A diplomacia do Oriente Médio voltou a emperrar nesta segunda-feira (14). Sem consenso interno, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) adiou, em cima da hora, a primeira reunião em quase dois anos com o Irã para discutir um esquema provisório de gestão do Estreito de Ormuz — passagem estratégica por onde circulava cerca de 20% do petróleo mundial antes da guerra que opõe Teerã aos Estados Unidos e a Israel. O cancelamento, anunciado por Omã, derrubou expectativas de distensão e provocou alta imediata de até 3,5% no Brent, referência internacional do petróleo.
O encontro, previsto para Salalah, no sul de Omã, reuniria os chanceleres de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Bahrein e do próprio Omã com o ministro iraniano das Relações Exteriores. Bahrein, que preside hoje o bloco e vem sendo alvo de ataques de retaliação iranianos, comunicara dois dias antes que não compareceria, minando a tentativa de acordo costurada por Mascate.
Por que o Estreito de Ormuz voltou a preocupar
Desde fevereiro, quando o conflito entre EUA, Israel e a República Islâmica atravessou uma nova escalada, Teerã passou a restringir a navegação em Ormuz. Na prática, navios enfrentam inspeções inesperadas, atrasos ou bloqueios totais, dependendo do destino da carga e do pavilhão da embarcação. A manobra transformou o corredor marítimo em peça central do confronto, afetando cadeias globais de energia e comércio.
Os países do Golfo, grandes exportadores de petróleo, veem o estreito como gargalo existencial: qualquer interrupção pressiona receitas fiscais, orçamentos de bem-estar e a própria estabilidade política doméstica. No caso da Arábia Saudita, o risco é maior porque o oleoduto que liga os campos do leste ao Porto de Yanbu, no Mar Vermelho — rota alternativa ao Golfo Pérsico — teve de ser fechado após um ataque de drone lançado do Iraque na quinta-feira (10). O equipamento, operado por milícias xiitas pró-Irã, atingiu instalações de bombeamento e reforçou a sensação de vulnerabilidade.
O plano Omã-Irã e o ponto de discórdia
Omã, historicamente mediador entre Teerã e os monarcas árabes, negociou um arranjo transitório que permitiria reabrir parcialmente Ormuz. A proposta prevê que navios ingressem pelo lado iraniano do corredor e, na maior parte dos casos, deixem o estreito por águas territoriais omanenses. A ideia conta com respaldo de especialistas em segurança marítima, mas esbarra em um elemento extra-regional: os Estados Unidos.
Diplomatas envolvidos nas conversas afirmam que nenhum pacto sobre Ormuz será efetivo sem respaldo americano, já que a 5ª Frota da Marinha dos EUA, baseada no Bahrein, patrulha a área e mantém, desde o início da guerra, bloqueio naval aos portos iranianos. Teerã condiciona a liberação completa do tráfego à suspensão desse bloqueio, à retomada de licenças para vender petróleo e ao descongelamento de ativos financeiros retidos no exterior. Washington, por sua vez, exige um acordo mais amplo, que inclua limites ao programa nuclear iraniano.
Memorando de junho naufragado
Em junho, mediadores conseguiram que EUA e Irã assinassem um memorando de entendimento com validade de 60 dias. O documento previa cessar-fogo temporário, reabertura gradual do estreito e negociação de um pacto definitivo. O acerto, contudo, implodiu antes mesmo do primeiro prazo, sob acusações mútuas de violação: Teerã dizia que navios americanos descumpriam rotas combinadas, Washington alegava que a Guarda Revolucionária continuava a intimidar petroleiros.
Com a derrocada do memorando, Omã apostou em acordo regional sem a presença direta de Washington, esperando que um mecanismo entre vizinhos criasse fatos consumados para forçar o diálogo EUA-Irã. A ausência do Bahrein e a relutância saudita, porém, mostraram que o CCG não fala com uma só voz sobre Ormuz.
