Um raro veto duplo de Rússia e China impediu nesta terça-feira (17) a renovação do mandato de especialistas da ONU encarregados de vigiar o cumprimento das sanções impostas ao programa nuclear iraniano. A iniciativa, patrocinada pelos Estados Unidos, precisava do aval de todos os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, mas acabou arquivada a menos de uma semana do encontro previsto entre os presidentes Xi Jinping e Donald Trump em Washington, elevando a tensão diplomática.
Para Washington, a decisão de Moscou e Pequim cria uma “lacuna de monitoramento” que favorece Teerã e os governos que lucram ajudando o Irã a driblar embargos. Já os dois países asiáticos sustentam que as medidas restritivas venceram juridicamente e acusam as potências ocidentais de utilizar o tema como instrumento de pressão política.
Como foi a votação
A resolução americana recebeu apoio do Reino Unido, da França e de oito membros não permanentes do colegiado. Dois países se abstiveram. Com poderes de veto, Rússia e China derrubaram o texto.
O que previa a proposta dos EUA
- Prorrogar por mais um ano o painel de especialistas responsável por rastrear compras ilícitas de material nuclear e evasões de sanções.
- Produzir relatórios semestrais que subsidiam decisões do próprio Conselho de Segurança.
- Recomendar ajustes no regime de embargo sempre que constatada violação.
Argumentos de Moscou e Pequim
O embaixador chinês na ONU, Fu Cong, afirmou que o Conselho precisa evitar “dois pesos e duas medidas, manipulação política, pressão e confronto”. Segundo ele, insistir num mecanismo já baseado em sanções expiradas apenas alimenta disputas geopolíticas em vez de estimular a diplomacia.
Na mesma linha, o representante russo, Vasily Nebenzya, qualificou a iniciativa ocidental como “caminho destrutivo, guiado por interesses econômicos, para exercer pressão sobre a República Islâmica do Irã”. Para Nebenzya, manter o painel ativo significaria ignorar entendimentos já alcançados sobre o direito iraniano de desenvolver energia nuclear para fins civis.
Acusações de ‘obstrucionismo’
A embaixadora americana Jennifer Locetta rebateu com dureza, classificando o veto conjunto como “ato de obstrucionismo”. De acordo com ela, Moscou e Pequim procuram bloquear a divulgação de informações que poderiam “implicar as suas próprias atividades de apoio a regimes párias”.
Reação dos Estados Unidos
Washington sustenta que, sem a equipe de peritos, a comunidade internacional perde o principal instrumento independente para detectar redes que abastecem o Irã com componentes sensíveis. Funcionários do Departamento de Estado consultados após a sessão disseram estudar alternativas, entre elas a criação de um grupo paralelo sob liderança do G7 ou o reforço da cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Contexto mais amplo da disputa
O impasse chega num momento em que as relações entre as três maiores potências nucleares do planeta se deterioram em várias frentes. Desde maio, autoridades americanas acusam Moscou de enviar, pelo mar Cáspio, peças de drones para Teerã. Os EUA também apontam o fornecimento russo de imagens de satélite que revelariam posições de navios de guerra norte-americanos na região.

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Cooperação militar Rússia-Irã
Segundo fontes do Pentágono, a parceria russa ajuda Teerã a reconstruir capacidades ofensivas abaladas por bombardeios realizados pelos EUA e por Israel no fim de fevereiro. O estreitamento militar entre os dois países preocupa os estrategistas americanos por abrir um corredor de transferência de tecnologia que escapa à rede ocidental de sanções.
Petróleo iraniano e interesse chinês
A China, por sua vez, tem sustentado economicamente o aliado persa. Compras de petróleo iraniano, vendidas com desconto diante das dificuldades de exportação, mantêm fluxo de caixa essencial para Teerã. Em agosto, quando Donald Trump anunciou uma nova rodada de sanções, Pequim reagiu instruindo suas estatais a ignorar as restrições.
Fiscalização nuclear em xeque
Além do revés no Conselho, a Agência Internacional de Energia Atômica relatou este mês que não conseguiu acesso a determinadas instalações iranianas. Desde a retirada americana do acordo nuclear de 2015, técnicos da AIEA relatam acesso cada vez mais limitado a centrífugas e estoques de urânio.
A suspensão do painel de especialistas torna ainda mais difícil, na avaliação de diplomatas europeus, obter dados salgados sobre possíveis desvios de material para fins militares. Sem unanimidade, qualquer nova tentativa de reativar o grupo dependerá de alterações no texto capazes de satisfazer chineses e russos—algo visto como improvável num prazo curto.
Próximos movimentos
Diplomatas americanos pretendem levar o assunto para a agenda do encontro entre Trump e Xi Jinping, na esperança de convencer Pequim a aceitar um compromisso que envolva benefícios comerciais. Já a Rússia sinaliza que só voltará a discutir o tema se for reconhecida a expiração formal das sanções nucleares aprovadas anteriormente.
Em Nova York, fontes ligadas à União Europeia defendem a retomada de negociações que reabilitem o acordo de 2015, congelem o enriquecimento de urânio iraniano em níveis baixos e restabeleçam um mecanismo internacional de verificação robusto. Enquanto isso, o vácuo de fiscalização criado pelo veto duplo deve prolongar a incerteza sobre a real dimensão do programa nuclear do Irã.