Uma estrutura que lembra nave espacial, nuvem ou árvore gigante começa a tomar forma no centro de Los Angeles: é o Museu Lucas de Arte Narrativa, criação do arquiteto chinês Ma Yansong para os produtores George Lucas e Mellody Hobson. O edifício de linhas ondulantes busca mais do que impressionar; quer instigar a curiosidade e sugerir um amanhã possível.
Aos 50 anos e à frente do estúdio MAD Architects, fundado em Pequim em 2004, Ma acumula duas décadas de projetos que misturam natureza e sensação futurista. A lista inclui óperas, torres residenciais que torcem sobre si mesmas e museus voltados a temas sociais, espalhados pela China, América do Norte e Europa.
Do hutong de Pequim a Los Angeles
Crescido em uma casa com pátio situada nos tradicionais hutongs da capital chinesa, Ma Yansong aprendeu cedo a ver arquitetura como extensão da vida cotidiana. Depois de se formar na Yale School of Architecture, nos Estados Unidos, passou um breve período no escritório de Zaha Hadid, experiência que reforçou sua atração por formas livres e esculturais.
O trânsito entre culturas reflete-se no campo de obras do arquiteto. Em Pequim, o escritório MAD ocupa justamente um conjunto de hutongs, num gesto que conecta passado e presente. Já em Los Angeles, o futuro Museu Lucas pousa sobre um tapete de jardins, água e áreas públicas, chamando atenção pela pele metálica que capta reflexos do céu californiano.
Reconhecimento internacional
- Em 2025 (ano anterior), Ma entrou na lista das 100 pessoas mais influentes da revista Time.
- Seu estúdio conta hoje com equipes em Pequim, Los Angeles e Roma, o que facilita a atuação em vários fusos.
A estética “montanhas e água” reinterpretada
Grande parte da inspiração de Ma vem da pintura shanshui – montanhas e água –, componente central da arte clássica chinesa. Em vez de reproduzir picos e rios literalmente, ele procura traduzir o fluxo natural em volumes ondulados, passarelas elevadas e coberturas verdes.
No Museu Lucas, essa visão aparece no telhado vivo coroado por placas solares. A pele orgânica cria sombras e aberturas que filtram a luz do sul da Califórnia, convidando visitantes a observar o céu, as nuvens e, quem sabe, imaginar galáxias longínquas – um aceno ao legado de Star Wars do fundador.
“Jardim construído” como princípio ecológico
Para Ma, a arquitetura oriental tradicional já dominava, séculos atrás, a tarefa de aproximar pessoas da natureza. Ele defende que pátios internos, lagos artificiais e rochedos esculpidos sempre funcionaram como micro-ecossistemas dentro das cidades. O desafio contemporâneo, afirma, é reinterpretar esses elementos sem nostalgia, usando tecnologia para melhorar conforto e eficiência energética.
Projetos marcantes além da China
Ao longo dos anos, o MAD Architects colecionou obras que viraram marcos urbanos:
- Ópera de Harbin – construída às margens do congelado rio Songhua, no nordeste chinês, apresenta fachada ondulante que lembra um lençol de neve soprada pelo vento.
- Absolute Towers – o par de edifícios residenciais em Mississauga, próximo a Toronto, ganhou apelido de “Marilyn Monroe” pela sinuosidade que rompeu a monotonia de torres ortogonais na região.
- Museum of Migration em Roterdã – futuro equipamento cultural dedicado a narrativas de deslocamento humano, previsto para ser envolvido por fachada translúcida que sublinha a ideia de transição.
Em todos eles, Ma prefere fachadas contínuas a ângulos retos, explorando materiais que possam ser curvados ou tensionados. O objetivo é “fazer o edifício respirar”, segundo costuma dizer em palestras.

Imagem: Internet
Conexões locais
A abordagem molda cada projeto às especificidades do entorno. Em Harbin, a pele branca dialoga com a neve. No Canadá, curvas suaves respondem ao ritmo lento do lago Ontário. Em Los Angeles, a cobertura prateada reflete palmeiras, carros e céus cor-de-rosa ao entardecer.
Arquitetura para pessoas, não monumentos
Embora muitos contratantes do MAD possuam grande poder econômico, Ma insiste que edifícios não devem servir como troféus de status. Para ele, a “grande virada” da arquitetura contemporânea é recolocar o usuário no centro da equação, e não o objeto construído.
Um exemplo claro é o conjunto habitacional Baiziwan, erguido em Pequim para famílias de baixa renda. Ali, seis quarteirões se conectam por praças abertas, um jardim elevado atravessa os blocos e a orientação solar maximiza o aproveitamento de luz natural. “Queria que qualquer morador se sentisse dono da cidade”, explicou o arquiteto ao apresentar o projeto.
Liberdade de movimento
O conceito de Ma inclui rotas fluidas para pedestres, ciclovias internas e ausência de portões que segreguem condomínio e bairro. Ele argumenta que a cidade chinesa, após décadas de crescimento acelerado, precisa reencontrar a escala humana perdida nas superquadras de concreto.
Um museu que mira o futuro
Com inauguração prevista para 2026, o Lucas Museum of Narrative Art deve abrigar coleções de cinema, pintura, fotografia e quadrinhos. A expectativa é receber dois milhões de visitantes anuais, atraídos tanto pelo acervo quanto pela experiência espacial proposta por Ma Yansong.
Ao perambular pelo volume brilhante, o público encontrará mirantes, passarelas suspensas e aberturas que emolduram trechos do céu californiano. A cada ponto, a intenção é repetir a sensação vivida pelo próprio arquiteto quando criança, sentado no pátio de sua casa em Pequim: observar o mundo e imaginar histórias.
Despertar curiosidade como missão
Ma acredita que edifícios conseguem estimular novas ideias quando surpreendem o olhar. Se a silhueta sugere uma nave intergaláctica ou uma nuvem passageira, tanto faz – o importante é que ninguém permaneça indiferente. “Quando as pessoas trazem interpretações distintas”, ressalta, “ganhamos uma diversidade de pensamento que vale mais que qualquer fachada icônica”.
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