O veto do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), às visitas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao ex-presidente Jair Bolsonaro por 90 dias reacendeu a ala mais combativa da pré-campanha do parlamentar à Presidência da República. Interlocutores relataram que a equipe eleitoral decidiu ampliar ataques à Corte, especialmente a Moraes, e reforçar a narrativa de perseguição política ao bolsonarismo.
A mudança de postura ficou evidente na noite de segunda-feira (13), quando Flávio, em transmissão ao vivo, acusou o magistrado de “interferir nas eleições” e questionou o prazo de três meses imposto pelo STF — período que se encerra após o primeiro turno. Nos bastidores, dirigentes do PL avaliam que o senador, agora diretamente impactado por decisões judiciais, ganhou legitimidade para assumir um tom que antes se concentrava no pai.
Decisão e efeitos
Alexandre de Moraes concluiu que Flávio utilizou o direito de visita para obter uma carta de Jair Bolsonaro com objetivo exclusivo de divulgação nas redes sociais, violando a proibição de o ex-presidente usar plataformas digitais, mesmo de forma indireta. Além de suspender as visitas, o ministro deu 48 horas para a defesa esclarecer se Bolsonaro tinha conhecimento prévio da publicação e enviou o caso ao procurador-geral eleitoral para investigar possível propaganda antecipada.
A defesa do senador informou que recorrerá. No sábado (11), logo após deixar a residência onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar, Flávio leu em live a carta na qual o ex-chefe do Executivo pede união dos apoiadores em torno da pré-candidatura do filho, apresentado como “porta-voz” e “melhor opção” da direita para o Planalto.
Da moderação ao confronto
Desde que foi lançado pré-candidato, Flávio vinha adotando discurso mais ameno, evitando ataques diretos ao STF para tentar ampliar sua base além do eleitorado bolsonarista fiel. A estratégia contrastava com a linha dura de 2025, quando o julgamento da tentativa de golpe elevou as críticas à Corte.
Ainda assim, sinais de retomada do embate surgiram no fim de junho, em evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), quando o senador afirmou que o STF “parece mais uma delegacia de polícia” e criticou “canetadas” de ministros — sem citar nomes. Após o novo impedimento, porém, passou a mencionar Moraes diretamente.
Imagem: Sergio Lima
Reações dentro do PL
O líder do partido na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), avaliou que a decisão pode “vitimizar” Jair Bolsonaro e favorecer o filho na campanha, desde que o tom seja ajustado. O coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), divulgou nota classificando o despacho como “autoritário” e “desproporcional”, afirmando que parte do STF deixou de agir como árbitro institucional para se tornar adversário político.
Em outro comunicado, a assessoria de Flávio comparou a situação de Bolsonaro à de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quando esteve preso na Lava-Jato, lembrando que o petista escreveu cartas — inclusive pedindo votos a Fernando Haddad — e concedeu entrevistas sem restrições semelhantes. O ex-presidente Bolsonaro foi condenado pela tentativa de golpe de Estado, mas cumpre prisão domiciliar por motivos de saúde, com veto ao uso de redes sociais.
Aliados preveem que a comparação com Lula e a alegação de tratamento desigual pelo Judiciário ganhem centralidade no discurso nas próximas semanas, substituindo a estratégia de moderação adotada desde o lançamento da pré-candidatura e recolocando o confronto com o STF no centro da narrativa eleitoral bolsonarista.
Com informações de O Globo
