Em liberdade forçada, artista cubano que desafiou o regime relata 5 anos de prisão e denuncia “país sequestrado”

    0

    Ao cruzar as calçadas ensolaradas de Miami, Luis Manuel Otero Alcántara estranha a ausência de câmeras e algemas. O artista plástico, rosto mais conhecido do Movimento San Isidro, deixou Cuba em 18 de julho depois de cumprir cinco anos na penitenciária de segurança máxima de Guanajay, condenado por “desacato”, “desrespeito aos símbolos da pátria” e “distúrbio público”. A liberdade, porém, veio condicionada: ou aceitava o exílio ou continuaria atrás das grades.

    Reconhecido pela Time entre as cem pessoas mais influentes do mundo e declarado “prisioneiro de consciência” pela Anistia Internacional, o criador de performances que passeou um mês inteiro segurando a bandeira cubana afirma ter percebido no cárcere que “presos e guardas compartilham a mesma cadeia erguida por uma cúpula que mantém o país sequestrado”. A seguir, ele narra as pressões, as greves de fome, a produção de quatro mil pinturas atrás dos muros e os dilemas de recomeçar longe de casa.

    Da arte de rua ao corredor de segurança máxima

    Nascido em Havana há 38 anos, Otero Alcántara fundou, em 2018, o coletivo San Isidro, que transformou performances públicas em ferramenta de contestação política. Entre as ações mais contundentes esteve a obra “Drapeau”, na qual carregou a bandeira nacional a todo momento — no banho de mar, no carnaval, até no banheiro — para abrir debate sobre o uso dos símbolos pátrios. A visibilidade crescente resultou em vigilância permanente, mais de 90 detenções relâmpago e sucessivas noites no calabouço.

    A ruptura definitiva aconteceu nos protestos em massa de 11 de julho de 2021. Detido durante as manifestações, o artista foi enviado a Guanajay, 30 km a oeste da capital. Um ano depois, um julgamento a portas fechadas selou a pena de cinco anos.

    “Circo” judicial

    Segundo ele, o veredito já estava pronto antes mesmo de o juiz entrar na sala. A promotoria, a defesa e até os familiares presentes sabiam que a sentença seria exemplar. “Quando minha tia declarou que eu era ‘um bom menino’, chorei. Tentei não mostrar fraqueza à ditadura, mas somos humanos”, recorda.

    A rotina dentro de Guanajay

    Quatro por três metros e câmeras por todos os lados

    Na ala de segurança máxima, dividia uma cela de quatro metros por três com mais três detentos, todos sob vigilância ininterrupta. As camas de cimento e o banheiro sem porta anulavam qualquer vestígio de privacidade. “Você respira o calor, a fumaça, o cheiro de esgoto e a ansiedade do outro”, descreve.

    Arte como arma de sobrevivência

    O tempo, diz ele, é a primeira ferramenta de controle de uma ditadura — e foi justamente o tempo que o artista resolveu subverter. Cada um dos 1.826 dias preso virou peça de uma obra vendida a colecionadores internacionais: quem adquiria o “dia” recebia um recorte de almanaque e um contrato conceitual. “A arte impediu que eu virasse apenas um homem olhando para o teto”, resume.

    Além dos projetos conceituais, Otero Alcántara produziu cerca de quatro mil pinturas, muitas feitas em papel artesanal ou pedaços de lençol. Algumas retratavam militares “frustrados e rasgados”, pintadas numa cela de castigo quase sem luz, onde passou até 30 dias isolado. A segurança confiscou parte das telas, mas o volume foi suficiente para ser contrabandeado e hoje compõe um acervo que ele deseja expor com o cheiro original da prisão.

    Greves de fome e vigilância especial

    Para contestar abusos, iniciou ao menos sete greves de fome — a mais longa durou 48 dias. A fama internacional o protegia de agressões físicas graves, mas também lhe rendeu monitoramento constante. Um preso-informante dormia na mesma cela e relatava cada movimento à Segurança do Estado. Ao mesmo tempo, certas “regalias” visavam mantê-lo calado: por dividir corredor com detentos condenados à perpétua, recebia porções extras de comida. Em contrapartida, foi privado dos abatimentos de pena concedidos a outros internos.

    Alimentação escassa e rede de apoio externa

    Se a dieta oficial refletia a escassez generalizada de Cuba — arroz malcozido, feijão ralo e proteína raramente vista —, a família e amigos percorriam até 50 km sem transporte público para levar mantimentos. “Um arroz com ovo vindo de casa carregava tempero de afeto e virava símbolo de resistência”, conta.

    Do cárcere ao exílio: a decisão dolorosa

    Desde a chegada a Guanajay, agentes propunham a troca entre liberdade e banimento. O dissidente rejeitou a oferta por 18 meses, alegando não querer abandonar o país. Com o tempo, concluiu que, fora dos muros, teria mais espaço para criar e denunciar. “Lá dentro, 80% da energia vai para lidar com a repressão; sobra quase nada para a arte”, avalia.

    No entanto, define o exílio como “outra forma de violência política”. Aos prantos, admite sentir falta do filho, dos sobrinhos e da vizinhança que abastecia suas performances de rua. Os Estados Unidos concederam visto humanitário, e a embaixada em Havana organizou a saída. Amigos o aguardavam no aeroporto de Miami, onde ele pisou usando a mesma camiseta cinza do uniforme prisional — um gesto que simbolizou a travessia entre duas realidades.

    Planos para a nova fase

    Arte, denúncia e diálogo amplo

    Instalado provisoriamente num hotel próximo à Pequena Havana, o artista quer montar uma exposição itinerante com as obras confeccionadas na penitenciária e alcançar valores de mercado que financiem a militância. Também pretende dialogar com setores de esquerda e de direita internacionais: “Quero mostrar que, enquanto discutem ideologias, há presos políticos reais na ilha”.

    Liberdades no plural

    Otero Alcántara afirma não acreditar na ideia abstrata de “liberdade”, mas em liberdades concretas: ligar uma lâmpada, abrir a torneira, falar ao telefone sem contagem regressiva. “Depois de cinco anos falando baixo e quase sem me mover, meu corpo ainda aprende o que é caminhar sem pedir permissão.”

    Guarda e preso, reféns do mesmo sistema

    A principal lição, diz ele, foi perceber que muitos soldados também são reféns do regime. Jovens de zonas pobres aceitam o uniforme em troca de promessa de moradia ou de uma moto. “Vi guardas se automutilarem para tentar sair dali. Vestir farda não significa apoiar a ditadura”, conclui. A convicção de que a estrutura de poder maltrata igualmente quem vigia e quem é vigiado reforça, em suas palavras, a urgência de mudar “a cúpula que sequestrou Cuba”.

    Próximos passos sob o sol de Miami

    Enquanto busca moradia fixa e regulariza documentos, o performer programa a primeira mostra das peças resgatadas de Guanajay e reuniões com organizações de direitos humanos nos Estados Unidos e na Europa. A meta é criar uma plataforma cultural que mantenha foco na realidade cubana e ofereça suporte a outros artistas reprimidos.

    No fim de cada frase, ele repete que a luta só mudou de cenário: “Cada minuto será dedicado a libertar Cuba”. Em seguida, agradece a possibilidade de falar sem ser censurado e pede licença — agora livre — para caminhar pelas ruas da Flórida sem que ninguém o siga com uma câmera.

    {internal_links}

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.