Os empregos continuam existindo, mas os contracheques estão engordando mais devagar onde a inteligência artificial (IA) foi incorporada à rotina. É o que mostra um levantamento da gestora norte-americana Apollo Global Management, que cruzou evolução de salários, saldo de postos de trabalho e grau de utilização de IA em 321 ocupações nos Estados Unidos.
Segundo o estudo, profissionais de atividades altamente expostas às ferramentas – ou seja, com parte relevante das tarefas já realizada com auxílio de sistemas como ChatGPT e Claude – viram o crescimento salarial ficar 6,7 pontos percentuais abaixo do registrado em funções menos suscetíveis desde o boom da IA generativa, em 2022. Entre os trabalhadores de menor renda, a diferença atinge 10,7 pontos. Até agora, porém, não há sinal estatístico de eliminação de vagas.
Como foi medida a exposição à IA
A equipe da Apollo recorreu ao Anthropic Economic Index, indicador construído a partir de milhões de interações de usuários com o Claude, modelo de linguagem da Anthropic. A pontuação traduz a parcela de tarefas de cada profissão que já aparece sendo desempenhada com suporte de IA: quanto maior o índice, maior a exposição.
Onze ocupações alcançaram nota igual ou superior a 0,5, patamar classificado como “alta exposição”. Todas elas lidam prioritariamente com informação – produção de texto, análise de dados, atendimento remoto ou gestão documental. Veja os destaques:
- Programadores – 0,75
- Atendentes de customer service – 0,70
- Digitadores e analistas de entrada de dados – 0,67
- Especialistas em prontuário médico – 0,67
- Analistas de mercado e marketing – 0,65
- Transcritores médicos – 0,64
- Representantes de vendas não técnicas – 0,63
- Arquitetos de banco de dados – 0,58
- Analistas financeiros e de investimentos – 0,57
- Analistas e testadores de qualidade de software – 0,52
- Assistentes estatísticos – 0,51
“Compressão salarial”: produtividade não chega ao bolso
Para avaliar o impacto da tecnologia, os autores dividiram as 321 ocupações em dois blocos – mais expostas e menos expostas – e compararam a trajetória antes e depois da popularização da IA generativa. O resultado sugere que o primeiro efeito mensurável da inovação é o que os economistas chamam de “compressão salarial”: a produção sobe, mas o ganho para o trabalhador não acompanha o ritmo.
A freada foi particularmente forte na base da pirâmide. Nos 25% de menor renda, o aumento médio anual dos salários perdeu 10,7 pontos em relação ao grupo com pouca exposição. Já no topo da distribuição, não apareceu diferença estatisticamente relevante.
Emprego se mantém estável, mas há casos extremos
O modelo estatístico não encontrou queda consistente no número total de vagas em funções de alta exposição. Mesmo assim, a fotografia individual mostra contrastes. Entre 2022 e 2024, o contingente de analistas financeiros e de investimentos cresceu 16,9%, enquanto o de programadores encolheu 17,2%, acompanhado de recuo salarial real de 6,1%.
A divergência reforça que a demanda por mão de obra depende de variáveis adicionais – crescimento do setor, escassez de profissionais, exigência de qualificação e até conjuntura macroeconômica.
Maiores perdas salariais aparecem em outro ranking
Quando a análise se desloca do nível de exposição para a variação efetiva de remuneração, despontam profissões que nem figuram entre as mais influenciadas pela IA. As dez maiores quedas reais de salário entre 2022 e 2024 foram:

Imagem: Internet
- Locutores de rádio e DJs (-52,1%)
- Técnicos de radiodifusão (-29,5%)
- Diretores musicais e compositores (-17,8%)
- Técnicos de instrumentos de precisão (-15,0%)
- Árbitros e mediadores (-14,1%)
- Artesãos (-14,1%)
- Psicólogos organizacionais (-13,4%)
- Juízes e magistrados (-13,3%)
- Escritores e autores (-12,7%)
- Legisladores (-11,7%)
Os autores destacam que, nesses casos, a queda pode refletir fatores específicos de cada segmento – de transformações tecnológicas paralelas à retração de demanda ou mudanças regulatórias – e não necessariamente a ação direta da IA.
Onde o emprego mais diminuiu
No quesito número de trabalhadores, a lista de maiores baixas também foge do padrão “alta exposição”:
- Vendedores porta a porta e jornaleiros (-46,9%)
- Fabricantes de moldes em madeira (-45,5%)
- Artistas de efeitos especiais e animadores (-40,9%)
- Legisladores (-38,2%)
- Técnicos de instrumentos de precisão (-37,8%)
- Coreógrafos (-36,5%)
- Técnicos de radiodifusão (-36,2%)
- Operadores de telemarketing (-31,2%)
- Entrevistadores de crédito (-28,7%)
- Astrônomos (-27,8%)
Isso reforça a conclusão principal da pesquisa: até o momento, a influência mais clara da IA não é a eliminação direta de vagas, mas a reconfiguração da dinâmica salarial.
Limitações e próximos passos
Os próprios autores reconhecem limites. A exposição foi estimada a partir de dados da Anthropic, que não capturam o uso de modelos como ChatGPT, Gemini ou soluções proprietárias instaladas em grandes corporações. Além disso, apenas 321 ocupações puderam ser combinadas entre as bases e o período pós-IA generativa é curto para conclusões definitivas.
Mesmo assim, o trabalho serve de termômetro inicial para empresas, sindicatos, formuladores de política pública e profissionais que buscam se preparar para mudanças na divisão de tarefas – e, sobretudo, na forma de distribuir os ganhos de produtividade.
O que observar daqui para frente
• Produtividade versus remuneração: se a compressão salarial persistir, a tecnologia poderá acentuar desigualdades, especialmente na base da pirâmide.
• Qualificação contínua: profissões mais técnicas vêm sofrendo menos, sugerindo que atualização constante é fator de proteção.
• Negociação coletiva: sindicatos podem usar evidências de desaceleração salarial para reivindicar participação nos ganhos de produtividade.
• Medição mais abrangente: estudos futuros tendem a incorporar dados de outras plataformas de IA e períodos mais longos.
Para quem atua em áreas com alto índice de exposição, o alerta é claro: permanecer no jogo exigirá aprender a trabalhar lado a lado com algoritmos – e, na mesa de negociação, provar o valor gerado por essa parceria.
