Mensagens apreendidas pela Polícia Federal na investigação que levou o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, à prisão expuseram um personagem habituado a transitar com desenvoltura entre partidos, tribunais e escritórios de advocacia: o baiano-mineiro Ciro Rocha Soares. Foi ele quem tentou abrir portas no Supremo Tribunal Federal e no Ministério Público para o empresário, movimento que ajuda a explicar por que seu nome passou a frequentar os bastidores da atual crise que sacode o Judiciário.
Descrito por interlocutores como alguém capaz de “vender vento” e agendar reuniões até durante voos entre Salvador, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, Ciro deixou formalmente a defesa de Vorcaro quando o cliente decidiu negociar delação premiada. Afastou-se do processo, mas não do amigo: continua a aconselhar o banqueiro em conversas reservadas e a fazer pontes com autoridades, inclusive com o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Da arquibancada ao escritório: a origem da amizade
O primeiro encontro entre Ciro e Vorcaro ocorreu há seis anos, num camarote do Mineirão durante Atlético-MG x Athletico-PR. Vorcaro, então patrocinador do Galo, fora apresentado ao advogado pelo empresário da construção civil Saulo Wanderley. O entrosamento foi imediato: em poucos meses, Ciro assumiu casos do Banco Master e se transformou no principal interlocutor do banqueiro na capital federal.
A afinidade, porém, não se limitou ao campo profissional. Amigos próximos relatam viagens conjuntas, almoços em Brasília e frequentes diálogos sobre política. Mesmo após a saída oficial do processo, Ciro manteve o celular ligado para Vorcaro e para os defensores que o sucederam, sinalizando que não abandonaria o cliente “na hora mais difícil”.
Portas abertas no Judiciário baiano
Antes de chegar aos holofotes nacionais, Ciro construiu carreira de quase três décadas na Bahia. Filho do advogado Angelo Soares, aproximou-se do Tribunal de Justiça baiano sob a tutela do desembargador Carlos Alberto Dultra Cintra, amigo do pai e ex-presidente da Corte, morto em 2023. O apadrinhamento rendeu acesso a gabinetes estratégicos e a primeira leva de clientes: prefeitos, deputados estaduais e gestores municipais em busca de defesa eleitoral ou cível.
Foi justamente a Justiça Eleitoral que o levou a Brasília, via Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nas idas e vindas à capital, ampliou o rol de contatos para além das togas. Um dos laços mais duradouros é com o senador Otto Alencar (PSD-BA), vizinho de porta durante 15 anos e presença constante nos almoços de domingo na casa do advogado. Otto, por sua vez, apresentou Ciro a quadros de peso do PSD e a ex-ministros dos governos petistas.
Gonet, medalha e novos horizontes
O relacionamento com Paulo Gonet, hoje PGR, ganhou holofote em outubro do ano passado, quando a Assembleia Legislativa da Bahia concedeu a ele a Medalha de Cidadão Baiano. Ciro foi convidado de honra da solenidade, que reuniu Otto Alencar, o ex-líder do governo Jaques Wagner e parlamentares influentes do PSD. Nos bastidores, contava-se que era o advogado quem organizara o grupo de juristas presente à cerimônia.
Negócios, ilhas e a trilha do dinheiro
Nem só de política vive a rede do advogado. No mercado financeiro, ele tem trânsito com Marcelo Pessoa, sócio-sênior da Galapagos Capital. Relatórios da PF apontam que Ciro tentou incluir Pessoa em uma viagem a Londres bancada por Vorcaro; o próprio banqueiro vetou o convite, temendo exposição. Pessoa é ex-proprietário da Ilha Parapituba, resort particular administrado pela Prime You, onde Ciro costumava passar fins de semana.
Em 2023, Pessoa vendeu duas das quatro cotas da ilha, mantendo as restantes. Uma das adquirentes foi o médico Gabriel Almeida, hoje investigado pela PF por suposto comércio de substâncias clandestinas — entre elas a tirzepatida manipulada, princípio ativo do remédio para emagrecimento Mounjaro. Segundo os investigadores, Parapituba teria servido de palco para apresentações a potenciais compradores, o que pôs a propriedade – e, por tabela, seus frequentadores – no radar da corporação.

Imagem: Internet
Agenda cheia, influência em xeque
A revelação das conversas entre Ciro e Vorcaro colocou sob lupa a habilidade do advogado para costurar encontros difíceis. Amigos relatam que ele mantém agenda de autoridades no celular e avisa que consegue “entrar em qualquer gabinete” desde que saiba o motivo. Esse capital relacional, no entanto, agora enfrenta escrutínio: procuradores querem saber até onde foi a atuação de Ciro para influenciar decisões de órgãos de controle financeiro e tribunais superiores.
Em depoimentos preliminares, pessoas próximas ao advogado sustentam que ele apenas “abriu portas”, sem prometer resultados. A tática, dizem, mistura simpatia, presença constante em eventos jurídicos e profundidade nos temas em discussão. “Ele pode falar de futebol, de decisão monocrática ou de balanço bancário com a mesma tranquilidade”, resume um ex-sócio.
Efeito colateral no Caso Banco Master
A atuação de Ciro ganha peso porque o Banco Master é acusado de operar esquema de empréstimos irregulares e lavagem de dinheiro. Vorcaro, detido preventivamente, tenta acordo de colaboração para reduzir pena. Investigadores avaliam se houve tentativa de obstrução de justiça quando o banqueiro buscou, com auxílio do advogado, reuniões com integrantes do Supremo e do Ministério Público.
Os diálogos também citam a possibilidade de aproximação de ministros do STF por meio de terceiros. Nessa etapa, Ciro teria mencionado nomes influentes no PT e em partidos de centro, sugerindo que o apoio político poderia arrefecer pedidos de prisão. A defesa de Vorcaro nega manobra e diz que as conversas foram mal-interpretadas.
Próximos passos
Com o inquérito em fase avançada, o Ministério Público avalia se chama Ciro para prestar depoimento formal. Paralelamente, a Ordem dos Advogados do Brasil acompanha o caso para identificar possível infração ética. Até agora, não há denúncia contra o advogado, mas o cerco jurídico a Vorcaro tornou-se, por tabela, um cerco às relações mantidas por seu “amigão”.
Enquanto isso, Ciro segue circulando. Foi visto recentemente em restaurantes do Lago Sul, em Brasília, em conversas com parlamentares interessados em pautas do setor de infraestrutura. A cada mesa que passa, cumprimenta um ministro, um empresário, um assessor. Resta saber se essa rede, que por anos abriu portas, resistirá à pressão das investigações que avançam pela Esplanada. {internal_links}
