Uma forte explosão despertou os moradores da pacata Tsareva Livada, no centro da Bulgária, nas primeiras horas deste sábado. Labaredas que podiam ser vistas a quilômetros de distância anunciaram o segundo incidente do tipo em apenas um mês em instalações da mesma empresa de armamentos, a EMCO, pertencente ao empresário Emilian Gebrev.
Embora nenhuma vítima tenha sido registrada, o novo incêndio alimenta o temor de que o país esteja novamente na mira de ações de sabotagem. Há poucos anos, investigadores atribuíram a agentes russos uma série de explosões semelhantes, além da tentativa de envenenamento do próprio Gebrev.
Fogo de grandes proporções no complexo bélico
De acordo com autoridades regionais, o incêndio começou em um dos galpões de armazenamento do complexo por volta da meia-noite de sábado. “O fogo está consumindo um armazém após o outro”, resumiu a governadora de Gabrovo, Kristina Sidorova, ao atualizar a situação. Vídeos exibidos pela imprensa local mostram colunas de fumaça densa iluminadas pelo clarão das chamas atravessando o céu noturno.
O depósito atingido fica nos arredores de Tsareva Livada, pequena comunidade cercada por florestas e vales no coração do país. A região não possui grande efetivo de bombeiros, o que obrigou a mobilização de equipes dos municípios vizinhos. Até a manhã de sábado, ainda havia focos ativos, mas a propagação estava contida e não havia registro de feridos.
Repetição do cenário
Exatamente um mês antes, em 10 de agosto, outro pavilhão da EMCO explodiu nas proximidades de Belitsa, a poucos quilômetros do ponto incendiado agora. Na ocasião, o fogo também foi considerado atípico porque irrompeu de forma simultânea em diferentes setores de armazenamento. Investigadores ainda não concluíram a perícia daquele episódio quando se depararam com o novo caso.
Empresa e dono já foram alvos de atentados
A EMCO pertence a Emilian Gebrev, veterano do comércio de armas na Europa Oriental. Em 2015, ele sobreviveu a uma tentativa de envenenamento que, segundo promotores búlgaros, carrega a assinatura de um grupo de operações especiais ligado aos serviços de inteligência russos. A suspeita ganhou força após a Procuradoria emitir, em 2024, mandados de prisão para seis cidadãos russos acusados de interferir diretamente nos estoques da companhia entre 2011 e 2020.
O Ministério Público relaciona os casos na Bulgária a explosões registradas em 2014 em armazéns militares da República Tcheca, bem como à intoxicação de Gebrev. A hipótese: os ataques teriam o objetivo de interromper o fornecimento de munições búlgaras para mercados considerados estratégicos, como Ucrânia e Geórgia.
Moscou nega envolvimento
O Kremlin rechaçou repetidamente qualquer participação em ações de sabotagem fora do território russo. Apesar disso, promotores búlgaros sustentam que o padrão operacional — escolhas de alvos, uso de explosivos de difícil rastreamento e ataques sincronizados — apontaria para mãos estrangeiras treinadas.
Impacto econômico e político
Além dos riscos à população, a sequência de explosões afeta um setor vital para a economia local. A província de Gabrovo abriga pequenas e médias fábricas que empregam milhares de trabalhadores em torno da cadeia bélica, um dos pilares da indústria búlgara desde o período socialista.
Qualquer paralisação prolongada compromete contratos de exportação avaliados em dezenas de milhões de euros. A EMCO, em especial, mantém negócios com vários governos e empresas privadas da OTAN e de países aliados, ainda que detalhes sejam sigilosos por envolver material sensível.
Segurança reforçada
Após o episódio deste sábado, o Ministério do Interior ampliou o perímetro de segurança em torno de todos os depósitos de munição do país. Novas rondas armadas e câmeras de alta resolução foram instaladas em unidades críticas. O governo também prometeu acelerar as investigações, convocando especialistas em explosivos militares e peritos forenses que atuaram nos casos anteriores.
Inquérito ganha novo fôlego
Mesmo sem feridos, o caráter reincidente do incêndio pressiona as autoridades a oferecer respostas claras. Segundo fontes da Procuradoria-Geral, a linha de apuração parte de três frentes:
- Falha interna: avaliação de protocolos de segurança, manutenção de linhas de produção e armazenamento;
- Crime comum: possibilidade de ação de ex-funcionários ou grupos locais interessados em desestabilizar a empresa;
- Sabotagem estrangeira: continuidade da suposta operação russa já investigada em episódios anteriores.
Peritos recolhem fragmentos metálicos e resíduos químicos para determinar se a explosão teve origem em curto-circuito, reação espontânea de munições ou detonador externo. O laudo preliminar deve sair em até 30 dias, mas a complexidade do cenário pode estender o prazo.
Repercussão internacional
Parceiros da Bulgária na União Europeia e na OTAN acompanharam com atenção as primeiras notícias. Oficiais de segurança de países vizinhos alertaram para o risco de que instalações similares possam se tornar alvos preferenciais, sobretudo diante do aumento da demanda por munições desde o início da guerra na Ucrânia.
O Departamento de Estado norte-americano e vários chanceleres europeus já haviam oferecido cooperação técnica após as explosões de 2024. Agora, a nova ocorrência reforça o argumento favorável a missões conjuntas de investigação e trocas de inteligência.
Próximos passos
Enquanto o fogo se esfria nas colinas de Tsareva Livada, moradores contabilizam danos indiretos: estradas fechadas, suspensão das aulas e receio de contaminação ambiental. Equipes de saúde pública coletam amostras de água e solo para medir a presença de metais pesados ou substâncias tóxicas provenientes da queima de explosivos.
Para a EMCO, além da reconstrução física, o desafio será restaurar a confiança de clientes e parceiros. Gebrev, que raramente concede entrevistas, limitou-se a afirmar pela assessoria que “a fábrica segue colaborando integralmente com as autoridades e retomará as atividades assim que houver garantia total de segurança”.
Contexto de uma década turbulenta
Desde 2011, pelo menos sete explosões foram registradas em depósitos militares búlgaros. Em quase todos os casos, relatórios oficiais mencionaram ligações indiretas com disputas geopolíticas envolvendo exportação de armamentos. A sequência inclui:
- Incêndio no arsenal de Lovnidol (2011);
- Explosões em Montana (2012);
- Série de detonações em Karnobat (2014);
- Queima de grandes lotes de munição em Iganovo (2015);
- Três incidentes sucessivos em 2020, também em Karnobat;
- Ocorrências de 2023 e 2024 nos depósitos da EMCO.
Embora cada episódio tenha particularidades, o padrão de atingir estoques preparados para exportação se repete. Esse detalhe sustenta a tese de que as explosões buscam, sobretudo, limitar o fluxo de armas para países que enfrentam interesses russos na região.
Conclusão provisória das autoridades
Até o momento, a Polícia Nacional trata a explosão deste sábado como “evento possivelmente criminoso com motivação a esclarecer”. A classificação abre espaço para investigações ampliadas, inclusive cooperação transfronteiriça. Enquanto isso, a área continua isolada e sobrevoada por drones termográficos que procuram focos remanescentes de calor.
Nos bastidores, a principal preocupação do governo búlgaro é impedir uma escalada de incidentes durante o inverno, quando as condições climáticas dificultam ainda mais o controle de incêndios em zonas rurais. Sem respostas rápidas, cresce a pressão internacional para que eventuais responsáveis — internos ou externos — sejam identificados e levados a julgamento.
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