Duas frases bastaram para transformar uma reunião processual corriqueira em fenômeno nas redes sociais. Ao abrir a palavra, a advogada catarinense Jéssica Santos, de 26 anos, pediu desculpas à desembargadora Fabiane Pieruccini por ser “a primeira vez que falava com uma autoridade” daquele nível. O gesto, devolvido com acolhimento imediato pela magistrada, foi gravado, ganhou a internet e já ultrapassa 227 mil visualizações.
O diálogo, ocorrido em 15 de junho durante uma etapa de defesa de cliente, expôs a tensão vivida por profissionais em início de carreira, mas também revelou empatia incomum no cotidiano forense. A repercussão dividiu opiniões no meio jurídico, enquanto público nas redes enalteceu a simplicidade de ambas.
Como o encontro virtual aconteceu
Jéssica mantém escritório em Jaraguá do Sul, Norte de Santa Catarina, e está formada há menos de três anos. Naquele dia, ela tentou contato com a assessoria da desembargadora responsável pelo recurso de seu cliente. Para surpresa da jovem, Pieruccini liberou agenda em apenas meia hora e solicitou conexão on-line.
Sem experiência prévia com magistrados de segundo grau, a advogada decidiu explicar a situação logo no início da chamada. O temor, segundo relatou ao g1, era usar de forma inadequada pronomes de tratamento e, por consequência, ver o foco do debate jurídico se perder.
Gravação como medida de precaução
Sabendo que poderia receber orientações formais, Jéssica registrou a conversa do próprio computador. A ideia original era rever pontos processuais e eventuais protocolos de etiqueta. No entanto, o vídeo terminou por capturar a reação espontânea da desembargadora, que interrompeu a fala inicial da advogada para assegurar:
- “Estamos no mesmo patamar aqui.”
- “Não há erro nenhum, vamos conversar normalmente.”
Ao final, Pieruccini ainda elogiou: “Foi muito bem!”. O incentivo aliviou a tensão de Jéssica, que dias depois resolveu publicar o trecho em seu perfil profissional.
Repercussão e debate sobre advocacia iniciante
Postado nas redes da jurista, o conteúdo viralizou rapidamente. Até a noite de 27 de junho, contabilizava 227 mil visualizações, milhares de curtidas e comentários – a maioria, mensagens de apoio.
A notoriedade, contudo, não veio sem críticas. Colegas de profissão apontaram que o pedido de desculpas soaria como submissão. Para esses profissionais, a postura poderia enfraquecer a imagem da categoria. Jéssica rebateu:
“Não confunda enfrentamento com firmeza, nem humildade com fraqueza. Meu papel ali não era medir forças com quem julga o recurso.”
Tabu do início de carreira
Ela acrescenta que a advocacia iniciante continua vista como assunto delicado. “Todo mundo quer parecer o mais experiente, o mais empoderado. Pouco se fala que todo percurso tem um começo”, afirmou. Segundo Jéssica, expor fragilidades tornou-se exceção num meio onde projeção de autoconfiança é quase regra.
Visão da desembargadora
Procurada, Fabiane Pieruccini manifestou surpresa com a repercussão. Disse não ter feito nada além do dever funcional de tratar “de igual para igual” todos que atuam no processo.

Imagem: inexperiência
Ela reconheceu, no entanto, componente de empatia feminina ao ver “uma menina competente começando”. Para a magistrada, justiça é serviço prestado por pessoas, e a forma de acolher advogados, servidores e partes integra a própria aplicação da lei.
Entre apoio e contestação nas redes
Nos comentários, estudantes de direito e recém-formados agradeceram o exemplo de simplicidade. Muitos relataram ansiedade parecida ao lidar com instâncias superiores. Outros tantos parabenizaram a desembargadora por demonstrar que autoridade e humanidade podem coexistir.
As mensagens contrárias concentraram-se em argumentar que o respeito ao tribunal não exige desculpas prévias. Houve quem alegasse que a jovem teria reforçado estereótipos de fragilidade feminina. Ainda assim, o tom geral foi de compreensão e incentivo.
Mesmo patamar, responsabilidades distintas
Especialistas em etiqueta jurídica lembram que ritos formais existem para assegurar ordem nas audiências, mas não são obstáculo para relações cordiais. O fato de a magistrada pontuar “mesmo patamar” não significa equivalência hierárquica, e sim respeito mútuo entre funções distintas do sistema de justiça.
Reflexos na carreira de Jéssica
Além da exposição repentina, a advogada conta ter recebido novos contatos profissionais. Não divulga números, mas afirma que a procura por seu escritório aumentou. Nas palavras dela, o vídeo demonstrou que vulnerabilidade pode coexistir com competência técnica.
Para manter o equilíbrio, Jéssica diz priorizar estudos, prazos e audiência de clientes, deixando a viralização como acontecimento pontual. No entanto, pretende seguir abordando nas redes desafios reais de quem inicia a trajetória no Direito.
Dicas que nascem da experiência
- Preparação processual continua sendo o principal cartão de visitas diante do Judiciário;
- Uso adequado de linguagem formal é importante, mas não deve suplantar o conteúdo jurídico;
- Respeito não se confunde com servilismo, assim como autoridade não se confunde com autoritarismo;
- Registrar sessões on-line pode ajudar na revisão de argumentos e na formação de repertório profissional;
- Acolhimento no ambiente jurídico deve ser regra, não exceção – papel de todos que compõem o sistema.
O que fica para além do vídeo
O episódio lança luz sobre a importância de espaços seguros para que jovens advocacias se desenvolvam. Também reforça a necessidade de formação humanizada de magistrados, capaz de reconhecer inseguranças legítimas sem abrir mão do rigor técnico.
No fim das contas, a reunião que nasceu de um simples agendamento processual virou aula pública sobre respeito e empatia. E mostrou que, entre toga e beca, ainda cabe humanidade.
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