Sem rodeios, o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste sábado (22), no estádio Moça Bonita, em Bangu, que pretende criar um Ministério da Segurança Pública dedicado exclusivamente ao combate ao crime organizado. Diante de milhares de apoiadores e aliados políticos fluminenses, Lula prometeu “prender, não matar” e recuperar áreas hoje controladas por facções, entregando-as de volta “ao povo brasileiro”.
O chefe do Executivo disse que o tema já está protocolado no Congresso por meio de uma proposta de emenda à Constituição e, se aprovado, permitirá o desmembramento da atual pasta da Justiça. Ele também anunciou o reforço de efetivos e recursos para Polícia Federal (PF) e Polícia Rodoviária Federal (PRF), destacando que a estratégia federal dispensará operações de grande letalidade nas comunidades.
Segurança Pública vira trunfo de campanha
O compromisso de criar uma pasta própria para segurança representa a aposta central da campanha petista em um estado marcado pela violência. Lula argumentou que ações sustentadas de inteligência, policiamento ostensivo e presença do Estado em serviços básicos serão mais eficazes do que incursões pontuais. “Não vamos fazer carnaval, pirotecnia, matar 100 ou 200. Vamos prender”, reforçou, sob aplausos.
Custo do encarceramento em debate
Para ilustrar a urgência de novo modelo, Lula citou os gastos com presídios de segurança máxima. Segundo ele, um detento em regime diferenciado custa cerca de R$ 40 mil por ano, valor superior ao desembolsado para manter um aluno em universidade pública. “O Fernandinho Beira-Mar custa o dobro de formar uma médica ou um engenheiro”, comparou, defendendo que parte desse recurso seja direcionada à prevenção.
Educação em tempo integral promete expansão nacional
Além do endurecimento contra o crime, Lula reforçou que educação será “a espinha dorsal” de sua próxima gestão, prometendo levar o ensino em tempo integral a todas as escolas públicas brasileiras. Ele também falou em ampliar a rede de institutos federais de educação tecnológica e manter programas de acesso ao ensino superior, como Prouni e Fies, “para que filho de trabalhador continue ocupando vaga na universidade”.
Integração com políticas sociais
Na visão do presidente, a criação do Ministério da Segurança Pública deve caminhar lado a lado com investimentos sociais. “Segurança não é só polícia; é emprego, é luz acesa na rua, é escola funcionando o dia inteiro”, pontuou. Ele argumentou que, sem essas iniciativas, territórios retomados das facções “voltam a ser ocupados pela criminalidade num piscar de olhos”.
Indústria de defesa e minerais críticos entram na pauta
Lula também defendeu aportes na indústria de defesa para garantir soberania em meio ao cenário internacional instável, mencionando Rússia e Estados Unidos como exemplos de potências bélicas. Ao mesmo tempo, prometeu desenvolver a cadeia de “minerais críticos” e terras raras, recursos estratégicos para alta tecnologia que, segundo ele, o Brasil possui em abundância. “Não queremos vender o minério bruto e comprar o produto caro; queremos pesquisar, industrializar e gerar emprego aqui”, disse.
Inteligência artificial com sotaque brasileiro
Na área de inovação, o candidato declarou intenção de ampliar recursos para inteligência artificial, buscando soluções “que entendam o português e as necessidades do nosso povo”. Ele citou a tramitação de projeto de lei que incentiva a construção de data centers movidos a energia renovável, tema que, na sua avaliação, conecta segurança digital e transição energética.
Parceria política para ‘tirar o Rio do fundo do poço’
O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), que pleiteia o governo estadual, dividiu o palanque com Lula e aproveitou para criticar adversários locais. Paes acusou o atual governador Cláudio Castro (PL) de permitir a entrada do crime organizado no Palácio Guanabara e citou a prisão de quatro secretários estaduais em investigações sobre corrupção. “Não se trata de propina de empreiteira; é o crime organizado governando o estado”, disparou.
Dependência de apoio federal
Paes afirmou que o Rio não sairá da crise sem a “mão forte” da União e endossou a criação do novo ministério. Para ele, a aliança com Lula será fundamental na recuperação de índices sociais, principalmente em educação, setor no qual o estado ficou na última posição do Ideb. “Precisamos mudar esse quadro, e não vamos conseguir sozinhos”, concluiu.

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Tramitação e próximos passos
A proposta de emenda que autoriza o desmembramento do Ministério da Justiça ainda aguarda análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. Caso avance, seguirá para votação em dois turnos no plenário da Casa e, depois, no Senado. O Palácio do Planalto estima que a aprovação poderá ocorrer ainda neste semestre, permitindo a implantação da nova estrutura no ano seguinte.
Fortalecimento das forças federais
Enquanto aguarda o aval do Legislativo, o governo estuda reforçar o efetivo da PF, ampliar o uso de drones, softwares de reconhecimento facial e centrais de inteligência compartilhadas com estados. Na PRF, a prioridade é aumentar a fiscalização em rodovias estratégicas para o tráfico de armas e drogas, principalmente nas rotas que ligam a Região Sudeste à fronteira com Paraguai e Bolívia.
Reação de especialistas
Professores de direito penal e segurança pública ouvidos pela reportagem apontam que a criação de um órgão dedicado pode garantir mais foco e recursos, mas alertam para riscos de sobreposição de competências com polícias estaduais. Eles defendem que a nova pasta atue como coordenadora de políticas, evitando intervenções unilaterais em territórios sensíveis.
Olho em indicadores de violência
O Atlas da Violência mostra que, em 2025, o Brasil registrou taxa de 27,7 homicídios por 100 mil habitantes, com o Rio acima da média nacional. Analistas afirmam que, se o plano federal conseguir reduzir a letalidade policial e simultaneamente elevar o índice de prisões qualificadas, poderá servir de modelo para outras unidades da federação.
Calendário eleitoral e impacto nas urnas
Com a eleição estadual acirrada, Lula tenta transformar a segurança pública em vitrine de campanha, sobretudo em redutos populares da Zona Oeste carioca, onde milícias e facções disputam território. A promessa de resgatar essas regiões sem “licença para matar” dialoga tanto com famílias vitimadas pela violência quanto com organizações de direitos humanos, tradicionais bases do PT.
Expectativa de curto prazo
Assessores palacianos revelam que, se reeleito, Lula pretende anunciar o nome do futuro titular da Segurança Pública já na transição de governo, sinalizando prioridade absoluta. Internamente, cotam-se delegados da Polícia Federal e ex-ministros com histórico técnico. A aposta é que a definição precoce facilite negociações orçamentárias e a elaboração do plano de ação para os primeiros 100 dias.
Até lá, o presidente seguirá usando o tema para contrastar seu discurso com o de adversários que defendem operações mais agressivas. “Bandido bom é bandido preso”, repetiu Lula ao encerrar o comício, deixando claro qual será o tom das próximas semanas de campanha.