Escalada militar paralela
Enquanto diplomatas trocam rascunhos, o campo de batalha se expande. Além do drone que atingiu o oleoduto saudita, rebeldes houthis do Iêmen — apoiados pelo Irã — dispararam sucessivas ondas de mísseis e veículos aéreos não tripulados contra refinarias e terminais no sul da Arábia Saudita. O avanço dos insurgentes ao longo da costa do Mar Vermelho pressiona Bab al-Mandeb, outro ponto de estrangulamento vital à navegação global.
Para Riad, o duplo aperto — Ormuz a leste e Bab al-Mandeb a oeste — reabre fantasmas de 2019, quando drones danificaram metade da capacidade de processamento de petróleo do reino. Naquele ano, os preços saltaram 15% em questão de horas; agora, o mercado reage de forma mais contida, mas especialistas alertam que nova disparada se torna plausível se a diplomacia permanecer travada.
Reação dos mercados
Logo após o anúncio do adiamento da reunião, o petróleo Brent saltou para além de US$ 108 o barril na abertura das bolsas asiáticas. Embora tenha devolvido parte dos ganhos ao longo do dia, o contrato continuou acima da marca de US$ 100, patamar não visto desde maio. A volatilidade reflete três fatores principais:

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- Incerteza sobre oferta física, já que embarques sauditas e de parceiros do Golfo podem enfrentar atrasos;
- Aposta especulativa de que Washington poderá reforçar sanções contra o Irã, puxando a oferta global para baixo;
- Temor de que companhias de seguros marítimos elevem prêmios ou suspendam cobertura para travessia de Ormuz.
Para importadores asiáticos, que compram a maior parte do petróleo proveniente do Golfo, uma interrupção prolongada significaria recorrer a estoques estratégicos ou a fornecedores mais caros, como Estados Unidos e Brasil.
Próximos passos e janelas de negociação
Omã divulgou que trabalha “em estreita consulta” com Teerã para remarcar o encontro, sem definir data. Autoridades iranianas repetem que estão prontas a sentar imediatamente, desde que todos os países do CCG participem. A dificuldade mora sobretudo em Manama: o Bahrein abriga a base naval americana na região e sofreu ataques diretos de botes iranianos contra suas plataformas de gás, o que torna politicamente custoso qualquer gesto de conciliação.
Nos bastidores, diplomatas europeus enxergam duas possibilidades de destravar as conversas:
- Pacote econômico: flexibilizar parte das sanções sobre venda de petróleo iraniano em troca da desmilitarização de Ormuz;
- Garantia de segurança multilateral: envolver não apenas o CCG e o Irã, mas também China, União Europeia e Índia, principais usuários da rota, na fiscalização conjunta do estreito.
Ambas as saídas, contudo, dependem de aval de Washington, onde a administração americana sinaliza postura mais dura após o colapso do memorando de junho.
O que está em jogo para o Brasil
O Brasil importa cerca de 200 mil barris diários de petróleo leve do Golfo para mistura em refinarias costeiras e compra fertilizantes iranianos fundamentais à safra de grãos. Bloqueios prolongados em Ormuz encarecem o frete marítimo e podem impactar preços de combustíveis e alimentos no mercado interno. Além disso, os portos brasileiros competem por cargas com rotas que cruzam o canal do Suez; qualquer desvio no tráfego global eleva filas e custos logísticos.
Embora a Petrobras mantenha estoques e contratos de longo prazo, especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que repasses ao consumidor seriam inevitáveis caso o barril se consolide acima de US$ 110. A estatal, por sua política de paridade, tende a ajustar preços internos sempre que o petróleo ou o câmbio sofrem oscilações significativas.
Cenário permanece volátil
O adiamento da reunião em Salalah reforça que a disputa pelo controle de Ormuz segue distante de solução. Enquanto não houver entendimento que inclua Irã, países do Golfo e Estados Unidos, qualquer tentativa de abrir plenamente a hidrovia corre o risco de naufragar, mantendo o mercado de energia sob tensão constante.
Para investidores e governos, o recado é claro: a diplomacia regional vive momento frágil, e a segurança de uma das rotas mais críticas do planeta continua pendendo de um fio.
