Um voo de resgate da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, conduzido por uma tripulação do Corpo de Bombeiros, foi alvo de um feixe de laser enquanto sobrevoava Divinópolis na noite de sexta-feira (14). A luz atingiu o avião a 7 mil pés de altitude, ofuscando momentaneamente a cabine e expondo tripulantes e paciente a risco de acidente. O flagrante, registrado em vídeo pelo tenente-piloto Rafael Almeida, reacendeu o alerta das autoridades aeronáuticas para a prática criminosa de apontar lasers contra aeronaves.
De acordo com a Força Aérea Brasileira (FAB), disparar laser em direção a aviões se enquadra no artigo 261 do Código Penal, que pune com reclusão de dois a cinco anos quem coloca em perigo a navegação aérea. Mesmo realizada em tom de “brincadeira”, a conduta pode provocar distração, cegueira momentânea e, em casos extremos, a perda de controle do voo, sobretudo em pousos e decolagens.
Flagrante em pleno cruzeiro
O avião retornava a Belo Horizonte depois de transferir um paciente de Caxambu para São Sebastião do Paraíso. Durante a fase de cruzeiro — quando altitude e velocidade se mantêm estáveis e a carga de trabalho da cabine é menor — o tenente Rafael decidiu gravar imagens para o registro de rotina. Foi quando o feixe verde cortou a escuridão e atingiu o para-brisa.
“É algo que atrapalha muito. Mesmo a essa altura, a luz consegue ofuscar por alguns segundos e prejudicar a leitura dos instrumentos”, contou o militar. Em cinco anos de carreira, ele diz já ter enfrentado situações semelhantes em operações noturnas, mas poucas vezes conseguiu filmar a ocorrência.
Laser desvia foco da tripulação
- Distração: o brilho inesperado obriga o piloto a desviar o olhar dos instrumentos;
- Ofuscamento: a luz intensa diminui a capacidade de enxergar detalhes externos, fundamentais para navegação visual;
- Cegueira momentânea: dependendo da potência e do ângulo, o laser pode provocar perda temporária da visão, crucial em manobras críticas.
Risco ainda maior perto do solo
Segundo a FAB, pousos e decolagens concentram o maior potencial de acidente, pois a aeronave opera próxima ao solo, com margens apertadas para correções. “Basta um segundo de distração para perder a referência de pista ou altitude”, explica nota técnica do órgão. Em operações com apenas um piloto — comuns em resgates aeromédicos e voos executivos — o perigo se amplia devido à ausência de outro tripulante que possa assumir o manche rapidamente.
Legislação e punições
O artigo 261 do Código Penal fixa pena de dois a cinco anos de reclusão para quem “coloca em perigo embarcação ou aeronave, própria ou alheia, ou pratica ato que impeça ou dificulte a navegação”. Quando há lesão ou morte, outras tipificações podem agravar a punição.
Casos de laser contra aviões também podem ser enquadrados como crime de contravenção penal de perturbação da tranquilidade ou, na esfera cível, gerar indenizações por danos materiais e morais. A Polícia Militar orienta testemunhas a registrar o fato imediatamente pelo telefone 190, indicando local e horário do disparo.
Subnotificação preocupa especialistas
Levantamento do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) aponta 15 notificações de eventos com laser entre agosto de 2025 e agosto de 2026 em todo o Brasil, 12 delas no primeiro semestre de 2026. A maioria ocorreu durante aproximação ou decolagem em aeroportos de grande movimento.

Imagem: Internet
O episódio de Divinópolis não entrou na estatística oficial porque se deu em fase de cruzeiro, considerada de menor risco operacional. “O número oficial provavelmente é menor que a realidade, pois muitos pilotos deixam de reportar quando avaliam que o voo seguiu sem consequência”, reconhece o Cenipa. A FAB estuda campanhas educativas e maior integração com forças policiais estaduais para coibir a prática.
Ataques se concentram em áreas urbanas
Cidades médias no entorno de aeródromos regionais formam o principal ponto de incidência. Nessas regiões, o tráfego de helicópteros de resgate e aviões executivos costuma ocorrer a altitudes mais baixas, facilitando a ação de curiosos ou vândalos. Equipamentos vendidos livremente em lojas e na internet, com preços a partir de R$ 50, emitem feixes que chegam a vários quilômetros de distância.
Orientações para a população
- Identifique a origem do feixe: tente anotar referência de rua, bairro ou ponto de interesse.
- Ligue para o 190 imediatamente, informando horário, local aproximado e direção do disparo.
- Se possível, grave imagens que ajudem a polícia a localizar o autor — mas sem se expor a risco.
- Evite confrontar o responsável; a abordagem deve ser feita por agentes de segurança.
Para pilotos, a recomendação da FAB é adotar manobras de mitigação, como olhar levemente para baixo, abaixar a pala de sol interna e, se necessário, solicitar alteração de trajetória à torre de controle.
Repercussão entre profissionais de aviação
Sindicatos de aeronautas e entidades de resgate aéreo emitiram notas cobrando fiscalização mais rígida. “Quem aponta laser contra um avião ou helicóptero assume o risco de causar tragédias coletivas”, declarou a Associação Brasileira de Operadores Aeromédicos. Já a Federação Nacional dos Trabalhadores em Aviação Civil pediu que lojas sejam obrigadas a orientar compradores sobre o uso responsável do equipamento.
O tenente Rafael, responsável pelo flagrante em Divinópolis, resume a gravidade: “Não é brincadeira inofensiva. Quem faz isso coloca em risco pacientes, tripulantes e pessoas em solo. Basta um momento de cegueira para transformar um resgate em tragédia”.
