Quarenta e oito horas depois do naufrágio que mobilizou equipes de resgate na Praia de Itamambuca, em Ubatuba, a menina de seis anos retirada do mar em estado grave continua internada no Hospital Regional do Litoral Norte, em Caraguatatuba. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, o quadro da criança é estável, mas ela segue sem previsão de alta e recebe acompanhamento de uma equipe multiprofissional.
O acidente ocorreu na tarde de quarta-feira (29) quando ventos fortes, previstos pelos serviços de meteorologia, atingiram o Litoral Norte paulista e viraram a lancha onde estavam 12 pessoas. O caso somou-se a uma série de transtornos provocados pelo mesmo vendaval, que derrubou árvores, destelhou imóveis e chegou a interromper serviços na região.
Resgate antes da chegada dos bombeiros
Acionados por volta das 16h30, agentes do Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar) receberam o alerta de que havia vários ocupantes de uma embarcação à deriva próximo à Praia de Itamambuca. Quando as equipes chegaram, o primeiro socorro já havia sido iniciado por dois barqueiros que navegavam pela área e conseguiram retirar todos do mar.
Sete pessoas — quatro crianças e três adultos — precisaram de atendimento médico imediato. A situação mais delicada era justamente a da menina de seis anos, levada em uma Unidade de Suporte Avançado (USA) ao Hospital Regional do Litoral Norte, referência em traumas na região. Os demais feridos foram encaminhados ao pronto-socorro da Santa Casa de Ubatuba, onde passaram por avaliação.
Condição de saúde
A primeira atualização da Secretaria de Estado da Saúde, divulgada logo nas primeiras horas de quinta-feira (30), classificava o estado da criança como grave. Na manhã desta sexta (31), novo boletim informou estabilidade, sem, no entanto, estimar data de liberação. Segundo o hospital, a paciente segue em observação contínua, monitorada por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos.
Vendaval causou série de ocorrências
O naufrágio da lancha em Ubatuba foi um dos episódios mais dramáticos do temporal que atingiu todo o Litoral Norte. Rajadas de vento formadas pela brusca mudança de tempo chegaram com intensidade no início da tarde, espalhando estragos por municípios vizinhos. Houve registro de quedas de árvores, destelhamentos de residências e perda parcial do abastecimento de energia em alguns bairros.
Em São Sebastião, cidade a cerca de 50 quilômetros de Ubatuba, um homem morreu depois que a embarcação de pesca onde trabalhava também afundou durante o vendaval. Em Ilhabela, navegantes amarraram lanchas e veleiros às pressas, mas vários barcos foram arrastados até a costa. O serviço de balsa que liga o arquipélago ao continente ficou temporariamente paralisado.
Previsão já alertava para ventos fortes
Órgãos meteorológicos estaduais e federais haviam emitido avisos sobre a possibilidade de rajadas na faixa litorânea, principalmente entre a tarde de quarta-feira e a madrugada de quinta. Mesmo assim, a combinação de mar aberto, embarcação de pequeno porte e mudança súbita de direção do vento surpreendeu muitos navegantes.
Investigação das causas
As circunstâncias exatas do acidente ainda serão apuradas. A Marinha do Brasil deve instaurar inquérito para verificar se havia lotação adequada, coletes salva-vidas suficientes e condições técnicas de navegabilidade. Relatos preliminares indicam que a lancha foi atingida lateralmente por uma rajada mais forte, perdeu estabilidade e virou em poucos segundos.
Especialistas consultados pela reportagem lembram que, em situação de vento acima de 50 km/h, embarcações de lazer com calado raso ficam especialmente vulneráveis. A prática recomendada é buscar abrigo em praias protegidas ou retornar à marina ao primeiro sinal de mau tempo — procedimento que, desta vez, não foi possível realizar a tempo.
Atuação dos barqueiros foi decisiva
Sem esperar o socorro oficial, dois pescadores que cruzavam a região viram a lancha submergir e manobraram rapidamente para recolher os náufragos. Graças à ação deles, todas as 12 pessoas foram içadas ainda conscientes. De acordo com o GBMar, a colaboração de embarcações civis costuma ser determinante nos minutos iniciais de ocorrências no mar, quando cada segundo conta para evitar afogamentos e hipotermia.
Reconhecimento dos bombeiros
O tenente responsável pela operação afirmou que o trabalho dos barqueiros “foi crucial para evitar uma tragédia maior”. Ele destacou, no entanto, a importância de acionar o 193 assim que avistar situação de risco, a fim de agilizar o deslocamento das equipes qualificadas em salvamento marítimo.

Imagem: Internet
Reflexos para a temporada náutica
Embora seja inverno, o Litoral Norte recebe fluxo constante de embarcações turísticas, sobretudo em passeios de observação de praias isoladas e ilhas. O episódio em Itamambuca reacende o debate sobre protocolos de segurança, capacidade de resposta das marinas e a necessidade de checagem frequente das previsões antes de qualquer saída ao mar.
Empresários do setor já discutem medidas adicionais, como aumentar o número de rádios VHF em lanchas de aluguel, intensificar treinamentos de tripulação e reforçar a obrigatoriedade do uso de coletes por todos os passageiros, inclusive crianças — equipamento que, segundo testemunhas, estava presente na embarcação que naufragou, mas nem todos utilizavam corretamente.
Hospitais em alerta
O Hospital Regional do Litoral Norte mantém esquema de prontidão durante todo o inverno para atender ocorrências relacionadas a esportes náuticos e mudanças repentinas no clima. A unidade, inaugurada em 2020, possui helicóptero aeromédico à disposição do GBMar e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), além de leitos de UTI pediátrica, onde a menina de seis anos ficou nas primeiras horas após o resgate.
Próximos passos
Enquanto familiares aguardam a recuperação da criança, a Polícia Civil ouve testemunhas e recolhe documentos de navegação para anexar ao inquérito. A Marinha, por sua vez, pode aplicar sanções administrativas se constatar irregularidades. Dependendo do resultado, o Ministério Público poderá denunciar os responsáveis por eventual negligência.
A Defesa Civil do Estado reforçou que novos alertas de vendaval podem ser emitidos a qualquer momento nesta época do ano e recomenda a pescadores e empresas de turismo que adotem planos de contingência. A orientação vale também para esportistas de vela, caiaque e stand-up paddle, cujas embarcações são ainda mais sensíveis a mudanças bruscas de tempo.
Solidariedade regional
A notícia do naufrágio mobilizou moradores de Ubatuba, que se uniram em campanhas de doação de sangue e apoio psicológico aos envolvidos. Embora o banco de sangue regional esteja abastecido, o hospital informou que estoques extras sempre são bem-vindos em situações emergenciais.
Por ora, médicos se concentram na evolução clínica da paciente, considerada favorável até o momento. Caso não haja complicações, a equipe planeja reduzir gradualmente a medicação sedativa e iniciar fisioterapia respiratória — passos indispensáveis para que a vítima volte às atividades normais. Ainda assim, a liberação dependerá de exames de imagem e avaliações neurológicas.
Nenhum outro ocupante da lancha permanece hospitalizado. Todos receberam alta entre a noite de quarta e a tarde de quinta-feira, segundo boletim da Santa Casa de Ubatuba. A rápida recuperação dos demais passageiros foi atribuída à flotação positiva dos coletes e à temperatura relativamente amena da água, fato que diminuiu o risco de hipotermia severa.
{internal_links}
