Um levantamento inédito da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) mostra que, entre janeiro e maio deste ano, as linhas 6031 (Cidade Administrativa / Centro), 6030 (Cidade Administrativa / Savassi via Hospitais) e 5107 (Estação Pampulha / Savassi) foram as campeãs de reclamações dos usuários, quando se excluem um serviço especial e outro já extinto. O trio, operado pelo Consórcio Pampulha, aparece de forma recorrente no topo das críticas, indicando que velhos problemas continuam sem solução.
As queixas mais frequentes relatadas aos canais oficiais da PBH envolvem atrasos, longas esperas nos pontos, veículos sem manutenção adequada e motoristas que deixam passageiros para trás. Mesmo assim, a administração municipal argumenta ter reduzido o índice geral de insatisfação de 5,4 para 5,2 registros a cada mil viagens em comparação com 2025.
Como funciona o cálculo das reclamações
Desde 2024, a prefeitura consolida todas as manifestações registradas no Portal de Serviços, no aplicativo PBH APP, no WhatsApp da gestão municipal e na Central 156. Para garantir proporcionalidade, o indicador é projetado para cada mil viagens realizadas por linha, e não pelo número absoluto de ocorrências. De janeiro a maio de 2026, o sistema de ônibus da capital transportou 107,7 milhões de passageiros, mantendo a segunda tarifa mais alta entre as capitais: R$ 6,25.
Em todo o período analisado, a média foi pouco superior a cinco reclamações por mil viagens. Contudo, algumas rotas ultrapassaram com folga esse patamar. Duas linhas distorceram o ranking: a 55 (Eventos Pampulha / Centro / Savassi), acionada somente em dias de grandes eventos, fez apenas 12 viagens e recebeu uma reclamação, o que inflou o índice para 83,3 reclamações por mil viagens; já a 1030 (Avenida) foi extinta em maio do ano passado. Depois de desconsiderá-las, a liderança negativa ficou com 6031, 6030 e 5107.
As campeãs de queixas em operação
6031 – Cidade Administrativa / Centro
Integrante do sistema BRT Move, a 6031 conecta a sede do governo estadual, na região norte, ao centro da cidade. O itinerário segue por avenidas de grande fluxo, como Dom Pedro I e Antônio Carlos, passa pela rodoviária e encerra o trajeto na área central. A sobrecarga no horário de pico e a demora acima do esperado são apontadas pelos passageiros como causas de frustração.
6030 – Cidade Administrativa / Savassi via Hospitais
Também operando no corredor Move, a 6030 leva servidores públicos e trabalhadores da região hospitalar para a Savassi, importante polo comercial da capital. O trajeto cruza a avenida Cristiano Machado e a área de hospitais, onde semáforos e embarques demorados deixam o percurso mais lento. Falhas no ar-condicionado e na conservação interna dos veículos figuram entre as principais críticas.
5107 – Estação Pampulha / Savassi
A linha regular que liga a Pampulha à Savassi percorre as avenidas Antônio Carlos, Afonso Pena e Cristóvão Colombo. Usuários relatam que motoristas frequentemente não param para embarque quando os veículos estão cheios. Como consequência, o tempo de espera chega a superar 40 minutos em horários de maior demanda, segundo relatos feitos à Central 156.
Reclamações que se repetem
Um ponto em comum entre as três rotas mais problemáticas é o perfil do passageiro: trabalhadores que dependem do coletivo para chegar a polos de emprego e de serviços públicos. Entre as principais reivindicações estão a falta de regularidade, veículos circulando sem ar-condicionado mesmo em dias quentes, portas que não abrem corretamente e bancos danificados.
Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que a lógica de remuneração das empresas, atrelada ao número de viagens e não ao nível de satisfação, acaba privilegiando a manutenção mínima da frota. “Quando o ônibus quebra no meio do caminho, o usuário dificilmente consegue registrar a ocorrência em tempo real, o que enfraquece a capacidade de cobrança do poder público”, avalia um consultor de mobilidade urbana.

Imagem: Internet
Problema antigo, soluções lentas
O histórico de insatisfação não é novidade. Em 2025, essas mesmas três linhas já figuravam entre as mais criticadas, acompanhadas da SC02B (Savassi / Praça Sete via Santa Casa e Praça da Liberdade) e da 66 (Estação Vilarinho / Centro / Hospitais via Cristiano Machado). As queixas, à época, eram praticamente as mesmas: atrasos, má conservação da frota e condutores que desrespeitavam pontos de parada.
Para o representante de uma associação de usuários, a reincidência mostra que os ajustes anunciados pelo município não chegaram ao dia a dia de quem depende do transporte coletivo. “Quando as mesmas linhas repetem os piores índices, fica evidente que as medidas de curto prazo não foram suficientes”, afirma.
O que diz a Prefeitura
Em nota, a PBH enumerou ações que, segundo a administração, já colaboram para reduzir o volume de queixas. Entre 1.º de janeiro de 2025 e 15 de junho de 2026, o Departamento de Transporte Público lavrou 64.042 autuações contra concessionárias por descumprimento contratual. As penalidades vão de advertências a multas, dependendo da gravidade.
A gestão municipal cita ainda renovação parcial da frota, ajuste de horários, abertura de novos itinerários, expansão da infraestrutura de faixas exclusivas e monitoramento diário por GPS. Na avaliação da prefeitura, a queda de 5,4 para 5,2 reclamações a cada mil viagens comprova “a efetividade das ações fiscalizatórias”. Técnicos da pasta admitem, contudo, que o número ainda é elevado e que a contribuição do passageiro continua fundamental para identificar falhas.
Resposta das empresas
Procurado, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belo Horizonte (Setra-BH), que representa o Consórcio Pampulha, reconheceu as dificuldades enfrentadas pelos usuários e afirmou que acompanha a operação em tempo real, em parceria com a prefeitura, para “reduzir impactos e promover melhorias contínuas”.
A entidade reforçou que todas as manifestações recebidas pelos canais oficiais são analisadas internamente. Para agilizar a apuração, o sindicato solicita que o passageiro informe, sempre que possível, linha, data, horário e número do veículo. Sobre a frota, o Setra-BH alegou que o processo de renovação segue em curso, com a incorporação de ônibus mais modernos e acessíveis.
Enquanto o poder público e as empresas divulgam medidas de correção, quem depende do transporte coletivo segue à espera de viagens mais rápidas, confortáveis e confiáveis. Até que os indicadores apontem uma queda significativa no volume de reclamações, a linha que separa a paciência do passageiro e a melhoria efetiva do serviço continua esticada.
