A conquista de cerca de 44% dos votos pela Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições regionais da Saxônia-Anhalt pegou a França de surpresa. Grandes jornais do país vizinho classificaram o resultado como um “terremoto” que abala não apenas Berlim, mas todo o equilíbrio político europeu. O desempenho histórico da legenda de extrema direita, somado ao colapso da União Democrata-Cristã (CDU) do chanceler Friedrich Merz, instaura incertezas sobre o futuro da liderança alemã.
Em editorial e reportagens de capa publicadas nesta segunda-feira (7), veículos como Le Monde, Libération, Le Figaro, Franceinfo e La Croix ecoaram a possibilidade inédita de a extrema direita comandar um dos 16 Estados federados alemães. A avaliação convergente é que a votação no leste do país se transformou num plebiscito contra o governo federal e numa advertência direta a Merz, já pressionado por pesquisas nacionais que colocam a AfD à frente da CDU.
Reação da mídia francesa
Franceinfo: “terremoto político” em Berlim
O portal público de notícias chamou o desfecho nas urnas de “terremoto político”. Para a redação parisiense, a magnitude da vitória da AfD torna a Saxônia-Anhalt um laboratório do que pode ocorrer em âmbito federal caso o descontentamento com Berlim se mantenha. O veículo observa que o partido radical converteu o pleito num voto de protesto, atraindo eleitores insatisfeitos com a inflação, a imigração e a estratégia energética alemã.
Le Monde: “humilhação” para a CDU após duas décadas no poder
Principal jornal de referência do país, o Le Monde ressaltou que a CDU governava o Estado há mais de 20 anos e perdeu metade do seu eleitorado. Para o diário, trata-se de uma “humilhação” que deixa Merz exposto num momento em que a sucessão ao comando da Alemanha ainda não está definida. A mesma análise destaca que, mesmo sem maioria absoluta, a AfD abre brecha para liderar o governo regional se conseguir apoio de outros partidos — cenário que, até recentemente, parecia impensável desde 1945.
Le Figaro foca na figura de Ulrich Siegmund
O conservador Le Figaro atribuiu grande parte do êxito ao candidato de 35 anos Ulrich Siegmund, descrito pela mídia alemã como alguém com aparência de “genro ideal”. A publicação explica que Siegmund utilizou símbolos da antiga Alemanha Oriental e se tornou um fenômeno nas redes sociais, expandindo a base do partido para além do eleitor padrão da extrema direita. Essa personalização, segundo o jornal, explica por que a AfD avançou mesmo em regiões urbanas onde antes era marginal.
Libération alerta para “choque fascista”
Na contramão do tom analítico de outros periódicos, o Libération estampou a manchete “Choque fascista”. O jornal de esquerda advertiu que a extrema direita está “às portas do poder pela primeira vez desde 1945” e sublinhou as manifestações contra o resultado em Magdeburgo, capital estadual. Sindicatos, ambientalistas e coletivos antifascistas saíram às ruas ainda na noite da apuração, qualificando a vitória da AfD como ameaça direta à democracia alemã.
Impacto sobre o governo de Friedrich Merz
Todos os títulos franceses convergem em apontar a fragilidade política de Friedrich Merz após o revés na Saxônia-Anhalt. Além da perda regional, pesquisas nacionais divulgadas nos últimos meses já colocam a AfD numericamente à frente da CDU, algo inédito na história pós-guerra. Para o Libération, os próximos dois pleitos regionais, agendados para daqui a duas semanas, funcionarão como “prova de fogo” e podem reabrir o debate sobre a permanência do chanceler no cargo.
No Le Monde, editorialistas lembram que a CDU vinha usando o Estado do leste como vitrine de gestão para todo o país. A derrocada, portanto, tem efeito simbólico extra: indica que a mensagem conservadora, centrada em disciplina fiscal e moderação migratória, não contém o avanço populista. Para analistas ouvidos pelo jornal, Merz agora enfrenta dilemas duplos: defender sua agenda no Parlamento federal e, ao mesmo tempo, reorganizar um partido em crise de identidade.
Possível aliança com o BSW amplia incerteza
Reportagem do La Croix acrescenta outro elemento ao tabuleiro: a chance de a AfD unir forças com o pequeno partido populista Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW). A sigla, recém-fundada, adota postura crítica à imigração e simpática à Rússia, pontos que coincidem parcialmente com a plataforma da AfD. Caso os dois grupos somem cadeiras suficientes no Parlamento de Magdeburgo, abre-se caminho para um governo estadual liderado pela extrema direita — cenário sem precedentes desde o fim da Segunda Guerra.

Imagem: Internet
Segundo o jornal católico, a própria campanha da AfD já flertava com essa possibilidade. Durante comícios, dirigentes insinuavam que um “bloco de protesto” poderia substituir a antiga coalizão entre CDU, sociais-democratas e verdes. O texto frisa, contudo, que negociações formais só ocorrerão após a certificação final dos resultados.
Mobilização social em Magdeburgo
Enquanto a contagem de votos se completava, manifestações tomaram as ruas da capital estadual. Relatos reunidos pelo Libération dão conta de protestos organizados por centrais sindicais, ONGs ambientais e coletivos antifascistas. Cartazes traziam inscrições como “Nunca Mais” e “Democracia sob risco”, em alusão à ascensão de partidos autoritários na Europa.
Analistas franceses recordam que a Saxônia-Anhalt foi parte da antiga República Democrática Alemã (RDA) e mantém indicadores econômicos inferiores à média nacional, fatores que historicamente alimentam o voto de protesto. Para o Franceinfo, a AfD explorou esse sentimento ao prometer subsídios à indústria local e ao criticar sanções europeias contra Moscou, medidas impopulares em áreas dependentes do comércio com a Rússia.
Repercussão além das fronteiras
Ainda que focada na realidade alemã, a cobertura francesa projeta reflexos continentais. O Le Figaro lembra que a Alemanha é a maior economia da União Europeia e principal motor político do bloco. Caso a AfD amplie sua influência, temas como política migratória, pacto climático e ajuda militar à Ucrânia poderiam sofrer reveses em Bruxelas.
Já o Le Monde observa que partidos de extrema direita vêm ganhando terreno em vários países europeus e que a vitória na Saxônia-Anhalt reforça essa tendência. A publicação menciona o risco de normalização de discursos nacionalistas, sobretudo se o “muro sanitário” que mantém legendas radicais afastadas de coalizões de governo começar a ruir.
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