A coordenação de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu manter no ar, pelo menos até amanhã, o vídeo de 30 segundos que lista denúncias contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A peça, apelidada de “currículo”, já ultrapassou a marca de 10 milhões de visualizações nas redes ligadas ao PT desde que estreou no horário eleitoral gratuito.
No conteúdo, narradores enumeram episódios que envolvem o primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro, como a investigação das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio e o pedido de R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o longa-metragem “Dark Horse”, biografia do pai. O material foi elaborado de forma conjunta pelos núcleos de televisão e mídias digitais da coligação e tornou-se o primeiro ataque direto ao senador exibido em cadeia nacional.
Estratégia de exposição do “pior dos Bolsonaros”
Para sustentar a ofensiva, a campanha criou o site “opiordosbolsonaros”, registrado no Tribunal Superior Eleitoral. Ali, militantes encontram 11 vídeos prontos para compartilhamento e a arte do “currículo” que circula nos perfis de dirigentes partidários e de integrantes do governo. A mensagem central é rotular Flávio como “o pior” entre os familiares de Jair Bolsonaro, recorrendo a casos que, segundo o comitê petista, evidenciam falta de transparência e proximidade com suspeitos de corrupção.
Parceria controversa com Daniel Vorcaro
O portal destaca a relação entre Flávio e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso por crimes financeiros. Mensagens e planilhas reveladas pelo site Intercept Brasil indicam que, do montante solicitado para o filme, R$ 61 milhões teriam sido pagos. O senador sustenta não haver irregularidade no pedido e classifica o episódio como “página virada”, mas ainda não apresentou prestação de contas.
Relembre as rachadinhas
Outra linha de ataque reapresenta o caso das rachadinhas, no qual o Ministério Público do Rio investiga suspeita de desvio de salários de assessores quando Flávio era deputado estadual. Embora a defesa do parlamentar conteste o processo, a acusação permanece viva no imaginário do eleitorado e serve de munição política.
Repercussão digital e manutenção na grade
O clipe viralizou rapidamente: perfis oficiais do PT, de parlamentares aliados e influenciadores simpáticos ao governo contribuíram para impulsionar o alcance, que superou oito dígitos em poucos dias. Analistas do QG avaliam que o engajamento justifica a continuidade da peça tanto nas inserções avulsas quanto nos blocos de propaganda partidária.
Embora a estratégia inicial previsse exibição por apenas dois dias, a audiência obtida e o retorno de militantes nas redes levaram a direção a prolongar o uso do material. Reservadamente, integrantes da comunicação avaliam que o “currículo” se mostrou mais eficiente do que ataques genéricos ao bolsonarismo e pretendem produzir versões temáticas do mesmo formato.
Trump, tarifaço e disputa pela soberania
O site reúne ainda oito declarações de Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro favoráveis às medidas restritivas do governo Donald Trump contra o Brasil. Entre elas está o tuíte de 9 de julho de 2025, em que Flávio, em inglês, escreveu: “Thank you, President Trump. Make Brazil free again.” Naquele momento, Washington anunciava a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro do STF Alexandre de Moraes e preparava tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.
No mês seguinte, o tarifaço foi confirmado. Durante sabatina no Jornal Nacional, Flávio atribuiu a sobretaxa à “falta de diálogo” da gestão Lula e disse discordar da postura do irmão Eduardo, que havia classificado as tarifas como “resposta legítima”. A divergência interna da família passou a ser explorada pelo PT para reforçar o discurso de defesa da soberania nacional.

Imagem: Internet
Impacto na percepção do eleitor
Pesquisas qualitativas encomendadas pela coligação indicam que lembranças de submissão a governos estrangeiros mexem com parte do eleitorado que, em 2022, votou em Bolsonaro mas hoje se declara indeciso. A equipe de Lula avalia que reacender o debate sobre tarifas norte-americanas ajuda a apresentar o presidente como defensor dos interesses do país, enquanto coloca os adversários na defensiva.
Exibição, registro e limites legais
A peça de 30 segundos foi submetida previamente à Justiça Eleitoral. Na avaliação de juristas que acompanham a campanha, o conteúdo não viola a legislação, pois se baseia em fatos já noticiados e documentados. O TSE veda apenas acusações infundadas ou caluniosas, o que, segundo a defesa petista, não se aplica ao caso.
Na grade de televisão, o vídeo aparece dentro do espaço do PT e em inserções de 30 segundos distribuídas ao longo da programação. Segundo integrantes da campanha, a decisão de mantê-lo no ar será revista a cada pesquisa interna. Caso o material continue entregando boa taxa de retenção — medição realizada por empresas de monitoramento de audiência —, novas veiculações não estão descartadas.
Resposta do senador
Procurado, Flávio Bolsonaro reafirmou que não vê problema em ter buscado recursos com Vorcaro para a cinebiografia do pai e reiterou que considera o caso superado. Sobre a peça petista, limitou-se a dizer que o PT “tenta esconder a incompetência de seu governo atacando a família Bolsonaro”. Até o momento, a defesa do senador não informou se ingressará com ação contra a propaganda.
Próximos passos na guerra de narrativas
A permanência do “currículo” na TV evidencia a disposição do PT em personalizar os ataques no principal herdeiro político de Jair Bolsonaro. Nos bastidores, estrategistas dizem enxergar em Flávio o elo mais vulnerável da família, seja pelo histórico de investigações, seja pela exposição constante nas redes. A ordem agora é produzir conteúdos segmentados para públicos específicos — mulheres, servidores públicos e evangélicos —, sempre ancorados em fatos pré-existentes para evitar contestações judiciais.
Ao mesmo tempo, a equipe bolsonarista ameaça responder com peças que associem o governo atual a escândalos como a compra de vacinas na pandemia e a crise da Petrobras. O embate acirrado tende a intensificar-se na reta final do horário eleitoral, com cada lado testando narrativas em tempo real e ampliando investimentos em impulsionamento digital.