A conclusão de um laudo complementar do Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo afastou de forma definitiva a hipótese de suicídio da soldado Gisele Alves Santana, 32 anos, encontrada baleada em fevereiro dentro do apartamento onde morava com o marido, o tenente-coronel da reserva Geraldo Leite Rosa Neto. O documento, entregue à Justiça na terça-feira (1º/9), sustenta que vestígios físicos no local e o estudo das manchas de sangue apontam a participação de uma segunda pessoa no disparo que matou a policial militar.
Com o novo parecer, o Superior Tribunal de Justiça manteve a prisão preventiva de Rosa Neto, acusado de feminicídio. Em decisão liminar, o ministro Reynaldo Soares da Fonseca citou risco concreto à coleta de provas, lembrando que o oficial, além de ocupar posto elevado na hierarquia da corporação, teria manipulado a cena do crime logo após o tiro.
Perícia desmonta versão inicial
A primeira ocorrência lavrada pela Polícia Civil classificava a morte como suicídio consumado. Entretanto, peritos recolheram indícios incompatíveis com essa versão, entre eles divergências na posição de arma, projétil e projétil residual, além da trajetória do disparo na cabeça da vítima. O laudo complementar detalhou a dinâmica interna do imóvel no bairro do Brás, zona central paulistana, e concluiu que Gisele não poderia ter atirado contra si mesma nas condições descritas pelo marido.
Segundo o IC, o padrão de espalhamento do sangue, a distância entre a arma e o ferimento e a ausência de resíduos de pólvora nas mãos da soldado tornam “categoricamente falsa” a tese de disparo autoprovocado. A investigação ainda apontou sinais de limpeza e rearranjo de objetos, reforçando a suspeita de que o tenente-coronel alterou a cena antes da chegada da perícia.
Dinâmica do disparo
- Trajetória do projétil indica ângulo incompatível com disparo feito pela própria vítima.
- Resíduos de pólvora ausentes nas mãos de Gisele, mas presentes em partes da roupa do suspeito.
- Manchas de sangue verticais e ausência de estampido em paredes sugerem que a policial estava sentada ou ajoelhada e não portava a arma.
Prisão confirmada pelo STJ
Após o laudo, a defesa de Rosa Neto impetrou habeas corpus alegando que ele colaborou com as investigações e que não haveria justificativa concreta para mantê-lo encarcerado. O ministro do STJ discordou. Para Fonseca, a liberdade do oficial ameaça a produção de provas, pois várias testemunhas pertencem à Polícia Militar, instituição na qual o acusado tem influência direta mesmo estando na reserva.
O magistrado também destacou relatos de que o coronel tentou eliminar vestígios e fez diversas ligações telefônicas antes de acionar oficialmente o socorro. Dessa forma, manteve-se a ordem de prisão preventiva, decretada em 17 de março e cumprida no dia seguinte, quando o militar foi localizado em um condomínio de São José dos Campos e levado ao presídio Romão Gomes.
Adiado outra vez o interrogatório
O depoimento de Rosa Neto à Justiça comum, previsto inicialmente para 3 de julho, já foi adiado duas vezes. A última remarcação transferiu a audiência para 8 de setembro no Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste da capital. A defesa insiste em anexar novo parecer técnico ao processo antes de responder às perguntas do juiz.
Relembre a cronologia do caso
- 18 de fevereiro – Gisele é encontrada ferida no apartamento; Bombeiros a levam de helicóptero ao Hospital das Clínicas, onde morre horas depois.
- 18 de fevereiro (manhã) – Coronel comunica o disparo a um desembargador amigo, antes de acionar formalmente o 190.
- Fim de fevereiro – Registro da ocorrência muda de suicídio para “morte suspeita” diante das primeiras inconsistências.
- Março – Conclusão dos primeiros laudos técnicos aponta incompatibilidades; Polícia Civil pede a prisão do oficial.
- 17 de março – Justiça Militar decreta prisão preventiva de Rosa Neto.
- 18 de março – Coronel é detido e transferido ao presídio Romão Gomes, recebendo apoio de colegas de farda na chegada.
- 1º de setembro – Laudo complementar descarta suicídio e confirma a tese de feminicídio.
- Setembro – STJ mantém a prisão e marca novo interrogatório.
Ligações ao desembargador ficaram fora da lista de testemunhas
Apesar de ter sido o primeiro a receber ligações do coronel após o disparo, o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan não figura entre as testemunhas arroladas por acusação ou defesa. Nos autos, as partes consideraram que a presença do magistrado no processo não acrescentaria elementos determinantes sobre a autoria do crime, embora ele tenha orientado o oficial por telefone e pessoalmente na manhã dos fatos.

Imagem: Internet
Registros telefônicos obtidos pela Polícia Científica revelam pelo menos 11 tentativas de contato feitas pelo militar ao magistrado entre 8h02 e 8h41 do dia 18 de fevereiro, intercaladas com chamadas ao 190 e a superiores da PM. Os peritos avaliam que esse intervalo foi decisivo para a alteração do local do crime.
Impacto na carreira militar
Enquanto responde por feminicídio, Rosa Neto permanece oficialmente na reserva remunerada da Polícia Militar, com soldo integral superior a R$ 28 mil. Já Gisele, na ativa, recebia cerca de R$ 7 mil mensais. Dentro da corporação, a Corregedoria avalia novos depoimentos que podem culminar em processo disciplinar e eventual expulsão do oficial, medida considerada rara para praças e oficiais de alta patente.
A repercussão do caso reforçou debates internos sobre violência de gênero envolvendo agentes de segurança. Organizações de policiais mulheres cobram protocolos específicos de atendimento quando o suspeito pertence às forças armadas estaduais, alegando risco de interferência hierárquica.
Próximos passos
Com o interrogatório marcado para 8 de setembro, a fase de instrução deverá ouvir ainda peritos, bombeiros e vizinhos do casal. Concluída essa etapa, o juiz decidirá se pronuncia o tenente-coronel a júri popular por feminicídio, crime que pode render pena de 12 a 30 anos de prisão.
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