Enquanto circula pelos palcos com o espetáculo “O Filho”, que retrata a depressão de um garoto de 16 anos, a atriz Maria Flor transformou as entrevistas de divulgação em tribuna para um tema que considera urgente: o impacto das redes sociais sobre a saúde mental dos adolescentes. O posicionamento chega em meio ao Setembro Amarelo, campanha dedicada à prevenção do suicídio, e ganhou repercussão justamente porque mira o cotidiano de curtidas, filtros e comparações que domina a geração conectada.
Segundo a artista, não basta sugerir que os jovens passem menos tempo no celular; é preciso verificar como cada feed molda autoestima, relações familiares e capacidade de estar presente no mundo offline. O alerta encontra eco em especialistas consultados pela reportagem, que enxergam nas plataformas digitais tanto uma ferramenta de sociabilidade quanto um campo fértil para ansiedade, isolamento e adoecimento emocional.
O gatilho por trás do palco
Peça traz a ficção bem perto da realidade
Em “O Filho”, o protagonista enfrenta um estado depressivo agravado por pressões escolares e expectativas externas — enredo que, para Maria Flor, explicita o tipo de cobrança silenciosa reforçada pelo universo online. A atriz relata ter ouvido de mães e educadores, após as sessões, relatos de adolescentes que se sentem “fora do padrão” ao navegar por fotos de corpos perfeitos, viagens de luxo ou rotinas de estudo inatingíveis.
Setembro Amarelo amplia a discussão
A coincidência entre temporada da peça e o mês de conscientização contra o suicídio ajudou a ampliar o debate. Organizações de saúde mental destacam que o suicídio é hoje a quarta principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo. Para a classe artística envolvida no espetáculo, falar publicamente do assunto quebra tabus e convida famílias e escolas a observarem sinais antes que o sofrimento se agrave.
Pressão invisível nas telas
Comparação constante alimenta sentimento de inadequação
Fotografias editadas, rotinas de estudos supostamente impecáveis e declarações de amor cinematográficas aparecem em sequência no celular. A psicóloga Jhoanne Hansen, que acompanha criadores de conteúdo, explica que o perigo não reside apenas no tempo conectado: “Dois adolescentes podem passar a mesma hora no Instagram; um sai inspirado, o outro, arrasado. O que define o impacto é o estado interno durante essa navegação”.
A especialista aponta que muitos usuários esquecem que o feed é um recorte – “o palco” – enquanto a própria vida, cheia de bastidores, raramente se assemelha a esse mosaico polido. O resultado pode ser baixa autoestima, vergonha do próprio corpo e dificuldade de comemorar conquistas simples.
Estímulos que não dão trégua
Nesse cenário, o dia fica superlotado. Notificações pingam durante aulas, refeições e até momentos de descanso. Para a arteterapeuta Juliana Nasasi, a ausência de intervalos vazios impede o jovem de ouvir a si mesmo. “Silêncio e tédio são essenciais para processar emoções, criar memórias e reconhecer limites”, observa. No lugar do ócio criativo, entram vídeos curtos que sequestram a atenção em poucos segundos e mantêm o cérebro em estado permanente de busca por novidade.
Não é sobre quantidade, e sim qualidade
Horas de tela são apenas parte da equação
Muitas famílias adotam regra rígida de minutos no celular. Especialistas defendem que esse controle seja combinado a uma análise qualitativa: que tipo de conteúdo é consumido? Existe intervalos programados sem eletrônicos? O adolescente consegue se desligar ao colocar o aparelho de lado? Se a resposta for “não”, mesmo poucos minutos podem ser danosos.
- Estabelecer rotinas sem tela — refeições, estudos, atividades físicas;
- Estimular hobbies offline, como música ou esportes;
- Manter diálogo aberto sobre o que causa desconforto nas redes;
- Ensinar pensamento crítico para distinguir realidade de curadoria.
Essas medidas, defendem os profissionais, previnem a instalação de um ciclo de comparação, cobrança e frustração que, se não observado, pode resultar em quadros depressivos.

Imagem: Internet
Sinais de que algo vai mal
Mudanças sutis merecem atenção imediata
Isolamento social repentino, variações intensas de humor, alterações no apetite ou no sono e queda de desempenho escolar costumam ser os primeiros alertas. Para a psiquiatra e pesquisadora Camilla Nicolucci, esperar a crise se instalar é um erro comum. “Quanto mais cedo identificamos o sofrimento, mais eficaz pode ser a intervenção”, afirma.
Ela recomenda a busca por ajuda profissional sempre que as mudanças durarem mais de duas semanas ou comprometerem significativamente a rotina do jovem. “Não é frescura nem fase; é um pedido de socorro que muitas vezes o adolescente não sabe vocalizar”, completa.
O papel da família e da escola
Escuta ativa é o primeiro passo
Pais, responsáveis e educadores precisam oferecer espaço de conversa livre de julgamentos. Perguntas simples — “Como você se sentiu hoje nas redes?”, “O que viu que te deixou feliz ou triste?” — podem revelar muito. Quando o adulto mostra interesse genuíno, abre caminho para que o jovem compartilhe angústias antes escondidas.
Limites negociados aumentam a autonomia
Especialistas sugerem acordos flexíveis, revistos periodicamente conforme a maturidade. O ideal é que a própria pessoa participe da criação das regras, decidindo, por exemplo, horários de descanso digital ou metas de conteúdos edificantes a seguir. A corresponsabilidade ajuda a desenvolver senso crítico e diminui a chance de rebeldia.
Teatro como instrumento de reflexão
Arte que provoca diálogo
Ao levar a história de um adolescente deprimido ao palco, “O Filho” cumpre função que Maria Flor define como “catalisadora”. A atriz acredita que a catarse coletiva de assistir à dor de um personagem permite ao público identificar emoções semelhantes em casa. Após as sessões, rodas de conversa têm reunido psicólogos, espectadores e elenco para discutir caminhos de prevenção – uma agenda que, segundo ela, “não pode acabar quando a cortina fecha”.
Onde buscar ajuda
Casos de urgência exigem contato imediato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone 188, serviço gratuito 24 horas. Além disso, escolas e faculdades devem ter equipes de orientação ou parcerias com psicólogos. Planos de saúde e redes públicas dispõem de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Informações adicionais podem ser encontradas em {internal_links}, que reúne reportagens sobre bem-estar emocional e serviços de apoio.
Para Maria Flor, reconhecer o peso das redes sociais não significa demonizar a tecnologia, mas entender que ela vem sem manual de instruções emocional. “A conversa não é sobre desligar wi-fi; é sobre ligar o radar de empatia”, resumiu a atriz, reafirmando a urgência de cuidar da saúde mental antes que os filtros virem realidade incontestável nos olhos de quem ainda está formando a própria identidade.
