O cenário de ostentação que levou o sul-matogrossense Eduardo Razuk a reunir mais de 2 milhões de seguidores nas redes sociais virou alvo da polícia. O criador de conteúdo e o irmão, Rafael Razuk, foram presos em Campo Grande na terça-feira (18) suspeitos de integrar esquema de lavagem de dinheiro, associação criminosa e exploração ilegal de loterias por meio de rifas de carros de luxo.
Durante a operação da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (Dercc), agentes cumpriram mandados em uma casa no bairro Vilas Boas e em um galpão que servia de garagem para a frota de importados do influenciador. Ao menos oito veículos avaliados entre dezenas de milhares e mais de R$ 1 milhão cada foram apreendidos; somados, podem ultrapassar a marca de R$ 10 milhões, segundo estimativa da investigação.
Como funcionava o negócio das rifas
Nas plataformas onde atua — duas contas no Instagram e um canal no YouTube — Razuk anunciava sorteios de automóveis de alto valor com cotas a partir de R$ 1,49. Para atrair compradores, exibia vídeos em que acelerava os próprios carros ou mostrava detalhes dos modelos que seriam rifados, quase sempre gravados em pistas europeias ou em estradas do interior de Mato Grosso do Sul.
O influenciador mantinha um perfil principal no Instagram com cerca de 660 mil seguidores e um perfil de reserva com outros 423 mil — prática comum entre criadores que temem banimentos. No YouTube, o público se aproximava de 1 milhão de inscritos.
Frota milionária sob investigação
Entre os veículos agora retidos pela polícia, destacam-se um Volkswagen Arteon Shooting Brake de cerca de R$ 1 milhão, um BMW M4 que parte de R$ 908,9 mil, além de um Porsche 911 e diversos Volkswagen Golf GTI. Estes últimos foram encomendados na Europa e levados a Campo Grande para formar uma coleção com as quatro cores disponíveis na nova geração MK8.5 — branco, vermelho, preto e cinza. A série limitada, vendida no Brasil em lote de 350 unidades, esgotou-se em um fim de semana, o que aumentou a exclusividade do acervo de Razuk.
Vídeos publicados antes da operação mostravam os esportivos alinhados no galpão, destacando elementos como rodas, pinças de freio vermelhas e o emblema GTI. A divulgação ostensiva do patrimônio, de acordo com investigadores, era parte da estratégia para impulsionar as rifas e justificar o alto padrão de vida.
Endereços vasculhados
- Residência na Rua Tricordiano, bairro Vilas Boas, Campo Grande;
- Galpão na Travessa da Ema, onde ficavam guardados os automóveis;
- Eletrônicos, documentos e mídias digitais também foram recolhidos.
Antecedentes de direção perigosa
Não é a primeira vez que o criador de conteúdo entra na mira da polícia. Em agosto de 2020, Razuk já havia sido alvo de outra operação em Campo Grande, quando quatro veículos foram apreendidos e ele chegou a ser detido — liberado depois mediante fiança. Na ocasião, o inquérito investigava vídeos de rachas e manobras perigosas publicados nas redes, além de suposta incitação ao crime e receptação.
Imagens resgatadas pela corporação mostravam o influenciador incentivando a própria mãe a participar de uma corrida ilegal e permitindo que um adolescente de 13 anos assumisse o volante de um carro importado. Em buscas na casa dele, foram recolhidos celulares, cartões de memória, uma caminhonete, uma BMW e um Mini Cooper.

Imagem: Internet
Perfil do influenciador
Filho de família tradicional de Campo Grande, Eduardo Razuk construiu a persona digital em torno do universo automotivo. Além das rifas, organizava encontros de supercarros na Europa, passando por cidades como Lisboa, Barcelona e Stuttgart, berço da Porsche. Os vídeos geravam milhões de visualizações graças ao apelo dos modelos exibidos e à promessa de que qualquer seguidor poderia levar um deles para casa por um valor simbólico de aposta.
Essa exposição crescente chamou a atenção de autoridades fazendárias e policiais, que passaram a monitorar a origem dos recursos utilizados na compra dos veículos e a legalidade dos sorteios. A principal suspeita é que a venda maciça de bilhetes virtuais — sem registro formal nos órgãos de loteria — abastecia um esquema paralelo de movimentação financeira, classificado pela Dercc como potencial lavagem de dinheiro.
Como funcionava a atração das rifas
- Anúncio dos prêmios em lives e posts patrocinados;
- Venda de números por menos de R$ 2,00 cada, facilitando a entrada de milhares de participantes;
- Sorteio transmitido on-line, em geral usando plataformas de números aleatórios;
- Entrega filmada do veículo ou do valor correspondente, reforçando a credibilidade do próximo sorteio.
Defesa alega regularidade
Os advogados Tiago Bunning e Heitor Matos, que representam os irmãos Razuk, afirmaram que ainda não tiveram acesso integral aos autos, mas sustentam que os sorteios seguem o regulamento específico do setor e não apresentam irregularidades. Segundo a defesa, novos esclarecimentos serão prestados assim que o conteúdo da decisão judicial for disponibilizado.
Próximos passos da investigação
Com os detidos à disposição da Justiça, a Polícia Civil deve periciar os veículos, analisar transações bancárias associadas às rifas e rastrear o caminho do dinheiro apurado. Também serão verificadas possíveis ligações com outros influenciadores que atuam no mesmo nicho de apostas automotivas.
Enquanto isso, os perfis de Eduardo Razuk permanecem ativos, mas comentários de seguidores foram restringidos e parte do conteúdo foi retirada do ar logo após a operação. A coleta de provas digitais continua, e o material publicado publicamente poderá servir para reforçar a tese de que a ostentação fazia parte deliberada do esquema investigado.
Possíveis crimes em apuração
- Lavagem de dinheiro;
- Associação criminosa;
- Exploração ilegal de loterias;
- Direção perigosa e incitação ao crime (relacionados ao inquérito de 2020).
A prisão de Razuk joga luz sobre o mercado paralelo de sorteios na internet, muitas vezes ignorado por quem se encanta com a chance improvável de ganhar um carro de luxo por pouco mais de um real. Se condenado, o influenciador pode enfrentar penas que, somadas, ultrapassam dez anos de reclusão, além da perda definitiva dos bens apreendidos.
