Apoio dos norte-americanos à guerra contra o Irã afunda para 33% e pressiona Trump às vésperas das eleições

    0

    A rejeição popular à ofensiva norte-americana contra o Irã atingiu o patamar mais alto desde o início do conflito, há cinco meses. Pesquisa Reuters/Ipsos realizada no fim de semana indica que só um em cada três norte-americanos endossa a guerra, enquanto dois terços a desaprovam ou se dizem indecisos — cenário que lança uma sombra sobre as chances republicanas nas eleições de meio de mandato em novembro.

    O levantamento mostra ainda que 69% da população — incluindo quatro em cada dez eleitores do Partido Republicano — consideram que o presidente Donald Trump falhou em explicar quais são, afinal, os objetivos da intervenção. A Casa Branca rebate, mas o índice de apoio à guerra permanece inferior a 40% desde os primeiros bombardeios, contrastando com o respaldo obtido por conflitos anteriores dos EUA.

    Descompasso entre governo e opinião pública

    A pesquisa ouviu 1.246 adultos, on-line e em todo o país, entre sexta-feira e domingo, com margem de erro de três pontos percentuais. Segundo o instituto, 33% aprovam a campanha militar, 58% a rejeitam e o restante não tem posição definida. Em março, o apoio chegava a 37%; no dia da primeira ofensiva, em 28 de fevereiro, era de apenas 27%, quando muitos entrevistados se diziam “não convictos”.

    Embora a guerra encontre pouca ressonância, a aprovação geral ao trabalho de Trump subiu para 37%, três pontos acima do mês anterior. Analistas veem nesse salto uma provável resposta dos eleitores republicanos à retórica de “união nacional em tempos de conflito”, mas ressaltam que o ganho é modesto diante da insatisfação com o preço dos combustíveis e com o balanço de vítimas nas fileiras americanas.

    Objetivos variáveis alimentam incerteza

    • Mudar o regime iraniano – Em discursos iniciais, Trump disse apoiar “o povo iraniano na derrubada de seus líderes”.
    • Neutralizar mísseis balísticos – Na sequência, passou a defender ataques seletivos para destruir arsenais.
    • Impedir a bomba atômica – Mais recentemente, enfatiza que não permitirá que Teerã obtenha armas nucleares.

    A alternância de justificativas ajuda a explicar por que sete em cada dez norte-americanos avaliam que o governo não deixou claro o plano de guerra. “O que mais importa ao povo é ter um comandante-chefe que garanta a segurança”, disse a porta-voz Olivia Wales, assegurando que o presidente “não governará por pesquisas voláteis”.

    Comparação com outros conflitos

    O contraste com guerras anteriores é evidente. Em 2003, a invasão do Iraque recebeu o aval de cerca de 70% dos cidadãos nos primeiros meses; já a campanha do Afeganistão, iniciada em 2001, foi aprovada por quase 90%. Especialistas lembram que ambos os episódios contavam com forte narrativa de ameaça direta — armas de destruição em massa no Iraque e a caçada a Osama bin Laden no Afeganistão —, enquanto a ofensiva contra o Irã carece de consenso sobre a urgência.

    “Não está claro por que começamos uma guerra contra eles. Não faço ideia”, resume Alex Womack, ex-fuzileiro que serviu na Guerra do Golfo e hoje mora na Geórgia. Republicano convicto, ele diz que seu entusiasmo com Trump diminuiu. “Pessoalmente, não acho que ele esteja se saindo muito bem”, lamenta.

    Efeitos econômicos pesam no julgamento

    Os 18 militares norte-americanos mortos até agora e as milhares de vítimas no Irã e no Líbano são apenas parte da conta apresentada aos eleitores. A disparada no preço da gasolina — de cerca de US$ 3 para pouco mais de US$ 4 por galão desde fevereiro — atinge o bolso das famílias e contamina a percepção sobre a condução da economia.

    “Isso pressiona o partido de inúmeras maneiras, todas negativas”, avalia Alex Conant, ex-porta-voz da Casa Branca durante a gestão George W. Bush. “É difícil vencer o debate econômico quando o foco está na política externa e a bomba atinge o consumidor diretamente na bomba de combustível.”

    Impacto eleitoral imediato

    Entre os eleitores independentes, grupo decisivo nas disputas legislativas, a pesquisa aponta vantagem de 36% a 20% para candidatos democratas ao Congresso. O mesmo segmento prefere a oposição também na gestão da economia. Caso o padrão se mantenha, os republicanos correm o risco de perder as magras maiorias que detêm hoje na Câmara e no Senado.

    Durante a campanha de 2024, Trump prometeu “manter os EUA fora de guerras prolongadas” e chegou a prever que uma eventual operação militar contra o Irã duraria “quatro ou cinco semanas”. Irritado com comparações à Guerra do Vietnã, de duas décadas, ele agora enfrenta questionamentos sobre a duração e o custo humano do novo conflito.

    Base eleitoral dividida

    O voto independente que ajudou a levá-lo de volta à Casa Branca já dá sinais de fadiga. Rhyan Anderson, morador de Fairburn, também na Geórgia, votou em Trump em 2024, mas afirma que o presidente deveria “cuidar mais dos problemas internos” do que “ajudar Israel ou outros aliados”. Trabalhando em dois empregos, Anderson lembra ter optado pelo democrata Joe Biden em 2020 e avisa que pode repetir a escolha se a guerra continuar.

    Expectativa e incertezas

    Por ora, a Casa Branca mantém a linha de que não se deixará pautar por sondagens, mas congressistas republicanos já admitem, reservadamente, a necessidade de apresentar um plano de saída ou, ao menos, avanços concretos que justifiquem o esforço militar. Sem isso, alertam estrategistas, a combinação de desgaste externo, alta dos combustíveis e mortalidade crescente tende a reforçar o sentimento de “guerra sem propósito” — algo que a história recente mostra ser devastador nas urnas.

    Nos próximos meses, a agenda do Capitólio inclui votações sobre novos créditos de guerra, enquanto o presidente se reunirá com os aliados Volodymyr Zelensky e Benjamin Netanyahu em busca de apoio diplomático. Cada passo será acompanhado de perto por uma opinião pública cada vez mais cética, cuja paciência, segundo as sondagens, já se aproxima do limite.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.