A Índia deu nesta semana o passo mais concreto dos últimos anos para transformar o Brasil em um de seus principais parceiros econômicos no Ocidente. Liderada pelo secretário de Comércio, Rajesh Agrawal, uma comitiva de 19 empresas percorreu três estados, firmou um memorando de entendimento com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e sacramentou a meta conjunta de elevar a corrente comercial dos atuais R$ 15 bilhões para R$ 20 bilhões até 2028.
O movimento, que quase dobra o volume de trocas em curto prazo, vem acompanhado de novos projetos minerários, expansão de linhas tarifárias e da afinidade política entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, ambos defensores de maior protagonismo do Sul Global.
Meta bilionária pressiona expansão de mercados
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a balança comercial Brasil-Índia somou US$ 15,2 bilhões no ano passado, crescimento de 25 % sobre 2024. O avanço foi puxado por exportações brasileiras de petróleo bruto, óleos vegetais, açúcar, minério de ferro e algodão, que renderam US$ 6,9 bilhões, e por compras de produtos indianos que totalizaram US$ 8,3 bilhões.
Para chegar aos R$ 20 bilhões em quatro anos, técnicos dos dois governos trabalham na ampliação das linhas tarifárias incluídas no Acordo de Preferências Fixas do Mercosul com a Índia. A ideia é diversificar a pauta, permitindo a entrada de mais itens farmacêuticos, de infraestrutura e de alimentos processados vindos do subcontinente, enquanto abrem espaço para biocombustíveis, proteínas animais e máquinas agrícolas brasileiras.
Memorando cria ponte institucional
O memorando assinado entre ApexBrasil e a Invest India prevê troca permanente de informações sobre projetos e a organização de missões empresariais setoriais. Na prática, o texto oficializa um canal direto para licenciar investimentos, resolver entraves regulatórios e acelerar a emissão de licenças sanitárias e ambientais.
Investimentos já confirmados no Brasil
Entre os anúncios concretos, o grupo Fomento, um dos maiores conglomerados mineradores da Índia, confirmou aporte inicial de US$ 450 milhões no Rio Grande do Norte. O valor faz parte de um pacote estimado em R$ 2,5 bilhões destinado à instalação de uma mina de minério de ferro e de um corredor logístico que incluirá terminal dedicado no Porto de Natal, arrematado em leilão.
De acordo com o diretor executivo da empresa, Anuj Timblo, a operação comercial deve começar em 2029, com produção média prevista de 2 milhões de toneladas anuais. A estrutura logística será fundamental para escoar o minério ao mercado asiático, reforçando a presença do Nordeste na rota global de commodities.
Outros setores no radar
- Farmacêutico e biotecnologia: laboratórios indianos avaliam parcerias com universidades brasileiras para pesquisa de vacinas e genéricos.
- Alimentos processados: empresas de especiarias e proteínas vegetais buscam joint ventures para abastecer ambos os mercados.
- Infraestrutura: fabricantes de equipamentos ferroviários e metroviários sondaram projetos em São Paulo e Minas Gerais.
- Energia limpa: desenvolvedores de etanol de segunda geração estudam instalar plantas no Centro-Oeste.
Sinergia política reforça agenda comercial
A afinidade entre Lula e Modi oferece lastro político à ambição econômica. Os dois governantes vêm defendendo em fóruns internacionais a reforma de organismos multilaterais, maior financiamento para transição energética e atenção ao combate à fome. A convergência foi evidente na visita de Lula a Nova Délhi, em fevereiro, quando a corrente comercial deste ano já acumulava alta de 20 %.

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Márcio Elias Rosa, titular do MDIC, destaca que Brasil e Índia representam as maiores democracias do Sul Global e compartilham “compromisso com inclusão social e distribuição de renda”. Para o ministro, a parceria reduz a dependência brasileira de mercados com políticas tarifárias mais restritivas, como os Estados Unidos, e amplia as opções de financiamento para obras de infraestrutura.
Críticos minerais e transição energética
Outros acordos recentes envolvem a troca de tecnologia na produção de baterias de lítio, pesquisa de terras raras e cooperação em biocombustíveis. Com uma das maiores frotas flex do mundo, o Brasil vê na expertise indiana em etanol um complemento para avançar no chamado combustível sustentável de aviação.
Próximos passos
O calendário bilateral prevê nova rodada técnica ainda neste semestre, em Nova Délhi, para detalhar quais tarifas podem ser reduzidas de imediato. Também está em estudo a criação de um mecanismo de liquidação em moedas locais, reduzindo custos cambiais para pequenas e médias empresas.
Do lado empresarial, os indianos devem retornar em agosto para a Feira Internacional da Amazônia, em Manaus, com foco em bioeconomia. A ApexBrasil prepara contrapartida: missão de agroindústria brasileira ao estado de Gujarat, mirando o mercado de 70 milhões de consumidores daquele estado costeiro.
O que está em jogo
- Meta de R$ 20 bilhões: exige crescimento anual próximo de 10 % na corrente comercial.
- Diversificação de produtos: redução da concentração em commodities energéticas e minerais.
- Integração logística: novos corredores de exportação a partir do Nordeste.
- Segurança regulatória: memorando tenta encurtar prazos de licenciamento.
- Alinhamento geopolítico: reforço ao multilateralismo em meio a tensões tarifárias globais.
Com a visita da delegação indiana encerrada, governo e iniciativa privada avaliam que o momento é propício para avançar em projetos de médio prazo. Caso as medidas saiam do papel, Brasil e Índia deverão alcançar em quatro anos o maior patamar comercial de sua história bilateral, inaugurando nova fase de integração econômica entre as duas maiores economias democráticas do hemisfério sul.
