Num gesto pouco habitual na diplomacia norte-americana, o presidente Donald Trump decidiu ir pessoalmente até a Base Aérea de Andrews, nos arredores de Washington, para receber o líder chinês Xi Jinping na próxima quarta-feira (23). O encontro promete agitar tanto a agenda geopolítica quanto o mundo corporativo: na noite seguinte, um jantar de Estado na Casa Branca reunirá Xi, Trump e os principais executivos do Vale do Silício, em pleno momento de disputa comercial e tecnológica entre as duas maiores economias do planeta.
A visita oficial, que se estende até a sexta-feira (25), ocorre a poucas semanas do fim da trégua tarifária firmada entre os dois países e tem como pano de fundo o avanço da inteligência artificial, as restrições a exportações sensíveis e a dependência global das terras raras controladas pela China.
Agenda apertada e cerimônias de alto nível
De acordo com o roteiro divulgado pela Casa Branca, o primeiro dia será marcado pela recepção militar na pista de Andrews, seguida de breve cerimônia no local. Já na quinta-feira (24), Xi e sua mulher, Peng Liyuan, serão recebidos na Ala Oeste por Trump e pela primeira-dama, Melania. Haverá saudação oficial nos jardins, homenagem das Forças Armadas e, em seguida, reunião bilateral a portas fechadas.
Na noite de quinta, o East Room será palco de um jantar de gala em que ambos os presidentes devem discursar. Na sexta-feira pela manhã, os dois casais tomarão chá reservado na residência oficial e depois visitarão os Arquivos Nacionais, onde estão expostos documentos fundadores dos EUA, justamente quando o país celebra 250 anos de independência. Xi deve deixar Washington ainda na tarde de sexta.
Raridade na diplomacia dos EUA
Chefes de Estado costumam ser recebidos por representantes de segundo escalão no aeroporto; a presença direta do presidente é sinal de deferência especial. A última vez que um líder estrangeiro recebeu tratamento semelhante em Andrews ocorreu em circunstâncias protocolares muito específicas, segundo o serviço histórico da Casa Branca. O gesto de Trump é interpretado como tentativa de criar ambiente favorável antes de negociações sensíveis.
CEOs de big techs na mesa presidencial
A lista de convidados para o jantar chama atenção pelo peso corporativo. Estarão presentes Jeff Bezos (Amazon), Elon Musk (Tesla), Sundar Pichai (Alphabet/Google), Michael Dell (Dell Technologies), Jensen Huang (Nvidia), Sam Altman (OpenAI), Jane Fraser (Citigroup) e Tim Cook (Apple), além de membros do gabinete norte-americano.
A inclusão de nomes ligados diretamente à pesquisa em inteligência artificial demonstra a centralidade do tema nas conversas bilaterais. Para Washington, a IA envolve questões de competitividade econômica e segurança nacional; para Pequim, é peça-chave do plano “Made in China 2035”, que busca liderar cadeias de valor de alta tecnologia.
Clima de lobby e cautela
Empresários norte-americanos veem na visita oportunidade para pressionar por maior previsibilidade regulatória e acesso ao vasto mercado chinês. Do lado de Trump, a Casa Branca sinaliza que não pretende afrouxar controles de exportação em áreas consideradas estratégicas — semicondutores avançados, softwares de machine learning e equipamentos de telecomunicações continuam sob licença rígida.
Negociações sobre IA e terras raras
Antes mesmo da chegada de Xi, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, se reúne em Nova York com o vice-premiê He Lifeng para preparar a pauta econômica. A conversa inclui:
- definição de salvaguardas para uso civil de algoritmos avançados;
- revisão da trégua tarifária que expira em novembro;
- garantias de fornecimento de terras raras, cruciais para setores de defesa, carros elétricos e eletrônicos.
Uma autoridade de alto escalão afirmou que Washington “não colocará relaxamento de controles de exportação na mesa” em troca de maior fluxo desses minerais, alegando que o compromisso chinês anterior não foi cumprido integralmente.

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Faixa restrita de cortes tarifários
Ainda assim, existe espaço para concessões limitadas. Estão em estudo reduções de tarifa sobre produtos “não sensíveis e não estratégicos”, expressão usada por negociadores para se referir a bens de consumo com baixo impacto tecnológico, como vestuário, brinquedos e utensílios domésticos. A medida serviria como gesto político sem abrir mão dos principais mecanismos de pressão.
Mercado automobilístico em foco
Questionado sobre a possibilidade de entrada de montadoras chinesas no mercado norte-americano, um assessor de Trump foi categórico: “Segurança nacional não está em negociação”. Fabricantes locais temem concorrência de elétricos produzidos por marcas como BYD e CATL, que poderiam chegar ao país com preços agressivos. Pelas regras vigentes, qualquer investimento estrangeiro em setores considerados críticos passa pela análise do Comitê de Investimentos Estrangeiros (CFIUS).
Delegação empresarial chinesa ainda indefinida
Do lado de Xi, a composição da comitiva corporativa depende de ajustes finais. Nomes cotados incluem BYD, CATL, Xiaomi, Gotion, Hisense, Wanxiang Group, Bank of China e COFCO Group. Algumas dessas empresas enfrentam investigações antiespionagem e barreiras alfandegárias nos EUA, o que mantém a lista em aberto até a véspera do embarque.
O que esperar da cúpula
Embora nenhuma grande assinatura esteja programada, diplomatas veem a visita como “momento de calibragem” da relação. Entre as metas figuram:
- prorrogar ou substituir a trégua tarifária antes de novembro;
- estabelecer canal permanente sobre IA, evitando corrida armamentista tecnológica;
- negociar cotas mínimas de terras raras com penalidades claras para descumprimento;
- delinear parâmetros para investimentos cruzados no setor automotivo elétrico;
- retomar consultas militares suspensas desde o último atrito no Mar do Sul da China.
Analistas lembram que a proximidade das eleições norte-americanas, em 2028, adiciona componente doméstico às tratativas: Trump precisa mostrar firmeza sem fechar as portas para acordos que agradem exportadores rurais e o setor de tecnologia, base importante de doadores de campanha.
Próximos passos
Ao término da visita, equipes de ambos os governos devem elaborar relatório conjunto, cuja versão preliminar pode ser divulgada até meados de outubro. Caso avanços concretos não sejam alcançados, a Casa Branca já cogita nova rodada ministerial em Pequim ainda este ano.
Seja qual for o resultado, a imagem de Trump ao lado de Xi, ladeados por titãs da indústria digital, deve reforçar a percepção de que o tabuleiro geopolítico e o universo corporativo estão cada vez mais entrelaçados — e de que qualquer passo em falso pode redefinir caminhos da inovação global nos próximos anos.
