Uma mensagem de voz enviada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro revela que o parlamentar recorreu ao empresário para tentar “destravar” um ativo minerário de interesse do advogado Thiago Rodrigues de Faria, antigo assessor de seu gabinete. O áudio, de 30 de março de 2025, foi obtido pela coluna de Juliana Dal Piva e traz o congressista chamando o interlocutor de “lindão” enquanto solicita a intermediação.
Apesar de dizer que não mantinha relação próxima com Vorcaro, Nikolas utiliza tratamento informal — “Ei, Dani” — e afirma confiar plenamente em Faria, apresentado como “irmão”. Minutos depois da gravação, o ex-controlador do extinto Banco Master responde com áudio de visualização única, seguido de texto: “Amém irmão. Estamos na guerra juntos”. Não há confirmação de que o encontro sugerido ocorreu nem se o pleito foi atendido.
O pedido feito por WhatsApp
Como foi a abordagem
No domingo em que a mensagem foi enviada, Nikolas inicia desculpando-se pela hora e prometendo ser breve. Explica que Faria já passara por avaliação técnica interna na empresa de Vorcaro, mas a liberação do ativo mineral continuava pendente. “Não sei nem do que se trata, mas como é uma pessoa que eu confio totalmente, tô passando aí pra você”, diz o deputado.
Encaminhamento do contato
Logo após a resposta sonora do ex-banqueiro, Nikolas encaminha o número de telefone de Faria e encerra com um “qualquer coisa tô à disposição”. Na manhã seguinte, avisa que o advogado estaria em Brasília e disponível para conversar. Vorcaro devolve no dia posterior: “Deixa comigo”. O conteúdo posterior do diálogo não aparece nos registros.
Quem é quem no diálogo
O parlamentar mineiro
Nikolas Ferreira, eleito em 2022, ganhou projeção nacional nas redes sociais e integra a bancada bolsonarista na Câmara. O áudio indica que, mesmo na agenda privada, o deputado recorre a aliados empresariais para atender demandas de pessoas ligadas ao seu gabinete.
O ex-dono do Banco Master
Daniel Vorcaro foi controlador do extinto Banco Master e mantém atuação no mercado financeiro. Nas mensagens, ele se coloca “na guerra” junto do parlamentar, sinalizando disposição em atender ao pedido, mas não explicita quais providências seriam tomadas.
O advogado e ex-assessor
Thiago Rodrigues de Faria trabalhou oficialmente no gabinete de Nikolas e, segundo o deputado, é “irmão” e homem de confiança. Procurado, Faria declarou ao ICL Notícias que conhece Vorcaro por serem ambos de Belo Horizonte e que buscava a liberação de um ativo de minério. Afirmou ainda nunca ter sido chamado pela Polícia Federal porque “não tem nada a ver com isso”.

Imagem: Internet
Posicionamentos e silêncio
A reportagem do UOL solicitou manifestação da assessoria de Nikolas Ferreira, mas não havia recebido retorno até a publicação do material original. Já o advogado preferiu blindar o parlamentar, considerando as perguntas “nada a ver” com a campanha em curso no momento do contato.
O que ainda não se sabe
- Se o encontro entre Vorcaro e Faria chegou a ocorrer em Brasília.
- Quais eram os detalhes do ativo minerário pendente e por que precisava de liberação.
- Se houve contrapartida política ou financeira pela intermediação.
- Quais medidas, se houver, foram adotadas por órgãos de controle ou pelo Ministério Público a partir da revelação do áudio.
Repercussão e próximos passos
A divulgação do material adiciona pressão sobre Nikolas Ferreira, que já enfrenta intenso escrutínio público. Além de eventuais desdobramentos judiciais, o episódio pode repercutir no Conselho de Ética da Câmara, caso parlamentares decidam acionar o colegiado. Até o momento, contudo, não há registro de representação formal.
Vorcaro, por sua vez, mantém perfil discreto desde que deixou o comando do Banco Master. A mensagem “estamos na guerra juntos” sugere alinhamento político, mas o ex-banqueiro ainda não se pronunciou em detalhes sobre o conteúdo das conversas.
Sem respostas oficiais de nenhuma das partes, o caso permanece aberto. A exposição da tentativa de intermediação revela, porém, a confluência entre interesses parlamentares, advocacia privada e capital financeiro no centro do poder em Brasília.