Um sequestro encenado como operação policial, filmado por câmeras de segurança em Artur Alvim, Zona Leste de São Paulo, levou a Corregedoria da Polícia Civil a prender o investigador Milton Massaru Nakayama na sexta-feira (22). Ele é suspeito de participar do grupo que agrediu, algemou e enfiou um jovem no porta-malas de um carro preto equipado com luzes de giroflex. A Justiça também decretou a prisão do colega Rafael Juergen Schult, lotado no 78º DP (Jardins), mas o agente não foi encontrado e já é considerado foragido.
O paradeiro da vítima continua desconhecido quase uma semana após o crime. Enquanto familiares e investigadores se mobilizam para localizá-la, peritos recolhem provas que apontam o uso de distintivos falsos, armamento pesado e munição de fuzil calibre 5.56 na abordagem. O caso reforçou a tensão dentro da própria corporação, que agora corre contra o tempo para identificar todos os envolvidos e esclarecer os motivos do ataque.
Prisão e diligências da Corregedoria
Captura de Milton Massaru Nakayama
Nakayama foi localizado em endereço informado no inquérito e conduzido à sede da Corregedoria, onde teve a prisão temporária cumprida. O investigador, que não apresentou resistência, prestou depoimento por cerca de duas horas, mas optou por permanecer em silêncio em pontos cruciais. Ele ficará detido no presídio especial para policiais, em Tremembé (SP), enquanto as apurações prosseguem.
Caça ao foragido do 78º DP
Rafael Juergen Schult, apontado nas imagens como um dos agressores, teve a casa vasculhada por equipes da Corregedoria assim que o mandado foi expedido. No imóvel, localizado na Zona Norte, os agentes não encontraram o policial, mas apreenderam celulares, um cofre com dinheiro em espécie e cédulas falsas que, segundo a investigação, poderiam ser usadas na compra de drogas. O irmão do foragido, Gustavo Heinrich Schult, também aparece no radar dos investigadores, mas ainda não há ordem judicial contra ele.
Como o sequestro ocorreu
Ação registrada por câmeras
Três câmeras de monitoramento instaladas em uma travessa da Rua Inês Monteiro, em Artur Alvim, registraram cada movimento do grupo. Às 22h20, seis homens conversavam encostados em um muro quando dois deles se voltaram subitamente contra um rapaz de blusa azul. Enquanto a vítima tentava se desvencilhar, tiros ecoaram pela rua. A perícia coletou posteriormente estojos de munição 5.56, típica de fuzis.
Carro preto com sinais de viatura
Três minutos depois, um sedan preto parou junto ao meio-fio. No para-brisa e na grade dianteira, luzes piscavam como as de viaturas descaracterizadas. O motorista desceu, exibindo o que parecia ser um distintivo, e se juntou às agressões. Outro homem, trajando roupas pretas, portava um fuzil. Após algemar o jovem, o grupo o arrastou até o porta-malas do veículo e partiu em alta velocidade. Um dos criminosos deixou o local a pé, supostamente para despistar testemunhas.
Provas encontradas nas buscas
Veículo apreendido
O mesmo carro foi localizado em um galpão na Zona Leste durante diligência da Corregedoria. Segundo a placa afixada, o automóvel não consta em bancos de dados estaduais nem federais, nem mesmo como pertence a órgão público. No interior, peritos acharam vestígios de sangue compatíveis com o grupo sanguíneo da vítima, além de algemas e um dispositivo luminoso improvisado.
Dinheiro falso e munição
Na casa dos pais de Rafael Schult, apreenderam-se ainda dezenas de cédulas de real falsificadas e aproximadamente R$ 18 mil em espécie. A hipótese investigada é que o montante seria trocado por entorpecentes para abastecer pontos de venda na região central. Peritos do Instituto de Criminalística analisam a origem da munição 5.56 recolhida, na tentativa de descobrir se partiu de lotes oficiais ou do mercado clandestino.
Quem são os investigados
- Milton Massaru Nakayama – investigador, 14 anos de corporação, histórico sem punições formais. Preso temporariamente.
- Rafael Juergen Schult – agente do 78º DP, ingressou em 2019. Visto nas imagens golpeando a vítima. Foragido.
- Gustavo Heinrich Schult – irmão de Rafael, sem vínculo com a Polícia Civil. Suspeito de dar apoio logístico.
Os três podem responder por sequestro, tentativa de homicídio, uso de identidade funcional falsa, posse de arma de uso restrito, falsificação de moeda e associação criminosa. As penas combinadas ultrapassam 30 anos de reclusão.
Vítima ainda desaparecida
A Polícia Militar vasculhou hospitais públicos e particulares nas horas seguintes ao crime, mas nenhum paciente com ferimentos de bala ou registro de algemas deu entrada. Parentes do jovem, cujo nome permanece sob sigilo, afirmam não ter recebido pedido de resgate. Investigadores não descartam que o sequestro esteja ligado a disputas por pontos de tráfico na Zona Leste.
Busca por testemunhas
Moradores relataram ter ouvido pelo menos cinco disparos. Um celular recolhido no chão e entregue aos peritos pode pertencer à vítima e contém conversas que, de acordo com fontes da investigação, mencionam dívidas com traficantes. A Corregedoria solicitou quebra de sigilo telefônico e bancário de suspeitos e da vítima para mapear transferências recentes.
Posicionamentos oficiais
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que “todas as circunstâncias do caso estão sendo apuradas com prioridade” e que “nenhuma conduta à margem da lei será tolerada dentro da instituição”. Advogados que representam Nakayama e a família Schult declararam que “os fatos serão esclarecidos” e que Rafael se apresentará “no momento oportuno”, sem definir data.
Próximos passos da investigação
- Coleta de depoimentos de vizinhos, motoristas de aplicativo e comerciantes da rua onde ocorreu o crime.
- Perícia completa no veículo, nas armas e nas cédulas falsas apreendidas.
- Análise do celular encontrado e do material digital recolhido na residência dos suspeitos.
- Rastreamento de eventuais câmeras privadas no trajeto percorrido pelo carro após deixar Artur Alvim.
- Pedido de cooperação a hospitais da Grande São Paulo para alerta sobre entrada de pacientes com ferimentos compatíveis.
Enquanto isso, a Corregedoria mantém vigilância em endereços ligados a Rafael Schult e monitora suas comunicações eletrônicas. Qualquer cidadão que tenha informações sobre o paradeiro da vítima ou dos suspeitos pode contatar o Disque-Denúncia 181, sem necessidade de se identificar.
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