinação rara
A Dreams utiliza um sistema de lançamento LSM (propulsão eletromagnética linear) capaz de levar o trem de 0 a 110 km/h em apenas 3,6 segundos. Mesmo assim, o percurso foi desenhado para reduzir vibrações, o que garante, segundo os engenheiros, um passeio sem solavancos. “O Brasil já teve montanhas-russas rápidas, mas nunca com essa preocupação de conforto. Queremos que a pessoa termine a viagem com vontade de repetir”, explica Alê Costa.
Segurança aprovada antes da emoção
Para testar o percurso com gente de carne e osso, a empresa adotou um protocolo dividido em três passos. No primeiro, convidou pilotos de teste certificados, funcionários veteranos que já trabalharam em grandes parques americanos. No segundo — o realizado hoje — foram escalados engenheiros, operários e influenciadores ligados à cultura geek. O terceiro, previsto para outubro, receberá vistoriadores internacionais ligados a entidades como a IAAPA (Associação Global da Indústria de Parques de Diversões).
Durante a volta desta terça, sensores espalhados pelo carrinho transmitiram mais de 200 parâmetros em tempo real para uma central. A telemetria foi cruzada com dados obtidos em laboratório e, até o fechamento deste texto, não havia registro de anomalias. “A parte mais importante é provar que podemos oferecer adrenalina com risco mínimo”, afirma a coordenadora de segurança, Renata Braga.
Passageiros relatam experiência “diferente de tudo”
- Christian Vieira, 31 anos, engenheiro: “A arrancada surpreende, mas o que mais impressiona é a sensação de flutuar nas inversões”.
- Lívia Tanaka, 27, influenciadora: “O trajeto é muito fluido; não senti aquelas batidas bruscas comuns em montanhas-russas antigas”.
- Marcos Neves, técnico de manutenção: “Estive aqui desde o primeiro parafuso; ver gente gritando de alegria no meu trem foi indescritível”.
Metade do parque já está erguida
Além da Dreams, 14 das 28 atrações previstas estão instaladas. Segundo o cronograma, as demais chegam em lotes mensais a partir de novembro. A fase de tematização — acabamento cenográfico, paisagismo e sistemas de som — é considerada a mais trabalhosa. “Cenografia e áudio 360º precisam estar impecáveis para que o visitante mergulhe nas histórias”, explica Costa.
Primeira área temática pronta: Enigmaya — A Sétima Porta
No último dia 22, o Cacau Park anunciou a conclusão do primeiro território narrativo do complexo. O espaço, batizado de Enigmaya — A Sétima Porta, mistura ruínas inspiradas em civilizações pré-colombianas com cheiro de cacau e projeções mapeadas para criar a ilusão de que os muros se movem. A fila da atração conta a saga de agricultores maias que teriam descoberto o “fruto dos deuses” em cerimônias sagradas.
A ideia, segundo a roteirista chefe, Mariana Gaspar, é usar mitologia para explicar como o cacau se transformou no chocolate que move o negócio do próprio fundador. Vale lembrar que o parque pertence ao mesmo grupo da rede de chocolates brasileira que carrega o nome de Costa.

Imagem: Internet
Abertura marcada: fim de 2027
Questionado sobre atrasos, o CEO reafirmou à TV TEM que o compromisso com o público e investidores permanece. “Estamos dentro do calendário. Se a climatologia ajudar e não houver gargalos na importação de peças, abrimos as portas entre novembro e dezembro de 2027”, garantiu.
O complexo ocupa uma área de 700 mil metros quadrados às margens da Rodovia Castelo Branco, próximo ao entroncamento com a SP-75. A expectativa é receber oito milhões de visitantes por ano após o terceiro ano de operação, além de gerar cerca de 4,5 mil empregos diretos e indiretos.
Impacto regional e aposta no turismo de permanência
Autoridades municipais e estaduais veem no parque a chance de ampliar o fluxo turístico de todo o eixo Sorocaba-Jundiaí. A prefeitura de Itu discute, por exemplo, a construção de um novo acesso viário para evitar gargalos nos fins de semana. Já a rede hoteleira local planeja ao menos mil novos leitos até 2028.
Para o professor de economia do turismo da USP, Henrique Rezende, a chegada de um equipamento desse porte pode estimular a permanência média de visitantes na região, que hoje gira em torno de 1,2 dia. “Quando há um parque com essa capacidade de encantamento, o turista tende a dormir na cidade, consumir gastronomia e visitar outros pontos, como a Rota dos Vinhos em São Roque”, analisa.
Próximos passos até a inauguração
- Concluir os testes de certificação internacional da Dreams e de mais duas grandes atrações até janeiro de 2027;
- Finalizar a tematização de outras quatro áreas — incluindo um vilarejo alpino e um porto caribenho — até junho de 2027;
- Aprimorar logística interna com a instalação de um monotrilho que liga estacionamentos, hotéis e o coração do parque;
- Definir política de preços, venda antecipada de passaportes anuais e pacotes combinados com resorts parceiros;
- Campanha de marketing global a partir de setembro de 2027, com foco em América do Sul e sul dos Estados Unidos.
Enquanto a operação não começa, o Cacau Park manterá visitas monitoradas para escolas de engenharia e turismo, além de ações de relacionamento com parceiros corporativos. A agenda de eventos foi capitaneada pelo lançamento da Dreams, mas outras prévias devem ocorrer, sempre com a chancela das equipes técnicas que acompanharam o teste histórico desta terça-feira.
Como chegar e o que já dá para ver
Mesmo fechado ao público geral, o canteiro de obras virou atração. A partir de setembro, moradores da região poderão agendar um tour panorâmico gratuito para observar a skyline do parque e conhecer o backstage da Dreams. As inscrições estarão disponíveis no site oficial e na secretaria de turismo de Itu.
Para os curiosos que não querem esperar, há pontos de observação na estrada municipal do Varvito, onde é possível ver a montanha-russa rasgando o céu da cidade. O local ganhou até vans de operadores locais que oferecem pacotes fotográficos. Uma forma de, pelo menos, sentir um pouco da vibração que promete transformar Itu em headline do turismo nacional nos próximos anos.
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