O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino retirou, nesta sexta-feira (14), o segredo de Justiça que protegiam decisões relativas a um inquérito sobre um suposto esquema de corrupção enraizado em órgãos públicos do Maranhão. Na mesma investigação, a Polícia Federal (PF) aponta indícios de que o senador Weverton Rocha (PDT-MA) tentou interferir no andamento de um processo que apura o assassinato de um empresário em 2022, crime que teria ligação direta com a divisão de propinas em contratos estaduais.
Com a divulgação, vieram a público detalhes sobre trocas de mensagens entre o parlamentar e o então presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Humberto Martins, além de relatos de pagamento para alteração de depoimentos e até a utilização de informações sigilosas de segurança oficial para pressionar o próprio ministro Dino. O caso envolve ainda o governador Carlos Brandão (MDB-MA), apontado pela PF como possível líder político do grupo, e seu sobrinho, Daniel Brandão, atual presidente do Tribunal de Contas do Estado.
Por que o sigilo foi suspenso
Dino decidiu tornar as decisões acessíveis alegando “interesse público” e a necessidade de “transparência em processos que envolvem possível utilização de estruturas estatais para fins ilícitos”. Embora os despachos tenham sido revelados, o conteúdo integral das mensagens capturadas não foi anexado aos autos por conter dados de pessoas sem prerrogativa de foro.
A investigação chegou ao STF em outubro de 2025, depois que a defesa do assassino confesso, Gilbson Cutrim Soares Júnior, mencionou suspeitas sobre a atuação de parlamentares para travar o processo. Até então, a apuração corria no STJ, sob relatoria de Humberto Martins, porque havia citação ao presidente do Tribunal de Contas do Maranhão, autoridade com foro especial.
Primeiros sinais de interferência
Segundo a PF, a apreensão do celular de Weverton Rocha, em 2025, durante operação contra fraudes no INSS, revelou conversas entre ele e o ministro Humberto Martins, mantidas entre janeiro de 2023 e abril de 2025. Os investigadores afirmam que há menções diretas a casos sob análise do magistrado e registros de ligações no mesmo dia em que Gilbson Júnior foi transferido da penitenciária de Pedrinhas (MA) para o presídio federal em Brasília.
O relatório descreve “relação de proximidade pessoal que extrapola o contato institucional” e anota pedidos do senador sobre processos de terceiros. Martins, entretanto, não figura como investigado. A suspeita é de que Rocha tenha tentado blindar aliados do governo maranhense – entre eles o próprio governador Carlos Brandão –, evitando que o inquérito alcançasse o núcleo político da administração estadual.
O fio que liga homicídio e propina
Crime de 2022 ganha novo rumo
O ponto de partida do inquérito é a morte do empresário Rivaldo Moraes, ocorrida em agosto de 2022, em São Luís. A Polícia Civil maranhense primeiro atribuiu o homicídio a um desentendimento pessoal, mas a PF reabriu o caso ao identificar indícios de que a vítima e Gilbson Júnior discutiam a partilha de propinas referentes a contratos públicos.
Condenado a 13 anos de prisão, Gilbson declarou ter recebido R$ 160 mil para alterar depoimentos e inocentar agentes políticos. O dinheiro, diz ele, teria sido entregue por Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança do estado, apontado como elo operacional do grupo. Gravações mostram Cutrim orientando o pai de Gilbson a convencer o filho e a nora a mudarem suas versões, prática que a PF trata como tentativa de obstrução de Justiça.
Quem são os personagens investigados
Weverton Rocha
Líder do PDT no Senado e candidato derrotado ao governo estadual em 2022, Rocha diz não ter envolvimento com o caso. Em nota, alegou que “diálogos institucionais” com magistrados fazem parte de sua função legislativa e classificou a associação aos fatos como “forçação de barra”. Ele se comprometeu a prestar esclarecimentos.

Imagem: Internet
Raimundo Cutrim
Ex-deputado estadual e ex-secretário maranhense, Cutrim cumpre prisão domiciliar com tornozeleira desde julho, por ordem de Dino. Além da suposta compra de depoimentos, ele é investigado em outro inquérito, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, por repassar a um blogueiro dados sigilosos sobre deslocamentos de Flávio Dino e familiares. As informações, obtidas em sistemas restritos do governo local, teriam sido usadas para produzir conteúdo ofensivo e potencialmente ameaçador contra o ministro do Supremo.
Carlos e Daniel Brandão
Embora o governador Carlos Brandão não esteja formalmente entre os investigados neste inquérito, a PF o descreve como “possível líder” da rede. Sua assessoria argumenta que o STF não tem competência para processar governadores e nega qualquer envolvimento. O sobrinho, Daniel Brandão, também rejeita participação em “negociação de vantagem indevida” e afirma ter colaborado com todas as diligências.
Liberdade de imprensa em debate paralelo
A quebra do sigilo telemático do jornalista Luiz Pablo, indicado como destinatário de material vazado por Raimundo Cutrim, mobilizou entidades de imprensa. Para elas, a apreensão de computadores e celulares do repórter viola o segredo de fonte assegurado pela Constituição. Já a PF sustenta que o conjunto de publicações, iniciadas em novembro de 2025 — um mês após Dino assumir a relatoria —, configuraria campanha de intimidação ao ministro.
Próximos passos do processo
Com a retirada do sigilo, as partes terão acesso às peças decisórias e poderão apresentar contestações públicas. A PF ainda pericia equipamentos apreendidos e prepara nova rodada de oitivas. O Ministério Público Federal deverá opinar sobre eventuais pedidos de indiciamento assim que o laudo ficar pronto.
O ministro Humberto Martins, citado nas mensagens, informou que, por se tratar de processo até então sigiloso, não comentará o caso. A defesa de Raimundo Cutrim diz não ter recebido cópia integral dos autos e acusa Dino de falta de imparcialidade. Já o STF reforça que todas as medidas foram tomadas dentro do marco legal.
Nos bastidores, a avaliação é de que a movimentação do STF aumenta a pressão política sobre o governo do Maranhão e sobre o senador Weverton Rocha, ambos em ano pré-eleitoral. A divulgação dos despachos também serve de recado institucional de que tentativas de influenciar investigações criminais poderão vir a público — mesmo quando envolverem autoridades com prerrogativa de foro.
